Lembra-se de João Morais, o “todo-o-terreno” leonino?

Foi lateral direito, mas atuava nas duas alas e, não raras vezes, acabava por subir no terreno, chegando a marcar 24 golos numa época. Ainda assim, toda a carreira de João Morais pode ser resumida a uma única jogada. Uma bola parada que, certamente, todo e qualquer sportinguista conhece: o mítico “cantinho do Morais”.

João Pedro Morais nasceu em Cascais, a 6 de março de 1935. Após tomar o gosto pelo futebol, inscreveu-se no Sporting de Alcabideche, mudando-se depois para o GD Estoril Praia, onde cumpriu os restantes anos de formação. Ingressou, de seguida, no Caldas SC, na altura a atuar na 2ª Divisão. Ao fim de um ano, acabaria por trocar o Campo da Mata pelo Estádio Manuel Marques, onde representou o Torreense ao longo de três épocas. Foi também a sua estreia na 1ª Divisão.

Em 1958/59, Morais recebe uma proposta do campeão em título, o Sporting CP. Sem surpresas, acabou por aceitar o convite, mudando-se para Lisboa. Foi, então, o início de mais de uma década de amor à listada verde e branca, ao longo da qual somou 255 jogos e apontou para cima de meia centena de golos (66, precisamente).

Foram 11 longos anos, mas Morais viria a ser eternizado no universo sportinguista graças a um único momento. O dia é 13 de maio de 1964. Após uma campanha memorável, onde se registou uma goleada de 16-1 aos cipriotas do Apoel (a maior goleada na história das competições europeias, até hoje) e ainda uma impensável “remontada” ao todo poderoso Manchester United, deixando os ingleses pelo caminho com uma vitória por 5-0 em Lisboa, o Sporting atingia a tão ambicionada final da Taça das Taças, a primeira de sempre na história do clube.

O adversário era o MTK Budapeste e, após um empate a três golos em Bruxelas, as decisões estavam todas reservadas para a finalíssima, em Antuérpia. O arquiteto e treinador leonino, Anselmo Fernández, vê-se forçado a fazer alterações, entre as quais o reposicionamento de Morais, que, após jogar a defesa esquerdo no primeiro jogo, ficava agora encarregue de comandar o ataque leonino.

Chegando ao minuto 19 da partida, o Sporting conquista um pontapé de canto, do lado esquerdo do ataque. Morais é quem se encarrega de bater a bola parada e, sem pensar duas vezes, desfere um remate em arco diretamente ao segundo poste da baliza defendida pelo gigante Ferenc Kovalik. A bola passa por cima do guardião que, incrédulo, só a vê parar no fundo das redes. Estava aberto o ativo em Antuérpia e o que é facto é que o marcador não mais viria a mexer. Um único golo para encerrar da melhor maneira possível uma longa caminhada europeia e levar o troféu de volta para Alvalade.

Dias mais tarde, o célebre golo ficaria para todo o sempre batizado como o “cantinho do Morais”, que até a uma música teve direito. Foi o primeiro troféu internacional do Sporting, que se mantém, até hoje, como o único clube português a sair vitorioso desta prova, entretanto extinta.

Em 1966, Morais foi chamado para representar a histórica seleção dos ”Magriços”, que atingiria o 3º lugar no campeonato do mundo, disputado em Inglaterra. É, até hoje, considerado o principal responsável pela famosa lesão de Pelé, no jogo diante dos portugueses, após uma entrada dura sobre aquele que era, à data, visto como o melhor jogador do mundo. De resto, entre jogos amigáveis e oficiais, somou um total de 9 partidas com as quinas ao peito.

Após terminar a sua ligação aos leões da capital, João Morais acaba por rumar a Vila do Conde, onde veste as cores do Rio Ave FC durante dois anos, antes de rumar a Paços de Ferreira, onde, ao fim de uma época, pendura as botas, com 38 anos.

O “todo-o-terreno” leonino viria a morrer com 75 anos, em 2010, vítima de uma doença prolongada, mas continua a ser lembrado por todos, jovens e adultos, como o senhor que garantiu ao Sporting o maior feito na história do clube…e “um golo só bastou”.

 

Imagem: Sergioliveira (Zerozero.pt)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.