Lembra-se de Carlos Canário, “o sexto violino”?

Os anos 40 foram marcados por uma das melhores frentes de ataque que o Sporting Clube de Portugal alguma vez operou. Travassos, Albano, Jesus Correia, Vasques e Peyroteo eram os artistas leoninos que, tal era a harmonia dentro de campo, até tiveram direito a alcunha: “os cinco violinos”. Uma orquestra composta por uma mão cheia de elementos que encantou os relvados portugueses com a sua música, por várias temporadas.

Há, ainda assim, um outro jogador que, não poucas vezes, contribuiu para o sucesso deste arsenal leonino, conseguindo um belo entrosamento com estes protagonistas. Há quem lhe chame, até, “o sexto violino”. Trata-se do alentejano Carlos Canário. Lembra-se dele?

Nasceu em Portalegre, a 10 de fevereiro de 1918. Como jovem jogador, começou por atuar a avançado, no Sport Clube Estrela, o emblema da sua terra, onde ficou de 1933 a 1938. Seguiu-se, então, uma viagem para Lisboa, onde procurou tentar a sua sorte no Sporting, do qual já era um adepto confesso.

Chegou a Alvalade com 20 anos, onde iniciou as suas participações nas reservas do clube leonino. Na altura, cada jogador tinha direito a dez minutos para se mostrar dentro de campo e Canário, ao que parece, fez bom uso dos mesmos, uma vez que Joseph Szabo, então treinador da equipa principal, não tardou a chamá-lo.

A sua estreia dificilmente poderia ter sido melhor, contribuindo com um golo no “massacre” por 7-1 ao Carcavelinhos, partida a contar para o já extinto Campeonato de Lisboa. Nesta altura, Canário treinava e jogava ao mesmo tempo que trabalhava num armazém de mercearia, sendo a conjugação de horários altamente exigente.

Apesar da boa estreia, os primeiros anos foram difíceis para o alentejano, uma vez que, como referido, a linha dianteira dos verdes e brancos era de elevadíssima qualidade (numa altura, recorde-se, em que ainda não havia substituições). No entanto, em 1941/42, Canário aproveitou as lesões de alguns titulares para se mostrar com maior regularidade, acabando mesmo a temporada como segundo melhor marcador dos leões, apenas atrás de, quem mais, Fernando Peyroteo.

A carreira do portalegrense viria a mudar drasticamente logo na época seguinte, quando Szabo decide fazê-lo recuar no terreno, passando a ocupar o meio campo do leão rampante. Esta simples alternância de posições permitiu-lhe, não só assumir a titularidade, como passar a coexistir dentro de campo com os míticos “cinco violinos”, começando a servir de elo de ligação ao poderio ofensivo sportinguista.

Carlos Canário passou, então, a construir as jogadas de golo que terminavam com a nota artística de Peyroteo e companhia. Foi assim que ganhou o título honorífico de “sexto violino”, contribuindo com uma compostura extra para a poderosa orquestra lisboeta.

O agora médio destacou-se, sobretudo, pela sua visão de jogo e qualidade de passe, somadas a uma polivalência já bem demonstrada, aquando da mudança posicional. Já a nível coletivo, Canário integrou uma das melhores eras dos leões da capital no que a trofeus diz respeito, arrecadando oito campeonatos nacionais entre 1943/44 e 1953/54, sendo, até hoje, um dos sportinguistas mais titulados de sempre, na história do clube.

Com 300 partidas e 40 golos conseguidos em Alvalade, o portalegrense ainda foi a tempo de representar a seleção nacional. Orientado por Virgílio Paula, estreou-se num particular diante da Irlanda, no Estádio Nacional. Apesar dos 30 anos, ainda foi a tempo de somar outras nove internacionalizações, capitaneando, inclusive, a seleção B, entretanto extinta.

O seu último jogo de quinas ao peito foi noutro particular, em Liverpool, numa derrota por 5-2 frente a Inglaterra. Mais tarde, em 1951, com 34 anos, pôs fim à sua carreira. Recebeu inúmeras homenagens ao longo dos anos, por parte do Sporting, acabando por falecer a 8 de setembro de 1990, vítima de um acidente cardiovascular.

Esquecido por muitos, mas, apesar de tudo, lembrado por outros tantos. Carlos Canário continua a ser considerado, até hoje, o “sexto violino”, sem o qual, certamente, a música não teria sido a mesma.

 

Imagem: Museu Sporting (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.