O dia em que Didier Drogba parou a guerra civil da Costa do Marfim

É do conhecimento geral o indubitável talento que Didier Drogba possuía. Foi um dos melhores e mais marcantes jogadores dos anos 2000, conquistando títulos e afirmando-se como um ponta-de-lança de elite.

Nascido em Abidjan, capital da Costa do Marfim, no dia 11 de março de 1978, Drogba mudou-se cedo para França, onde deu os primeiros passos no futebol. Representou alguns clubes de menor expressão em França até ser contratado pelo Guingamp, em 2002. Passagem curta mas bem sucedida, marcando 20 golos em apenas uma temporada, valendo-lhe assim uma chamada para representar o maior clube de França, o Olympique Marseille.

Já era óbvio o grande poderio físico e as capacidades de matador do marfinense. Tais qualidades elevaram o Marselha a outro nível, alcançando a final da Taça UEFA (perdeu para o Valência). Drogba foi eleito o melhor jogador do campeonato francês. O sucesso imediato e as grandes exibições e qualidades convenceram o Chelsea a desembolsar 38,5 milhões de euros pelo seu passe no verão de 2004. E o resto é história: uma Champions League, quatro Premier Leagues, quatro FA Cups, duas vezes melhor marcador da Premier League, três League Cups, quatro Community Shields, entre outros.

O marfinense era altamente influenciador dentro de campo, mas o que as pessoas podem não saber é o quão influente ele era fora de campo. Drogba era um autêntico embaixador da Costa do Marfim e do próprio continente africano. A importância do ponta-de-lança evidenciou-se mais do que nunca no ano de 2005.

Didier Drogba retirement: The incredible story of a Chelsea's legendary late bloomer | Goal.com

Para contextualizar o que Drogba fez nesse ano, vale a pena explicar a situação em que a Costa do Marfim se encontrava. Tratava-se de uma situação de tensão extrema: Em 2002, uma tentativa de golpe de estado por parte de rebeldes, conhecidos como Forces Nouvelles, fez eclodir uma violenta guerra civil. Os rebeldes tentaram ocupar a capital, Abidjan, e outras cidades de grande dimensão no sul do país. Tal não foi possível, pois as Forças Armadas francesas iriam intervir e ajudar o governo de Gbagbo, obrigando os rebeldes a recuar para o norte e centro do país. Criava-se assim uma divisão total do país: rebeldes para norte, forças do Governo para sul. Havia apenas uma coisa em comum entre os dois lados: o amor ao futebol. E é exatamente aí onde a seleção costa-marfinense entrou em ação. Em outubro de 2005, os “Elefantes” jogavam uma das partidas mais importantes da história do país. Estava em jogo a primeira classificação para um Campeonato do Mundo, estava em jogo um sonho que toda a nação partilhava. O resultado final? 1-3. Sim , a Costa do Marfim estava pela primeira vez na história no Campeonato do Mundo. Os jogadores estavam eufóricos no balneário, e Drogba achou que era a altura certa para fazer o discurso mais importante da sua vida, um discurso de paz, um discurso de união. Durante cerca de um minuto e em direto para a televisão, Drogba apelou a um cessar-fogo e à união entre os costa-marfinenses. A promessa de que a classificação para o campeonato do mundo iria finalmente unir o povo pôs os jogadores todos de joelhos, num gesto icónico, pedindo que haja perdão, perdão entre os dois lados em combate.

A verdade é que, apenas uma semana mais tarde, foi acordada uma trégua entre governo e rebeldes. Uma guerra civil que já tinha gerado mais de quatro mil mortos foi parada pelo futebol, pela paixão que unia o povo, pelo desporto que colocava as diferenças de lado. Didier Drogba é um herói nacional, dentro e fora de campo, e provou mais uma vez que o futebol é muito mais que um mero jogo. É algo capaz de mover e comover massas, algo capaz de unir pessoas diferentes. O futebol salvava, assim, um país de uma catástrofe ainda maior.

 

 

Fonte da imagem de destaque: Extracampo.com.br