FC Porto vs Boavista: dar de avanço custa caro a Sérgio e companhia

Após a dose dupla de hecatombes em Braga, a primeira às custas do empate tardio de Nico Gaitán para a Liga e a segunda às custas do empate tardio de Fransérgio na primeira mão da Taça, o Futebol Clube do Porto vai prosseguindo com a sua série doentia de dois jogos durante praticamente todas as semanas durante mais um mês, até defrontar o Paços de Ferreira no dia 14 de Março, a grande sensação do campeonato e o adversário desta semana do Sporting, líder e obstáculo principal da luta dos Dragões pela revalidação do título.

Por seu lado, o Boavista, que ao início da temporada revelava ter um projeto ambicioso, fruto do investimento do dono do Lille, é o último classificado, perde há cinco jogos consecutivos, e não ganha desde 22 de Novembro, quando venceu o Vizela para a terceira ronda da Taça. A única vitória dos axadrezados para o campeonato foi contra o Benfica.

Sem Uribe e Luís Diaz, depois das expulsões, mas com Corona de volta da sua suspensão, Sérgio Conceição manteve a fórmula, arriscando um pouco mais ao entregar a posição de 6 a Sérgio Oliveira e a conceder a Fábio Vieira a função de ligar o meio campo ao ataque, com Malang Sarr a lateral esquerdo e João Mário a ocupar o lugar de Díaz.

O Boavista do professor Jesualdo armou-se como pôde, neste caso numa defesa a três que, ao jeito daquilo que o Gil Vicente fez contra o Sporting (mas mais eficazmente), se desdobrava numa linha de cinco e com os dois médios interiores a fechar na ala, traduzindo-se num 541/532 a defender e num 352 a atacar, com Angel Gomes a jogar entrelinhas atrás de Alberth Elis, que por pouco não abriu as hostilidades ao minuto 3, seguindo um belo cruzamento de Reggie Cannon, o portentoso ala direito do Boavista. A verdade é que o Boavista entrou com todo o gás, e acabou mesmo por inaugurar o marcador ao minuto 9, através de um canto. Jackson Porozo aproveitou a falha de marcação da defesa do Porto, apaticamente alinhada na pequena área, e cabeceou fulminantemente, fazendo a bola embater na barra antes de beijar as redes da baliza de Marchesín.

O Boavista revelou-se relativamente ambicioso na sua postura defensiva para começar, mantendo um bloco médio, posicionamento que o Porto tentou explorar sobretudo através dos flancos. O Boavista ia acusando um pouco a pressão do resultado com algumas faltas ingénuas, sobretudo a de Paulinho, que lhe deu direito a amarelo por volta do minuto 19. O Boavista conseguiu mesmo ampliar a vantagem já nos descontos da primeira parte após uma boa ação de Ricardo Mangas, que combinou com Angel, apanhou Manafá desprevenido e sem oposição cruzou para Elis encostar.

A segunda parte só deu Porto, como era de esperar, tendo em conta a diferença de argumentos entre as equipas: ao minuto 54, Taremi remata à entrada da área sem grande perigo aparente, mas a bola é transviada e trai Léo Jardim. Já com o Porto completamente inclinado para o ataque, a equipa do Boavista dispôs de várias situações de contra ataque em superioridade numérica, mas que desperdiçou, por ineficácia no último passe, nestes casos em cruzamentos.

O Porto muito ineficazmente tentava criar algo contra a já linha baixa do Boavista: destaco o excelente remate de fora da área de Sérgio Oliveira ao minuto 77, obrigando Léo Jardim a defesa mais apertada. Acabou por chegar a hora do ponto, quando Evanilson é derrubado, num lance no mínimo duvidoso, obrigando Manuel Mota a marcar castigo máximo, para Sérgio Oliveira exemplarmente aproveitou para igualar o marcador. Praticamente no lance a seguir, Francisco Conceição é abalroado na área, e novo penálti é marcado. O elogio que fiz na altura à cobrança de Sérgio Oliveira e que fica imortalizado nesta análise parece ter afetado a psique do médio do Porto, que inexplicavelmente passa a bola ao poste, que devolve de volta de tamanho repúdio por um penálti tão mau em comparação com o primeiro.

Os últimos minutos do jogo são absolutamente indescritíveis: apenas quem viu o final pode efetivamente comprovar e corroborar. De novo, Francisco Conceição, cuja entrada mexeu com o jogo (chamem-lhe nepotismo ou não) e deu a vertigem que faltava ao ataque portista, criou um lance de golo, rematando para defesa incompleta do guardião axadrezado. Aquilo que se segue é um lance que nem no FIFA: um remate incompleto de Evanilson transforma-se num ressalto e a bola acaba por entrar, mesmo depois de Léo Jardim, em desequilíbrio, tentar socar a bola para fora. O golo é efusivamente festejado, naturalmente, especialmente tendo em conta o peso do rebento Conceição no lance, que corre para os braços do pai. Foi deveras bonito de se ver, mesmo para alguém que não apoia o Futebol Clube do Porto. No entanto, a magia do momento foi crucificada por Manuel Mota que, após consultar o VAR, determina que Evanilson tocou com a mão num dos momentos do ressalto, longo, e invalida o golo.

Os últimos minutos de “chuveirinho” foram insuficientes para o Porto recuperar a primeira parte que deu de avanço. O Porto continua a marcar passo no campeonato, e nada mais nada menos do que contra o último classificado, e o Boavista, por sua vez, marca um ponto importantíssimo rumo à manutenção. Destaco as exibições de Reggie Cannon e Alberth Elis, que foram um poço de força e repentismo no jogo do Boavista, relativamente limitado, especialmente na segunda parte. Angel Gomes era muitas vezes a fonte de maior “refinamento”, com as suas combinações junto às alas e também com o ponta de lança hondurenho da equipa do Boavista.

Da mesma maneira que o Sporting ganhou na semana passada frente ao Gil, o Porto também deveria ter ganho este jogo: não o ganhou por duas desatenções defensivas, sobretudo de Diogo Leite e Manafá, que comandavam as áreas críticas por onde os golos foram criados (aquele espaço na área no canto e a ala direita), porque não criou oportunidades melhores e porque Sérgio Oliveira desperdiçou, de maneira inexplicável, um penálti, especialmente tendo em conta que aquele que marcou antes é dos melhores que podem marcar. Resta saber se o Sporting consegue aproveitar este deslize no duro duelo frente ao futebol “hardcore” de Pepa e da Capital do Móvel, e aumentar a vantagem na liderança isolada do campeonato para dez pontos.

Fonte: Manuel Fernando Araújo/Agência Lusa