Fernando Redondo: o jogador mais subvalorizado de sempre?

As noções de sub e sobrevalorização são, por ironia do destino e da linguística, sobreusadas e muitas vezes mal aplicadas, sobretudo no âmbito de discussões de âmbito cultural e de lazer, nas quais o desporto se insere. O cerne de tais discussões e definições resume-se, basicamente, em divergências de expetativas e de atribuição de qualidades a x jogador, conforme aquilo que valorizamos em y posição ou função em campo, num contexto corriqueiro que tanto pode evidenciar uma partilha amigável de impressões entre amigos e uma harmoniosa sinergia entre pessoas igualmente imersas em determinado tema como pode destoar para um azedume caraterístico de quem discorda de nós, especialmente na Internet. A minha tese é a seguinte: independentemente da relatividade e da arbitrariedade associadas a tais venturas e desventuras, há um caso sério para considerar que as qualidades de Fernando Redondo enquanto jogador de futebol foram severamente abafadas especialmente pelo contexto histórico (aplicado ao futebol) no qual a sua carreira floresceu, e é plausível concluir que se trata de um dos jogadores, senão o jogador mais subvalorizado de sempre.

Nascido em 1969 no seio de uma abastada família, no arredores de Buenos Aires, Redondo começou a florescer para o futebol no pico da carreira de Maradona, e o pico da sua carreira deu-se já no crepúsculo da carreira do D10S. Chegaram a partilhar balneário na seleção durante dois anos, até ao Mundial de 1994, no qual a seleção alviceleste sucumbiu perante a era dourada do futebol romeno nos oitavos de final. Como um dos maiores talentos da sua geração (o melhor, segundo o hindsight deste redator, que nem sequer era nascido na altura e não ganhou discernimento a tempo de o ver jogar), seria compreensível esperar que o elegante médio viesse a ser uma das figuras de proa da seleção na segunda metade dos anos 90, continuando o legado d’El Pibe e dos campeões do mundo de 1986. Mas a ironia do destino, diga-se, a conjetura de eventos e bifurcações derivadas da e associadas à realidade de Fernando Redondo, talentoso jogador de futebol argentino cuja carreira atravessou os anos 90, não permitiu ao portentoso médio de concretizar o sonho de qualquer outro esperançoso jovem argentino doido por bola, que é o de alcançar a glória usando a malha da sua pátria-mãe.

Mas para chegar lá, há que entender aquilo que fazia de Redondo um jogador tão especial. Utilizado a maior parte da carreira como 6 num meio campo em losango, o argentino coadunava-se, efetivamente, com as exigências físicas da função do “carregador de piano”, associada à batalha pela posse de bola e à rigidez tática que permite manter o equilíbrio defensivo de uma equipa. Era alto (1,86), de porte atlético, e apesar de não ser necessariamente rápido, a sua passada larga permitia-lhe cobrir terreno facilmente, para além de ser relativamente forte no desarme e de ter o habitual espírito combativo associado tanto a um médio defensivo quanto a um argentino. No entanto, era quando recebia a bola que se evidenciava o quão especial era Fernando Redondo como jogador. Como se não faltasse canhotas geniais no futebol argentino, diga-se, os dois ex-libris da modalidade no país (e no mundo, os dois anões, entenda-se), a capacidade de drible de Redondo com o seu pé predileto era o seu ponto forte. O melhor exemplo do seu dom foi o golo que construiu na primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões de 1999/2000 contra o Manchester United, em Old Trafford, no qual conduziu a bola pela ala, sustendo o contacto físico, desmontando depois Henning Berg (incluindo cueca) à la um certo puto reguila madeirense que veio quatro anos depois começar ele a desmontar ele jogadores adversários naquele mesmo estádio. Entregou depois a bola de bandeja a Raúl para um tap-in digno do mesmo madeirense que, anos e anos de treino, moldação e obessão depois, deixou-se de tretas e virou máquina de golos, por aquele mesmo clube galáctico e nobre. São as tais ironias que mencionei em evidência. Sir Alex Ferguson ficou rendido à exibição. “Parecia que tinha um íman”, afirmou. Em suma, Redondo combinava a “ginga” de um 10, outra posição predileta de tal país e região do planeta, serpenteando pelo miolo e quebrando linhas de meio campo e tornozelos com as suas fintas de corpo, mudanças de direção e close control, protegendo a bola com o seu porte robusto. Era um jogador mais forte fisicamente que os jogadores tão rápidos quanto ele, e mais rápido do que aqueles que partilhavam o seu porte físico. Combinando o rendilhado pendor ofensivo, digno dos melhores 10, com a sua capacidade defensiva e de recuperação, digna dos melhores 6, estamos perante um jogador único, e como este, a nível de capacidade, houve poucos, quiçá nenhum.

Presume-se que um jogador de tal calibre tenha sido aproveitado pela seleção do seu país de forma a alcançar mais momentos de glória, diga-se, mais um título mundial. A verdade é que Redondo somou apenas 29 internacionalizações pela alviceleste, sendo que a grande maioria foi entre ‘92 e ‘94, e o resto em aparições esporádicas até ’99. Isto deve-se não só à personalidade irreverente mas assertiva e ordenada do astro argentino (mais um), mas também à realidade do futebol argentino da altura, sobretudo da personalidade dos selecionadores que encontrou. O médio era suposto ter representado a seleção no Mundial de 1990, mas recusou por estar a acabar os seus estudos – é licenciado em Direito – e porque presumia ser apenas uma figura periférica na esquadra de Carlos Bilardo, cujo pendor defensivo não agradava a Redondo. A Argentina acabou por perder na final, o que não é necessariamente mau, acho eu. Depois de coexistir com Basile em ’94, sucedeu a este Daniel Passarella, o capitão dos campeões do mundo de ’78 e outro preponente de disciplina e rigor. Redondo recusou-se jogar na seleção de Passarella, pois o antigo central queria obrigá-lo a cortar o seu majestoso cabelo, na imposição da sua regra “anti-maricas”, que excluia também brincos e homossexualidade, como se isso não fosse evidente. Mesmo com Maradona e o próprio presidente argentino, Carlos Menem, do seu lado, Redondo, douto leitor de Borges e García Márquez, manteve-se fiel aos seus princípios, tal como Passarella, diga-se. Redondo entretanto saiu para o Milan em 2000, realizando 16 jogos em quatro anos, sofrendo uma gravíssima lesão no menisco que o afastou dos relvados quase três. Retirou-se quando o seu contrato acabou em 2004, aos 35 anos.

O mundo é feito de narrativas, e num submundo novelizado como o futebol, isso torna-se quase regra. A de Redondo é que se trata de um jogador de qualidades excecionais, tango personificado, cujas honras e cujo palmarés não lhe permite estar ao mesmo nível de grandiosidade de muitos outros futebolistas inferiores em qualidade e estatura (literal e figurativa). Se fosse 10, 20 ou até 30 anos mais novo, estaríamos perante um dos melhores jogadores de sempre. Numa posição crítica àquilo que é o futebol “moderno”,  na função dos passes progressivos, pressões, interceções, dribles completos, transporte de bola, e tudo aquilo associado a um médio, Redondo, quer numa função de pivot em 4-3-3, duplo pivot em 4-2-3-1, ou na função de distribuidor de um meio campo a dois à Sporting (canhoto como Bragança, o digno titular), é o jogador ideal, quiçá perfeito. Resta imaginar, fantasiar, e deliciar-se com os seus highlights no YouTube (alguns no DailyMotion também) de forma a comprovar tal elevada forma de execução do futebol bem jogado.


Imagem: Clive Mason/Allsport