Opinião: Thomas Tuchel, um treinador desacreditado ou apenas incompreendido?

Thomas Tuchel é um treinador que causa muita controvérsia e muita discussão no mundo do futebol: Muitos acham que é sobrevalorizado, outros que é subvalorizado. Aqui analiso o seu percurso até agora e aquilo que pode ser o futuro.

Apesar de ter conduzido o PSG à sua primeira final da Liga dos Campeões, Tuchel foi, recentemente, despedido do seu cargo de treinador dos parisienses. Os campeões franceses não estavam a corresponder à espectativas colocadas sobre eles no início da época, ainda que com vários casos de COVID-19 e várias lesões a jogadores importantes, o que culminou no término do contrato do alemão.

Mas, afinal, o que leva um treinador finalista da Liga dos Campeões e bicampeão francês a perder o seu lugar? Sabe-se que a relação entre Thomas Tuchel e o diretor desportivo do PSG, Leonardo, não era a melhor, e que ambos tinham visões diferentes para o futuro do clube, e terá sido esta a principal razão para o despedimento do técnico.

 

Mainz 05

Thomas Tuchel começou a sua carreira de treinador em 2000, nas camadas jovens do Estugarda. Passou por diversos clubes, sempre nas camadas jovens, até, em 2009, ter garantido a posição de treinador do Mainz 05, sucedendo a Jurgen Klopp.

Em 5 épocas no clube alemão, o treinador ficou em 9º (o Mainz tinha acabado de subir à Bundesliga), 5º (qualificando-se para e Europa League), 13º, 13º e 7º. Na sua última época o treinador pediu para ser “libertado” do seu contrato ao perceber que não iria ter recursos financeiros suficientes para “reinventar” a equipa. Ao longo destes anos, Tuchel trabalhou e deu a conhecer ao mundo talentos como André Schurrle, Lewis Holtby, Loris Karius, Choupo-Moting e Yunus Malli.

 

Borussia Dortmund

Passado um ano Tuchel volta a suceder Jurgen Klopp, mas desta vez no comando técnico do Borussia Dortmund.

Na sua primeira época, Tuchel decide fazer várias alterações no meio campo do Borussia, contratando Gonzalo Castro ao Bayer 04 e Julian Weigl ao 1860 Munich, tornando-os na base do seu sistema. Levou a equipa ao 2º lugar da Bundesliga (tinham ficado em 7º com Jurgen Klopp) e aos quartos de final da Liga Europa (em que foram eliminados pelo Liverpool de Klopp).

Na época seguinte, com as saídas de Hummels, Mkhitaryan e Gundogan, o treinador voltou ao mercado para colmatar estas saídas, contratando Ousmane Dembelé, Marc Bartra e Raphael Guerreiro (que adaptou a médio para formar um trio com Castro e Weigl). O Dortmund terminou esta época em 3º lugar, atrás do Bayern e do RB Leipzig, mas conquistou a Taça da Alemanha, ao bater o Frankfurt na final por 2-1. Três dias depois desta conquista, Tuchel era despedido do BVB.

A relação com a hierarquia do clube era fraca, e vinha deteriorando-se após a saída de Hummels, Gundogan e Mkhitaryan, jogadores que o clube havia prometido manter. No BVB, Tuchel conseguiu tirar o melhor de Aubameyang (56 golos em 63 jogos na Bundesliga), Pulisic, Weigl e Dembelé.

 

PSG

Segue-se novamente um ano de paragem, seguido do cargo de treinador no PSG.

Em 2018, Tuchel sucede a Unai Emery no banco dos parisienses que havia sido também despedido. No seu primeiro Verão em Paris, as chegadas de Kylian Mbappe (de forma permanente após ter estado emprestado na época anterior), Juan Bernat, Thilo Kehler e Paredes não foram suficientes para o treinador que ficou desapontado com a incapacidade do clube em reforçar as duas posições de laterais.

Esta época começou de forma bastante positiva, com o PSG a bater vários recordes de pontos e de vitórias seguidas na Ligue 1 e a vencer a Supertaça frente ao Mónaco por 4-0. Terminou a época com apenas a conquista da Ligue 1, após ser eliminado da Liga dos Campeões pelo Man. United e ter perdido a Taça de França na final contra o Rennes.

Na sua segunda época, Tuchel preferiu contratar jogadores com menos mercado, vendo chegar ao clube Pablo Sarabia e Ander Herrera. No final do mercado, Mauro Icardi acabaria por chegar ao clube.

A época volta a começar bem, com a conquista da Supertaça Francesa e com uma vitória frente ao Real Madrid (3-0), com as ausências de Neymar, Mbappé e Cavani. Esta época o PSG volta a vencer a Ligue 1, vence a Taça de França e chega à final da Liga dos Campeões após deixar pelo caminho o Borussia Dortmund, a Atalanta e o Leipzig. Na final, perde com o Bayern por 1-0. O seu principal desentendimento com Leonardo acontece após a contratação do português Danilo Pereira. Tuchel queria um defesa central para substituir Thiago Silva, mas o clube optou por contratar o antigo médio do Porto.

 

O Futuro:

E agora, o que se segue para Thomas Tuchel?

Com o lugar de Frank Lampard cada vez mais em risco no Chelsea, Tuchel é visto por Roman Abramovich como um candidato ao lugar e seria, seguramente, uma excelente opção para os ‘Azuis de Londres’. Eis as duas principais razões porquê:

 

Excelente trabalho com jovens

Tendo o Chelsea uma das melhores academias de Inglaterra, com imenso talento à disposição, Tuchel poderia transformar estes jogadores em estrelas. O alemão tem histórico de um bom trabalho com jovens, após dar a conhecer ao mundo diversos jogadores quando trabalhava nas camadas jovens de vários clubes da Bundesliga, no Mainz e através do seu trabalho no Dortmund. Alguns exemplos do trabalho de Tuchel com jovens são: Ousmane Dembele, Christian Pulisic, Weigl, Yunus Malli e André Schurrle que atingiram os seus melhores desempenhos com ou foram descobertos pelo técnico.

Desta forma, Callum Hudson-Odoi, Billy Gilmour, Kai Havertz, Reece James, Pulisic (com quem Tuchel já trabalhou), Tomori e Abraham podem ser figuras centrais do sistema de Tuchel, tanto no imediato, como no futuro.

 

O Chelsea não é um clube vendedor

O Chelsea não é um clube que tenha hábito ou mesmo necessidade de vender para equilibrar as contas, uma vez que o dono do clube, Roman Abramovich, é um dos homens mais ricos do mundo. Para além disso, o clube tem por hábito apoiar as exigências do treinador, o que facilitaria as relações entre Tuchel e a hierarquia dos ‘blues’.

 

O que pode ser o Chelsea de Tuchel

A equipa atual do Chelsea já permite a Tuchel montar o sistema a que nos habituou nas suas passagens pelo BVB e pelo PSG, podendo fluir entre o 4-3-3 que usava no clube alemão e o 4-2-3-1 que adotou nos campeões franceses.

Assim, Tuchel poderia formar a seguinte equipa:

GR: Mendy/Kepa

DD: James/Livramento

DC Lado Direito: Andreas Christensen/Tomori

DC Lado Esquerdo: Thiago Silva/Zouma

DE: Chilwell/Emerson

Médio Defensivo: Jorginho/Kovacic

MC: Kanté/Gilmour

MC/10: Havertz/Mount

ED: Callum Hudson-Odoi/Ziyech

EE: Pulisic/Werner

PL: Werner/Tammy Abraham/Giroud

 

Com esta equipa, Jorginho ou Kovacic e Kanté ou Gilmour replicariam o papel que Weigl e Castro, respetivamente, tomavam no Dortmund de Tuchel, e Havertz ou Mount o papel que muitas vezes Neymar tomava no PSG. Werner e Pulisic facilmente recuperavam a sua forma, por se encaixarem mais neste sistema do que o atual sistema de Lampard.

Caso Lampard seja, de facto, despedido, o Chelsea deve fazer tudo para garantir a contratação de Tuchel que seria um ativo extremamente importante e rapidamente levaria os ‘Blues’ aos lugares cimeiros da Premier League e às fases finais das competições europeias.

 

Analisando tudo isto repete-se a questão inicial: Tuchel é visto por muita gente como um treinador desacreditado que “nunca excedeu expectativas”. Mas, não será apenas um treinador incompreendido que acaba por ser alvo de má gestão por parte dos clubes que tem servido? As más relações com as hierarquias dos clubes devem-se por norma ao comportamento de tais clubes no mercado de transferências e nas promessas feitas ao treinador que acabam por não ser cumpridas, dificultando seriamente o trabalho do técnico alemão.

Apenas o futuro dirá quem tem razão.

 

Imagem por @Goal no Twitter