Lampard Out, Tuchel in. Boa decisão?

Após cerca de 18 meses como treinador do Chelsea, a direção, liderada por Roman Abramovich, decidiu demitir o treinador inglês de 42 anos, antiga estrela do clube, que frequentou durante 13 anos da sua carreira de jogador.

Depois de uma primeira temporada promissora, em que o Chelsea conseguiu o apuramento para a Liga dos Campeões e chegar à final da FA Cup, a equipa gastou mais de 200 milhões de Euros em transferências no mercado de Verão. Contratações como as de Ziyech, Kai Havertz, Timo Werner, Thiago Silva ou Ben Chilwell vieram dar a esperança de que, depois de uma temporada que excedeu as expectativas, o Chelsea pudesse competir pelo título na época seguinte.

Assim sendo, porque é que, depois de várias contratações sonantes, e depois de uma primeira época positiva a vários níveis, Frank Lampard foi dispensado, acabando como o treinador com menos pontos por jogo da era Abramovich (apenas 1,67 pontos por jogo)?

Um dos principais problemas apontado ao Chelsea de Lampard foi a forma como as novas contratações foram utilizadas. Se, por um lado, Thiago Silva, Edouard Mendy e Ben Chilwell têm sido membros importantes para uma revolução defensiva no Chelsea, os maiores casos de mau aproveitamento no clube recaem sobre as duas contratações mais sonantes: Werner e Havertz. Será culpa do treinador ou apenas uma questão de falta de adaptação?

Hakim Ziyech foi a primeira contratação oficializada pelo Chelsea para esta época, em fevereiro de 2020

Kai Havertz, médio de 21 anos, veio do Bayer Leverkusen por 80 milhões de euros. Depois de 30 golos e 9 assistências em 64 jogos na Bundesliga nas últimas duas épocas, Havertz protagonizou a transferência mais cara da história dos Blues no verão de 2020. As expectativas eram altas, no entanto, o médio alemão leva apenas 1 golo e 3 assistências em 18 jogos na Premier League este ano, onde só conseguiu participar em 60% dos minutos de jogo. Mason Mount, jovem inglês da academia do Chelsea, tem esta época 2 golos e 4 assistências no campeonato inglês, estando presente em 86% dos minutos de jogo da equipa.

Kai Havertz, contratado por 80 milhões de Euros no verão

Já Timo Werner chegou do RB Leipzig por 53 milhões de euros. Depois de épocas de vários golos nos alemães, Werner chegou com rótulo de marcador, vindo de uma época em que marcou 34 golos em 45 jogos. Apesar disso, este ano leva apenas 4 golos em 19 jogos no campeonato inglês, e apenas um golo para todas as competições nos últimos 19 jogos do Chelsea, marcado contra o Morecambe da quarta divisão inglesa.

Werner leva apenas um golo contra o Morecambe nos últimos 19 jogos pelos Blues

O que explica estes números de ambos?

Tanto num caso como noutro, podemos dizer que é uma questão de ambientação à liga inglesa e de utilização em posições que lhes são estranhas. Num plantel tão recheado de jovens estrelas, é preciso muitas vezes adaptar certos jogadores a posições em que não rendem o esperado.
Havertz, conhecido pelo seu talento com bola, capacidade de desmarcação e chegada à área enquanto número 10 ou falso 9, foi experimentado a extremo direito no princípio da temporada. As más exibições, numa liga diferente e num jogador jovem, podem levar à falta de confiança e a uma espiral descendente no que toca à qualidade de jogo.

Por seu turno, Werner, apesar de ponta-de-lança de raiz, foi utilizado por Lampard como extremo esquerdo. O seu pobre rendimento pode ser visto sobretudo do ponto de vista tático, uma vez que tanto Giroud como Abraham possuem mais golos marcados que o avançado alemão nesta época.

Faz, portanto, sentido afirmar que o treinador é também responsável pelo toca ao fraco rendimento não só destes jogadores, mas também da equipa. Apesar da liga inglesa estar longe da sua decisão (o Chelsea está a 14 pontos do primeiro classificado, Manchester City), o fraco rendimento de uma equipa tão cara mostra não só que Frank Lampard não conseguiu tirar o máximo partido dos seus jogadores, como também que talvez os jogadores adquiridos tenham sido desnecessários, uma vez que as pérolas da academia continuam a brilhar. Abraham e Mount, os jogadores que ocupam as posições que seriam à partida destes dois reforços, continuam a florescer e a brilhar.

Lampard foi também criticado por ter contratado jogadores por tão elevadas quantias em vez de explorar os jovens da formação, como Mount, Abraham, Tomori, Callum Hudson-Odoi ou Billy Gilmour. A mudança de abordagem, com um investimento tão grande por trás, revelou que Lampard não foi capaz de potenciar os seus mais recentes e valiosos ativos. Como tal, e apesar da conhecida “rotação” de treinadores promovida pela direção de Abramovich (nunca nenhum treinador chegou aos três anos seguidos como técnico do clube londrino com o magnata russo a líder do clube), o despedimento de Lampard é uma medida que se pode considerar correta. Por vezes, a chamada “chicotada psicológica” é suficiente para agitar o balneário, e o Chelsea espera que tal aconteça.

Com uma certa ironia poética, Frank Lampard esteve no banco pela última vez no jogo a contar para a FA Cup contra o Luton Town, num jogo em que a equipa foi capitaneada por Mason Mount e em que Tammy Abraham marcou os três golos dos Blues. Um bonito final, em que os dois nomes mais sonantes potenciados por Lampard foram os protagonistas.

Mason Mount, jovem lançado por Lampard, capitaneou o Chelsea no último jogo do treinador inglês

O escolhido para o cargo é Thomas Tuchel, ex-treinador do PSG. Sobram algumas dúvidas sobre aquilo que o treinador alemão pode trazer ao Chelsea, no entanto, o treinador teve os seus altos e baixos na carreira: por um lado, venceu tudo em França e chegou à final da Liga dos Campeões, por outro, foi despedido dos seus últimos dois cargos, quer no PSG, quer no Borussia Dortmund.
Treinador com mentalidade atacante, os avançados debaixo da sua alçada costumam potenciar as suas habilidades. Uma vez que talento ofensivo não falta ao Chelsea, esperemos que Tuchel consiga o retirar o máximo dos seus avançados, não só dos seus dois compatriotas que foram abordados neste artigo, mas também dos jovens jogadores vindos da formação do clube inglês, fazendo a gestão entre as contratações e os jogadores formados localmente.

À data desta publicação, Tuchel comandou dois jogos pelo Chelsea. Se o primeiro contra Wolverhampton foi apenas uns dias depois de assumir o controlo técnico da equipa e resultou num empate a zero, o segundo jogo frente ao Burnley mostrou que o treinador vem com ideais bem definidas e já transmitidas à equipa. Em 3-4-3, com os alas projetados (tática que utilizou muitas vezes em Paris, beneficiando do jogo interior de Neymar, compensado nas alas pelos laterais), o maior destaque vai para Callum Hudson-Odoi. Apesar de já ter sido considerado pelos Blues como Homem do Jogo na partida frente aos Wolves, foi na vitória categórica por 2-0 frente ao Burnley que mais se destacou. Tuchel utilizou-o como ala defensivo, com resultados extremamente positivos: uma assistência e uma exibição de mão cheia para o jovem inglês, que parece estar a ganhar uma nova vida com o técnico alemão.

Thomas Tuchel tem potenciado as habilidades de Hudson-Odoi, explosivo ala inglês de 20 anos

Thomas Tuchel parece estar no bom caminho para comandar o Chelsea. A gestão do plantel será um dos principais desafios para o treinador ex-PSG, no entanto, se conseguir um bom equilíbrio entre todos os talentos no balneário, a profundidade que tem será sem dúvida um passo em frente nas aspirações futuras a competições longas e fisicamente desgastantes, como é o caso da Premier League.

 

Todas as imagens neste artigo são provenientes do site oficial do Chelsea FC.