Quem te viu e quem te vê… Aleksandr Kokorin

Esta semana temos em foco um avançado que foi, desde cedo, visto como a grande promessa da Rússia no que toca ao desporto-rei. Com uma carreira que esteve muito perto de ser interrompida a meio por problemas com a lei, Kokorin é um grande exemplo de como os erros não definem uma pessoa e de que todos merecemos uma segunda oportunidade para nos redimirmos.

Aleksandr Aleksandrovich Kokorin iniciou o seu percurso futebolístico profissional em 2008, com as cores do Dínamo de Moscovo. O jovem avançado fez logo história no seu primeiro jogo como sénior, entrando em campo aos 72 minutos com a sua equipa a perder por um a zero diante do FC Saturn Moscow e marcando um dos golos que consumou uma reviravolta no marcador, tornando-se no processo no jogador mais jovem de sempre a marcar um tento pelo Dínamo no campeonato russo, com 17 anos e 199 dias de idade, isto na época 2008/09.

Durante os próximos quatro anos, Kokorin estabeleceu-se como uma das grandes estrelas da turma moscovita e, na temporada 2013/14, o Anzhi, que na altura era o principal projeto desportivo em destaque no panorama russo, não olhou a despesas e, no meio de um mercado de transferências que viu chegar ao emblema nomes como Igor Denisov, Fedor Smolov, Vladimir Bystrov e Christopher Samba, Kokorin também fez as malas para a sua nova casa, após o clube pagar a sua cláusula de rescisão de 19 milhões de euros. No entanto, o avançado de na altura 22 anos nunca chegou a alinhar por qualquer partida no seu novo clube, devido ao mesmo ter entrado em insolvência financeira e a ter sido obrigado a pôr a totalidade do seu plantel à venda, com o russo a ser devolvido por uma verba desconhecida ao seu clube original, o Dínamo de Moscovo.

Fonte da imagem: zimbio.com

No seu regresso a casa, Aleksandr conseguiu melhorar ainda mais o seu registo em frente ao golo nas duas épocas e meia seguintes, apontando um total de 25 golos em 72 jogos disputados. A sua forma chamou a atenção de um dos mais bem-sucedidos clubes do país, o Zenit de São Petersburgo que, no inverno de 2014, o conseguiu contratar por uma autêntica pechincha, dois milhões de euros.

O sentido da carreira de Kokorin parecia ser o mais ascendente possível, especialmente tendo em conta que, até há pouco tempo, era muito raro que futebolistas russos se transferissem para outros campeonatos europeus. A sua primeira época com as cores do Zenit, na altura treinado por André Villas-Boas, apesar de não ter sido excecional em termos de tempo jogado – 14 jogos e três golos, sempre serviu para o jogador adicionar dois troféus ao seu palmarés: uma Supertaça russa conquistada diante do CSKA de Moscovo (Kokorin foi titular mas ficou em branco na partida) e uma Taça da Rússia, em que o russo foi um dos marcadores na final, que terminou com uma goleada por quatro a um aplicada, mais uma vez, diante do CSKA.

Fonte da imagem: record.pt

As duas temporadas seguintes, apesar de não terem sido triunfantes em termos de títulos, caraterizaram-se por uma evolução notória de qualidade para o jogador, especialmente a segunda. Em 2017/18, Kokorin desfrutou de um registo individual que é, até hoje, o melhor da sua carreira. Participando num total de 35 jogos pelo Zenit, o russo apontou 19 golos em todas as competições, dez no campeonato (ficou em terceiro na lista de melhores marcadores).

Numa altura em que Aleksandr Kokorin estava estabelecido como um dos grandes nomes do futebol russo, sendo presença assídua pela seleção nos palcos internacionais há vários anos, com 48 encontros e 12 golos apontados, incluindo participações nos Europeus 2012 e 2016 e no Mundial 2014 (em que apontou um tento), este viu uma grande polémica estar à beira de cancelar abruptamente a sua carreira. No início da temporada 2018/19 e depois de já ter participado em cinco jogos e ter apontado dois golos pelo Zenit, Kokorin e Pavel Mamayev, um colega de seleção, foram levados a tribunal por agredirem um oficial do governo russo dentro de um restaurante, tendo-o atingido com uma cadeira na cabeça e proferido insultos racistas no processo. O incidente foi gravado por câmaras e, para agravar a situação, foi ainda provado que Kokorin tinha participado numa rixa anterior que envolveu um condutor privado de um apresentador de um canal televisivo russo, tendo este ficado com graves danos físicos, incluindo contusões faciais, uma fratura no nariz e danos cerebrais. Ambos os jogadores foram sentenciados a um ano e meio de prisão, com várias imagens de Kokorin a jogar futebol junto de outros reclusos no estabelecimento prisional de Belgorod, enquanto a sua equipa vencia o campeonato russo, a terem ficado famosas e a serem uma marca do quanto a sua vida tinha dado uma autêntica volta de 180 graus, encontrando-se num buraco negro sem um bom desfecho à vista.

Fonte da imagem: talksport.com

Aleksandr Kokorin cumpriu a sua pena e acabou por ser libertado em setembro de 2019. O seu contrato com o Zenit foi ampliado até ao fim da temporada 19/20, mas o avançado nunca mais voltaria a figurar pelo emblema de São Petersburgo. O avançado foi emprestado ao FK Sochi, um clube de menor preponderância no país, no que foi uma oportunidade de boa fé concedida para o jogador demonstrar que estava uma pessoa mudada e que ainda tinha algo para oferecer ao futebol ao mais alto nível e Kokorin, apesar de alguma resistência ao início, acabou por aceitar o desafio, ingressando no Sochi em fevereiro. Dez partidas depois, o russo apontou sete golos enquanto esteve cedido e em junho de 2020, altura em que o seu contrato expirou com o Zenit, o Spartak de Moscovo teve fé na sua mudança enquanto ser humano e aproveitou o seu estado de jogador livre para o contratar a custo zero.

Chegamos desta forma à presente temporada, na qual Aleksandr Kokorin figurou em oito partidas e apontou dois tentos pelo Spartak até à abertura do mercado de inverno. O russo, atualmente com 29 anos, foi a grande contratação da Fiorentina no atual defeso, que despendeu quatro milhões e meio na sua contratação.

Fonte da imagem de capa: Twitter @maisfutebol

Há dois anos, se perguntassem a qualquer pessoa, quiçá inclusive ao mesmo, se acreditavam que Kokorin, um futebolista condenado e encarcerado numa prisão russa por agressão, alguma vez viria a ingressar num conceituado emblema de uma das maiores ligas europeias como a Serie A, era quase certo que a resposta fosse um redondo e assertivo “não”. No entanto, qualquer humano está suscetível a cometer um erro, por mais grave que este seja, ao longo da sua vida e está incorreto rotular essa pessoa como um caso perdido apenas por um ou outro incidente isolado. Aleksandr Kokorin demonstrou, ao seu país e a si mesmo, que tinha talento e capacidade para atingir um patamar mais elevado e deixar situações criminosas para trás na sua vida e, até ao momento, tem comprovado isso mesmo. Resta saber como irá o russo safar-se no rigoroso e mais evoluído campeonato italiano mas se há coisa que a sua história já comprova é o seguinte: os nossos erros não nos definem como indivíduos e todos merecemos uma segunda oportunidade para mostrar que somos melhores.

Fonte da imagem de capa: trivela.com.br

Alexandre Dionisio

Desde pequeno fui levado ao mundo do futebol, inicialmente enquanto júnior no Ginásio Clube de Alcobaça, clube da minha cidade, e agora mais velho enquanto espetador assíduo do mágico desporto que tanto nos emociona. Com uma licenciatura em Ciências da Comunicação na bagagem e um mestrado em Jornalismo em curso, acompanho cada jogo com a máxima emoção. Que isso nunca mude.