Antijogo e perdas de tempo, não está na altura de dizer basta?

Um aspeto que, infelizmente, é recorrente no futebol português há muito tempo. O campeonato português tem muito potencial para se intrometer no top-5 das ligas europeias, mas também muito a mudar para o concretizar.

Três grandes à parte, as variadas campanhas de muito mérito do Sporting de Braga nas competições europeias ao longo dos últimos anos, com destaque para a final da Liga Europa atingida em 2010/2011; as exibições honrosas do Vitória de Guimarães na fase de grupos da mesma competição no ano passado e, mais recentemente, a forma histórica e gloriosa em como o Rio Ave de Mário Silva eliminou o Besiktas e se bateu frente ao AC Milan no playoff de acesso à segunda prova europeia. E com muitos mais jogos à memória (quem não se lembra do Arouca que se bateu de frente com o Olympiacos em 2016/17?), são inúmeros os exemplos de como as equipas portuguesas, participantes num campeonato que, lá fora, é visto como de muita inferior qualidade em relação aos que estão posicionados acima no ranking, conseguem enaltecer o esplendor do nosso país aos olhos da Europa.

Fonte da imagem: jornaldoluxemburgo.com

Se é verdade que os clubes franceses, alemães, espanhóis, ingleses e italianos dispõem de orçamentos astronómicos quando comparados com os dos clubes portugueses, também é verdade que a qualidade dos campeonatos em si são de um patamar que ainda não pode ser equiparado ao nosso. Mas acima de tudo, qual é o principal obstáculo que se intromete no caminho português nesta corrida? A resposta, para mim, é a persistência do antijogo e das típicas “perdas de tempo”. Todos os clubes portugueses o fazem e sim, o Benfica, Porto e Sporting não são exceção, apesar de ser a um nível menos habitual.

Jorge Jesus é, há vários anos, um grande crítico destes aspetos, tendo sido noticiado que após a derrota sofrida frente ao Boavista (apesar do grande número de faltas cometidas pelos boavisteiros na partida, que motivou a decisão, não houve qualquer tipo de antijogo cometido pela equipa do Bessa), o técnico ordenou aos seus jogadores que deixassem o fair-play a seu critério, sendo que em situações onde este considere que os adversários estão a “perder tempo”, não irá respeitar a norma de devolver a bola em caso de paragem de jogo. Se esta é uma medida a aplaudir? Fica ao critério de cada um, o que é facto é que é triste ter de se chegar a uma altura onde os treinadores têm de adotar medidas extremas e passíveis de crítica por causa de algo que simplesmente não pertence no futebol.

Fonte da imagem: slbenfica.pt

Vemos algum treinador no top-5 a tomar uma decisão deste tipo? Não, porque nesses campeonatos, em particular na Premier League, não existem “perdas de tempo”. Os jogos são disputados ao longo dos noventa minutos, sejam quais forem as equipas em campo. Os jogadores não fazem “teatro” ao mínimo toque para ganhar uns meros segundos na partida, as equipas não se fecham lá atrás e recorrem às faltas constantes para guardar muitas vezes um simples empate. Infelizmente isso não se verifica em Portugal e parte muito das mentalidades pequenas dos clubes que mais recorrem a estas táticas (apesar de tudo, ainda há algumas exceções a este problema, as quais merecem um forte aplauso). Fica a questão, se os clubes já provaram que têm qualidade para se bater de frente com equipas com maior poderio que o seu na Europa, porque não acontece o mesmo dentro das quatro linhas ao longo do nosso campeonato?

Os árbitros também não se safam de terem o dedo apontado a si neste problema. Na Premier League, os jogos têm um ritmo frenético que tanto emocionam os adeptos porque não existem faltas assinaladas ao primeiro encosto que acontece, os jogadores se estiverem mais do que um tempo mínimo no chão, são transportados para fora do campo e a bola segue em jogo. E não é isso mesmo que é suposto? Urge uma mudança de mentalidades dentro do futebol do nosso país, algo que deveria ser a própria Liga a promover e as equipas de arbitragem a implementar.

Fonte da imagem: abola.pt

Em 2018, um estudo associado à FIFA revelou que a Liga NOS é o campeonato onde existe menos tempo útil de jogo (46 minutos em 90, um dado absolutamente absurdo) no meio de 36 ligas analisadas. E a verdade é que se ainda não estamos ao mesmo nível das principais ligas europeias, com este aspeto a persistir, tão cedo não vamos chegar lá…

 

 

 

 

Fonte da imagem de capa: rematedigital.pt

Alexandre Dionisio

Desde pequeno fui levado ao mundo do futebol, inicialmente enquanto júnior no Ginásio Clube de Alcobaça, clube da minha cidade, e agora mais velho enquanto espetador assíduo do mágico desporto que tanto nos emociona. Com uma licenciatura em Ciências da Comunicação na bagagem e um mestrado em Jornalismo em curso, acompanho cada jogo com a máxima emoção. Que isso nunca mude.