Curiosidades: o dérbi que fez tombar um governo

Praticamente desde a sua nascença, o futebol sempre significou muito mais que um mero desporto para os seus adeptos. Milhões de pessoas por todo o mundo são capazes de fazer de tudo e deixar qualquer coisa para trás em prole deste jogo que tanto amamos. Ainda assim, e por mais que ainda haja quem não saiba fazer esta distinção (e por mais que custe admitir a quem o sabe), o futebol não é tudo, na vida, e os seus admiradores não podem deixar que o mesmo lhes cegue perante outros problemas bem mais sérios.

Foi isto mesmo que dois grupos rivais de adeptos fizeram de forma exemplar, contribuindo para a queda de um presidente que há duas décadas se mantinha, polemicamente, no poder. Esta é a história de como um jogo de futebol ajudou a tombar um governo, na Argélia.

Contextualizando, o ano é 2019. A 22 de fevereiro, a Argélia acorda com uma enorme vaga de protestos, com milhões a sair às ruas. O motivo? Abdelaziz Bouteflika, presidente do país há 20 anos, anuncia que se irá recandidatar, para um 5º mandato.

Bouteflika foi alvo de polémica desde que assumiu a liderança do governo, em 1999, sendo eleito sob acusações de fraude e corrupção (das quais já era alvo enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros). Ainda assim, o antigo militar foi-se mantendo no poder. Acontece que, em 2019, contava já 81 anos e inúmeros problemas de saúde acumulados (entre os quais um AVC, em 2013, que lhe afetou severamente a fala e os movimentos). Como se não bastasse, alterara a constituição duas vezes, por forma a conseguir manter-se no poder por mais de dois mandatos.

Assim, a decisão do governo de o fazer correr à presidência pela 5ª vez acabou por ser a “gota de água” para o povo argelino, mostrando o seu descontentamento por meio de centenas de manifestações pacíficas em todo o país.

Mas então, onde é que o futebol entra nesta história? Pois bem, com o epicentro das manifestações a ocorrer, sem surpresas, em Argel, a capital, praticamente todas as partidas de futebol foram suspensas indefinidamente na cidade. Todas…com exceção de uma: o dérbi da capital. O jogo opõe a USM Alger e o MC Alger e é, de longe, a maior partida de futebol do país, a nível clubístico.

Não houve nenhuma explicação oficial (convincente, pelo menos) para esta ser a única partida (ou das poucas) a manter-se, mas, para os adeptos, o motivo era claro: o governo pretendia usar o dérbi como forma de amenizar os ânimos e dispersar as manifestações. Se tal poderia parecer uma conspiração ao início, acabou por se tornar evidente, por um lado quando o jogo foi antecipado (passou de sexta feira para quinta feira) e, por outro, quando foi decretado que não haveria transmissão televisiva do mesmo, forçando os interessados a dirigir-se ao estádio, o que faria com que não pudessem comparecer às manifestações.

Com isto, e sendo o povo argelino não só politicamente consciente como politicamente ativo, a maioria dos adeptos não se conformou com a magnitude da partida, recusando-se a ir ao estádio e apelando a que todos tomassem a mesma atitude. Houve, ainda assim, quem acabasse por assistir ao jogo, mas desengane-se quem julgar que este foi um dérbi normal.

Na Argélia, futebol e política caminharam sempre lado a lado, pelo que protestos contra o governo eram já uma regularidade em quase todas as partidas, sobretudo destes dois clubes (um deles, o MC Alger, o mais antigo do país). Assim, os poucos adeptos (por comparação com o habitual) que se deslocaram ao estádio usaram a partida como mais um momento de protesto, entoando cânticos com duras críticas a Bouteflika durante toda a partida. Os próprios Ultras do MC Alger (Virage Sud) recusaram-se a aparecer, deixando a arquibancada totalmente vazia. Já a claque da equipa da casa (Ouled El-Bahdja) compareceu em peso, mas a grande maioria dos cânticos foram, precisamente, em protesto. No final, ambos os lados da bancada criticaram o governo em uníssono, reforçando a natureza política que sempre os caracterizou e mostrando que não deixariam que um jogo de futebol os demovesse dos verdadeiros problemas que o país atravessava.

Fora do estádio, as próprias manifestações foram marcadas por cânticos contra o poder criados pelos Ultras, sobretudo um, “La Casa del Mouradia”, uma canção composta pelos Ultras da USMA que resume e critica, individualmente, os 4 mandatos do presidente, mas que foi entoado por todos nas ruas, inclusive rivais.

Após semanas e semanas de protestos ininterruptos, nos quais os grupos organizados de adeptos desempenharam um papel crucial, Bouteflika decide recuar na nova candidatura, mas tal não foi suficiente para convencer os protestantes, que exigiam a sua saída definitiva do poder. Essa saída chegou mesmo, a 2 de abril, após pressões por parte do próprio chefe do exército. Entretanto, a Argélia conta já com novo presidente, Abdelmadjid Tebboune, democraticamente eleito com 58% dos votos.

Para muitos o futebol é mais que um jogo. Para os argelinos sempre foi um meio de exercer a liberdade de expressão, sobretudo a nível político. Os protestos e consequente queda de Bouteflika são apenas mais uma prova do impacto que este desporto pode ter fora das quatro linhas, seja a aquecer corações, unir pessoas…ou até tombar presidentes!

 

Imagem: USM Alger (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.