Opinião da semana: o triplo de 0 é 0

Na chegada ao Benfica para a sua segunda estadia como treinador principal do clube, Jorge Jesus prometeu aos adeptos que a equipa iria pelo menos o triplo do que mostrou na época passada. E durante um período de tempo no início da época desportiva parecia que treinador e jogadores não fariam menos do que cumprir com a sua palavra.

No entanto, o que se vê atualmente é uma equipa previsível e sem criatividade, cujos erros e fragilidades visíveis ao serviço de Bruno Lage foram ampliados ao invés de resolvidos.

O que pode explicar uma quebra de forma tão abrupta que leva sócios e fãs dos “encarnados” a prevêr o pior para o resto das competições internas e internacionais? A resposta a esta pergunta pode, na verdade, surgir de diversas explicações.

Em primeiro lugar, os problemas começam na linha defensiva. As contratações de Otamendi e de Vertonghen foram vistas com grande entusiasmo pelo universo benfiquista, uma vez que estamos a falar de internacionais altamente cotados, com experiência em algumas das melhores ligas do mundo.

O que muitos não tiveram em consideração foi a forma como Jesus gosta de organizar o jogo da equipa. O técnico português sempre foi conhecido por dar preferência a uma dupla de centrais experientes e bastante avançada no terreno, juntamente com laterais com laterais mais ofensivos do que de contenção. Isto em teoria proporcionaria uma troca de passes mais fluída e acelerada nas transições ofensivas.

O que acontece é que a partir do jogo desastroso no Estádio do Bessa, as equipas portuguesas perceberam facilmente as consequências negativas de uma pressão sem qualquer moderação e de uma equipa demasiado adiantada.

Com centrais longe do seu auge físico e laterais a deixarem estes mesmos defensores frequentemente expostos, o Benfica tem-se mostrado incapaz de lidar com as jogadas adversárias em profundidade, direcionadas para os jogadores mais rápidos e explosivos. Não fosse as grandes exibições de Vlachodimos, as “águias” estariam a sofrer ainda mais do que já estão.

A segunda fonte de frustração é a inconsistência. Tirando um número muito reduzido de jogadores, a maioria não consegue manter os seus níveis exibicionais de jogo para jogo. O Benfica investiu quase 100 milhões de euros no último mercado de transferências, mas não aparenta ter encontrado soluções, tanto para os veteranos, como para os novatos.

No meio-campo, Gabriel pode em um momento jogar com a qualidade de Rui Costa e no outro ser completamente inútil nas mais básicas das ações; Weigl não se adapta à tática escolhida e Taraabt não apresenta a mesma dinâmica e energia que o tornaram num dos favoritos dos adeptos nos últimos dois anos.

No ataque, Rafa está longe do seu melhor; Cebolinha, depois de partidas sem parar ao serviço do Grêmio, necessita de descansar e de tempo para se ambientar ao fuebol português e Darwin e Waldschmidt  quase que são obrigados a carregar uma equipa inteira às costas, algo impensável numa fase tão precoce das suas carreiras.

Tudo isto é exaustivo, agravado, em parte, pelas escolhas do técnico português. Apesar de até agora não se ter centrado as críticas no antigo treinador do Flamengo, a verdade é que o próprio também tem culpas no cartório.

As mudanças constantes no onze inicial, a escolha de jogadores que não estão claramente preparados para a pressão de jogar por um dos históricos da Europa e a teimosia em permanecer num estilo de jogo pouco produtivo, caracterizado pela quase exclusão dos contra-ataques e do adiantamento pelas laterais. É uma equipa que tenta desesperadamente aproximar-se do tiki-taka introduzido por Pep Guardiola, mas que não tem a confiança e o à vontade para tal.

Juntamente com a opinião dividida que JJ gera nos próprios adeptos benfiquistas, temos aqui uma receita para o desastre.

Por fim, talvez o aspeto mais relevante do descalabro das “águias” seja a falta de motivação, com muitos sócios e especialistas a acusarem que a organização do plantel e da equipa técnica foi feita exclusivamente para garantir a vitória de Luís Filipe Vieira nas eleições. Na sua forma mais simplificada, a diferença do Benfica para Sporting e Porto é a falta de motivação.

A raça e união dos rivais levam a que estes ganhem de forma justa, independentemente de a exibição não ter sido propriamente brilhante. O FC Porto é o mais alto representante de Portugal na Liga dos Campeões e o Sporting recuperou de anos atribulados para se tornar na equipa que melhor joga futebol no panorama nacional, ao ponto de ser o primeiro classificado destacado.

Até o Sp. Braga, depois de um começo menos favorável, voltou a demonstrar toda a sua qualidade ao serviço de um treinador com ideias carismáticas e simples na sua execução.

Em comparação, no Estádio da Luz já se discute se existe algum divergência entre atletas, treinador e presidente e ainda nem chegámos a meio do campeonato.

O Benfica de Jesus é, provavelmente, a equipa com mais talento no nosso país. Não obstante, talento sem determinação e camaradagem não leva a lado nenhum.

A perda da Supertaça para o eterno rival do norte foi só mais um episódio na montanha-russa que é o clube da Luz este ano. E enquanto não houver mudanças, não é descabido imaginar um final de época em que as “águias” ficarão abaixo dos três principais opositores diretos na luta pelo título.

Fonte da imagem: FC Porto twitter/@FCPorto