O dia em que o Estrela Vermelha alcançou o topo da Europa

29 de maio de 1991, uma das datas mais históricas da Champions League. O Estrela Vermelha, clube fundado no ano de 1945 em Belgrado, bateu o Marselha de Mozer e Papin nas grandes penalidades. É sempre bonito ver um clube diferente a ganhar o maior título do futebol europeu, ainda para mais um clube relativamente recente e rodeado por um clima de tensão.

Para dar um pouco mais de contexto, relembro que, na altura, o Estrela Vermelha era um clube da Jugoslávia, um ex-país que englobava a Sérvia, Croácia, Eslovénia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Kosovo e Macedónia. É também do conhecimento geral as grandes tensões que sempre houveram na região das Balcãs, desde atentados a guerras civis sangrentas. Uma mistura de sentimentos nacionalistas, de desejo de independência, geraram a famosa Guerra da Jugoslávia, que curiosamente começou em 1991. Foi exatamente neste ambiente bélico que o Estrela Vermelha conquistou a Europa, enaltecendo ainda mais a importância deste título. O plantel da equipa jugoslava era constituído por jogadores maioritariamente jugoslavos, de origem croata, montenegrina, sérvia e macedônia. O único jogador que não era jugoslavo era o defesa romeno Miodrag Belodedici.

Talvez o facto mais impressionante desta equipa foi a capacidade de pôr de lado as diferenças e as tensões políticas e conseguir coroar a geração de ouro da Jugoslávia com o título de clubes mais importante. O Estrela Vermelha ultrapassou o Grasshopper, da Suiça, o Rangers, o Dynamo Dresden, da Alemanha, e o gigante Bayern de Munique para bater na final o Olympique de Marseille, clube que ganharia a Champions apenas dois anos depois.

 

Esquadrão Imortal – Estrela Vermelha 1990-1991 - Imortais do Futebol

Foto: Imortais do futebol

 

A final foi disputada no Estádio San Nicola, em Bari. Um 0-0 no marcador após prolongamento levou o jogo a penáltis. Manuel Amoros, do Marselha, falhou o primeiro penálti e embalou os jugoslavos para a vitória; o Estrela Vermelha não falhou nenhuma vez da marca dos onze metros. A equipa de Belgrado era apenas a segunda equipa do Leste da Europa a ganhar a então chamada Taça dos Campeões Europeus, a seguir ao Steaua de Bucareste, que venceu a competição em 1985.

Numa altura onde o desporto era o mínimo das preocupações para os habitantes da Jugoslávia, esta geração de ouro do Estrela Vermelha proporcionou uma rara alegria para os adeptos do clube e podia ter feito ainda mais, tal era o talento do plantel. Quem sabe, se não tivesse havido uma guerra naquela zona e naquela altura, poderia neste momento estar a escrever sobre um Estrela Vermelha bicampeão ou até tricampeão europeu. Nunca saberemos, infelizmente. O que sabemos é que um clube no epicentro de uma guerra que gerou 130 mil mortos subiu, contra tudo e contra todos, ao topo da Europa, e isso deveria ser um motivo de grande orgulho para todo o Leste Europeu e para os Balcãs, independentemente das origens ou das diferenças entre os países dessa zona da Europa.

 

Foto de capa: Trivela.com.br.