Atalanta: como explicar a ascensão meteórica do clube de Bérgamo

A Atalanta foi dos clubes que mais cresceu nos últimos anos. Da luta pela manutenção no campeonato italiano à presença na fase final da Champions League, o clube italiano conquistou adeptos por todo o mundo. E são várias as razões que explicam este fenómeno.

Gasperini: um revolucionário no esquema de 3 centrais

Na época de 2016/2017, Gian Piero Gasperini assumiu o comando técnico da Atalanta, substituindo Edoardo Roja. À data, a Atalanta lutava pela manutenção no principal escalão do futebol italiano e vinha de um 13º lugar.

Como muitos treinadores em Itália, Gasperini usa preferencialmente uma formação com 3 defesas centrais. Muitas pessoas associam uma saída de bola a 3 a um estilo de jogo defensivo, mas a forma como a Atalanta joga é tudo menos defensiva. Com forte pendor ofensivo e uma pressão muito alta, Gasperini revolucionou a forma como a equipa jogava e melhorou os resultados. Na época de estreia colocou a equipa num 4º lugar que deu entrada na Liga Europa.

Nas épocas seguintes a Atalanta ficou em 7º lugar e por 2 vezes em 3º. Em 2019/2020 jogou pela primeira vez na história do clube a Liga dos Campeões e só caiu nos quartos de final às mãos do PSG, num jogo em que entrou nos descontos a ganhar, mas consentiu a reviravolta no tempo complementar.

A gestão do clube

Aliado ao novo estilo de jogo, a gestão do clube também tem sido um dos elementos que possibilitam o sucesso. Em 2010, António Percassi, antigo defesa central da Atalanta, tornou-se presidente do clube de Bérgamo após anos enquanto empresário nos quais alcançou uma fortuna considerável. De acordo com a Forbes é o 35º homem mais rico em Itália.

Com uma gestão discreta e longe dos holofotes, a Atalanta escalou patamares no futebol italiano. Não obstante o sucesso, o Presidente assume que o objetivo é dar alegrias aos habitantes de Bérgamo.

A política de contratações e de gestão de ativos foi um dos fatores que também permitiu o crescimento do clube. Apostando no desenvolvimento de jogadores através da base do clube e na contratação de jogadores vindos de campeonatos periféricos, como o belga, o russo ou o holandês, e por isso mais baratos, a Atalanta construiu uma equipa de nível elevado. A gestão de ativos é baseada no empréstimo de jogadores quando estes não têm espaço, o que permite a valorização destes com vista, quer à venda, quer à integração na equipa principal e na manutenção do núcleo duro que garante um forte entrosamento de temporada para temporada.

Como joga a Atalanta?

Como referido anteriormente, a Atalanta apresenta um estilo de jogo com forte pendor ofensivo e com uma pressão efetuada logo na saída de bola da equipa adversária.

O sistema tático predileto é o 3-4-1-2, podendo variar num 3-4-2-1 ou num 3-5-2, conforme as características da equipa adversária

Defensivamente, a Atalanta aposta numa marcação individual, em que cada jogador marca e tenta condicionar a ação de um jogador em específico. Este sistema de encaixes individuais faz variar a função de cada jogador de um jogo para outro e explica o porquê de muitas vezes os defesas centrais da Atalanta estarem a marcar médios adversários. No entanto, tal como todos os sistemas, esta estratégia apresenta pontos negativos que muitas vezes conseguem ser aproveitados pelos adversários. A marcação tendencialmente individual leva a que, quando o jogador que defende é ultrapassado, muito terreno fique livre para progredir ou a situações de desvantagem numérica.

Por sua vez, ofensivamente a Atalanta procura focar o jogo nas laterais. Os centrais mais à esquerda e à direita abrem para dar largura e permitir a subida dos alas. Os pontas de lança também procuram dar linhas de passe a partir do corredor lateral o que gera geralmente uma de duas reações possíveis. Ou a equipa adversária procura acompanhar a largura, dispersando-se pelo campo – o que cria espaço, aproveitado pela Atalanta no centro do terreno – ou foca-se no lado em que a bola circula – o que liberta espaço no lado oposto, sendo rapidamente procurada uma inversão que possibilite o aproveitamento do espaço livre.

Quem são os protagonistas dentro de campo?

Na baliza Pierluigi Gollini é indiscutível. O guarda-redes italiano de 25 anos tem conseguido melhorar o nível exibicional de época para época, e é neste momento titular absoluto. Sportiello é o suplente.

Os 3 centrais são, quando estão todos disponíveis, Djimsiti à esquerda, Cristian Romero no centro, e Rafael Tolói à direita. Após 2 empréstimos Djimsiti assumiu-se como um central confiável na equipa italiana; Tolói  é um jogador que se projeta no ataque bastante bem e que gosta de ocupar terrenos mais avançados, sendo também um dos jogadores do plantel atual com mais jogos pela Atalanta; Cristian Romero é um jovem emprestado pela Juventus até ao fim da época de 2021/2022, e por muitos considerado um dos melhores defesas da liga, pelo que é provável que a cláusula de opção de compra de 16 milhões de euros seja acionada no fim do empréstimo. Palomino e Caldara são as principais alternativas, num banco em que Sutalo se afigura como uma promessa para o futuro.

Gosens à esquerda e Hateboer à direita são dois dos jogadores mais importantes desta equipa, fruto da importância dos alas neste sistema. Além da qualidade técnica a construir jogo, ambos os jogadores são bastante solicitados em cruzamentos que procuram o segundo poste. Joakim Maehle é a principal alternativa para ambos os lados, e com a saída de Mojica, Ruggeri, jovem de apenas 18 anos, pode ganhar espaço.

Freuler e De Roon formam a dupla de médios à frente da defesa. Ambos com bastante experiência e entrosamento, são fundamentais para o equilíbrio defensivo e uma linha de passe no centro do terreno. Pasalic e Pessina são as alternativas, mais criativas, mas mais permeáveis defensivamente.

A grande incógnita da Atalanta neste momento é a posição de médio ofensivo. Papu Goméz, a maior referência da Atalanta da última década, saiu neste mercado de inverno após um conflito com Gasperini. Além da experiência, o argentino, que joga muito bem entre linhas, era o elemento mais criativo em campo e quem mais facilmente conseguia desequilibrar a partida, com um passe ou um drible que desmontasse a defesa adversária. Pessina já foi utilizado mais à frente e pode ser útil em jogos em que seja necessário reforçar o miolo; Malinovsky e Miranchuk são as alternativas que começaram a época no plantel, mas apresentam alguma irregularidade exibicional; e Kovalenko foi contratado a preço de saldos (por estar em fim de contrato) no fecho do mercado de inverno, podendo vir a ser quem ocupará a vaga deixada por Papu Goméz.

Por fim, os dois pontas de lança são habitualmente Zapata e Ilicic, dois jogadores com características bem diferentes. O colombiano é um jogador forte e rápido, capaz de dar profundidade (costuma abrir no corredor esquerdo dando mais espaço ao médio ofensivo e ao ala esquerdo), mas também de receber de costas para a baliza e de esperar pela chegada dos companheiros. Já Ilicic é neste momento o jogador mais criativo da equipa. Após uma paragem que o impediu de jogar a fase final da Liga dos Campeões na época passada, o esloveno parece ter recuperado a boa forma e tem vindo a fazer partidas muito boas, partindo do corredor direito para o meio, onde consegue acionar o pé esquerdo. Luis Muriel é uma alternativa muito completa e Lammers é um jovem com potencial que, apesar do bom início de época tem vindo a perder espaço.

Perspetiva para o que resta da temporada 2020/2021

Neste momento, e numa altura em que a 2ª volta acabou de começar, a Atalanta ocupa a 7ª posição no campeonato italiano mais disputado dos últimos anos, a apenas 10 pontos do AC Milan, primeiro classificado, e a 3 pontos da Juventus, a primeira equipa nos lugares de acesso à Champions League. No plano nacional chegou à final da taça pela 2ª vez em 3 anos. Após eliminar o Nápoles, defrontará a Juventus e, em caso de vitória será um troféu que coroará o projeto bem conseguido da equipa de Bérgamo.

Já quando se fala da Champions League, a Atalanta passou pela frase de grupos pela 2ª vez consecutiva. Num grupo complicado, passou em 2º lugar atrás do Liverpool e à frente do Ajax e do Midtjylland. Nos oitavos de final enfrentará o Real Madrid, num encontro que se espera complicado. Porém, o fraco nível exibicional e os maus resultados recentes do clube espanhol podem permitir à Atalanta uma classificação por muitos considerada uma utopia.

 

Fonte da imagem de capa: Atalanta Bergamasca Calcio (Facebook)