Lembra-se de Ricardo, o “Labreca”?

Um herói na seleção nacional portuguesa, mas nunca consensual no Sporting. Mostrou aptidão entre os postes, mas também um raro gosto por jogar com os pés. O seu nome é Ricardo Alexandre Martins Soares Pereira, mas o primeiro basta para qualquer adepto de futebol em Portugal reconhecer o “Labreca”. Lembra-se dele?

Nasceu no Montijo, a 11/02/1976. Começou n’Os Unidos da sua terra, mas terminou a formação no Clube Desportivo do Montijo, pelo qual se estreou também a sénior. Os seus primeiros anos de formação foram marcados por constantes oscilações entre a baliza e o ataque, o que veio a justificar o seu à-vontade com a bola nos pés (por vezes excessivo) ao longo de toda a carreira, até que um treinador lhe deu um ultimato, obrigando-o a assumir a posição de guarda redes.

Boavista Futebol Clube (Facebook)

Em 1995/96 esteve perto de rumar ao Vitória SC, mas acabou por seguir para a cidade do Porto, onde representaria o Boavista FC. Na primeira época não teve qualquer oportunidade, mas a sua estreia não tardou muito mais, somando os primeiros minutos em 1996 no encontro diante do Estrela de Vendas Novas, a contar para a Taça de Portugal.

Daí em diante começaria a ser aposta regular, jogando inclusive a final da “Prova Rainha” diante do Benfica, partida que os axadrezados viriam a vencer, levando o troféu para a cidade Invicta. Outro título se seguiu, a Supertaça, e Ricardo continuou dono e senhor da baliza no Bessa. Seguiram-se, no entanto, dois anos em que foi pouco utilizado, mas no regresso, em 2000/01, foi presenteado com a conquista do Campeonato Nacional, ao serviço do célebre “Boavistão” de Jaime Pacheco, pelo qual se estreou, também, na Liga dos Campeões, na época anterior.

Chegando a 2003, após ver sair frustradas as tentativas do Benfica para levar o guardião para a Luz, foi o Sporting quem se antecipou ao rival, “roubando” Ricardo e trazendo-o para Alvalade, onde assumiu, de imediato, a titularidade. Quatro épocas se seguiram de leão ao peito e o “Labreca” gerou receções mistas entre os adeptos leoninos, havendo quem o adorasse e quem o criticasse duramente. Fez parte da tão conhecida época de 2004/05, em que o Sporting, num espaço de quatro dias, deitou por terra as esperanças de uma caminhada muito bem conseguida, ao perder o jogo decisivo do Campeonato diante do Benfica, seguindo-se a derrota em Alvalade na final da Taça UEFA, frente ao CSKA Moscovo.

A passagem por Lisboa, ainda assim, terminou com nota positiva, ao celebrar a conquista da Taça de Portugal, em 2006/07, a última época no clube. Seguiu-se uma aventura no estrangeiro, com o atleta a rumar ao Real Bétis, em Sevilha, onde se desempenhou bem nas duas primeiras épocas. Já na terceira, devido à descida de divisão do clube, Ricardo viu-se entre uma série de jogadores estrangeiros que acabariam afastados do plantel.

Após a experiência no sul de Espanha, chegou a ponderar pôr termo à carreira, mas um convite do Leicester City FC fê-lo mudar de ideias, mudando-se para Inglaterra, onde representou os Foxes na época 2010/11, pese embora ter jogado apenas em oito partidas. Isto porque contraiu uma grave lesão no ombro, que o impediu de atuar durante a maior parte da temporada.

Recuperado da lesão, e apesar de contar já 36 anos, Ricardo insistiu novamente em adiar a reforma, regressando a Portugal onde ingressou no plantel do Vitória FC. Em Setúbal atuou em 6 partidas apenas, mudando de clube novamente em 2012, onde passou a jogar no Olhanense. No Algarve ficou três épocas, somando um total de 18 partidas pelos leões de Olhão. O último jogo em que participou foi no empate a uma bola diante do Marítimo, em 2013/14, acabando por pendurar as botas no final da temporada seguinte, sem somar qualquer minuto.

Seleções de Portugal (Facebook)

Ricardo ganhou o carinho dos portugueses sobretudo ao serviço da seleção de Portugal. Estreou-se em Belfast, diante da Irlanda do Norte, em jogo de qualificação para o Mundial de 2002, acabando por jogar nas restantes partidas de apuramento para a competição. Chegou mesmo a viajar para o leste asiático com a formação das Quinas, mas acabou por ceder o lugar a Vítor Baía na fase final da prova.

 

O momento mais alto de toda a carreira de Ricardo foi, muito provavelmente, o tão conhecido jogo do Euro 2004 diante de Inglaterra, em que o guardião viria a assegurar a eliminação dos bretões no desempate pelas grandes penalidades, defendendo o pontapé de Darius Vassell…sem luvas. Em 2006, no Mundial realizado na Alemanha, Ricardo voltaria a vestir a capa de herói, defendendo os castigos máximos de Frank Lampard, Steven Gerrard e Jamie Carragher, mandando os ingleses para casa, de novo nos quartos de final.

O “mandato” de Ricardo na baliza portuguesa acabaria com a chegada de Carlos Queiroz ao comando das Quinas. Ainda assim, continua a ser, até hoje, o terceiro guarda redes com mais internacionalizações na história do nosso país, apenas atrás de Rui Patrício e de Vítor Baía.

 

Imagem destaque: Seleções de Portugal (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.