Opinião: O que se passa com o futebol português?

As últimas semanas não têm sido particularmente agradáveis para os amantes do futebol português. Já há muitos anos que o ambiente no mundo do desporto-rei em Portugal é bastante hostil e de guerra. A diferença entre os “três grandes” e os restantes clubes é cada vez maior, especialmente no que toca ao poder que os clubes detêm na Liga de Clubes. Nas semanas que passaram, vimos várias situações que envergonham qualquer adepto desta liga: vários casos de arbitragem, comentários pouco dignos de dirigentes dos clubes, clubes cheios de poder a vitimizar-se, ignorando o jogo jogado, casos em tribunal, possibilidade de decidir jogos na secretaria, entre outros. O treinador do Benfica, Jorge Jesus, falou, numa conferência de imprensa, sobre o estado do jogo em Portugal: mencionou as “fitas” feitas pelos jogadores para ganharem faltas e principalmente o anti-jogo, sugerindo que as equipas que não têm o mesmo poderio financeiro de outros clubes devem tentar encontrar soluções táticas para os anular em vez de usar “técnicas” de perda de tempo útil de jogo. Jorge Jesus sugere que uma reunião com todos os treinadores da Primeira Liga poderia ajudar a resolver esta situação, ou pelo menos a efetuar alguma mudança. Ainda que concorde com o treinador do Benfica com a ideia de que uma reunião entre todos os treinadores poderia ajudar a promover a mudança, acredito que não é só aqui que são necessárias melhorias.

Assim, apresento seis aspetos que necessitam de alterações para melhorar o clima de guerra que se vive no futebol português:

 

Os Dirigentes do SLB e do FCP

Desde que Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira entraram para os seus cargos nos seus respetivos clubes que se intensificou o clima de guerra vivido no futebol português. Obviamente que o poder destes dois indivíduos vai para além do futebol, ambos tendo contactos e influência sobre entidades governamentais, e isso também tem um papel muito grande na criação deste ambiente. Desde casos de corrupção, à clara “lavagem cerebral” aos adeptos dos clubes, intensificada pelo clima do futebol português, estes indivíduos e este estilo de gestão não é adequado à modernidade do futebol. São necessários dirigentes interessados no sucesso desportivo dos clubes para além do sucesso financeiro. O Benfica teve recentemente uma oportunidade para começar a mudar este paradigma, mas não a aproveitou, voltando a eleger Luís Filipe Vieira.

 

Mentalidade Agressiva

Há uns anos surgiu um vídeo do Porto Canal, de um indivíduo a explicar que celebra mais uma entrada forte sobre um jogador rival que um golo, explicando que é disso que o povo gosta. A mentalidade competitiva é importante mas, não será mais importante “o povo” gostar de golos que de entradas assassinas? Preferem-se jogadores “raçudos” a jogadores tecnicamente superiores. Quando um jogador é associado a um clube português prefere-se saber se tem raça a saber se consegue jogar entre linhas. Esta mentalidade impede que a qualidade do futebol em Portugal suba. Devem-se privilegiar as capacidades técnico-táticas dos jogadores e do futebol em si.

 

Comunicação

Desde a comunicação dos clubes à comunicação social, todos contribuem para tornar o futebol português cada vez mais tóxico. Canais e jornais como a CMTV, Record ou O Jogo incentivam a esta toxicidade através das suas “manchetes” e das suas histórias pouco sérias. Programas de “debate desportivo” com um “membro representante” de cada um dos três grandes que, no fundo, apenas estão lá para espalhar propaganda das direções dos seus clubes. As redes sociais e a comunicação por parte dos clubes são demasiado formais. Já alguns clubes começaram a tornar as suas redes sociais um espaço de interação com os adeptos, como o Sporting e o Braga, criando conteúdos que apelam ao interesse de todos e que aproximem as equipas aos adeptos.

 

Arbitragem

É verdade que o nível de arbitragem em Portugal é muito baixo, mas isso não desculpa ataques às vidas pessoais dos árbitros nem ameaças feitas à mesma. Todos vemos durante os jogos como vários jogadores, treinadores e, às vezes, até os médicos dos clubes pressionam as equipas de arbitragens a tomar decisões a seu favor, e os árbitros cedem. Pensava-se que o VAR iria trazer mais certezas e ia ajudar os árbitros a deixar de cometer erros básicos mas, na verdade, apenas veio demonstrar a qualidade (ou falta dela) da arbitragem em Portugal. Os árbitros deixaram de ter uma desculpa para os erros infantis que cometem, pelo que uma nova “escola” de árbitros é precisa, com mais formação sobre as regras do jogo, mais formação sobre o VAR e especialmente, é necessário que se encontre uma forma de estes não poderem arbitrar jogos das equipas que apoiam nem dos seus rivais diretos. Outra medida que poderia ajudar a trazer transparência à arbitragem seria a publicação de relatórios com transcrições daquilo que as equipas de arbitragem dizem durante os jogos.

 

Relvados e Estádios

Para o EURO 2004 mandaram-se construir estádios, para acomodar os jogos da competição. Eram estádios modernos, com relvados impecáveis, bancadas novas, remodelações, tudo e mais alguma coisa. Hoje em dia, se formos ver os estádios dos clubes da Liga NOS, e mesmo os estádios construídos para o Euro, agora “abandonados”, que são sempre escolhidos para finais das Supertaças e Taças da Liga (ou Allianz Cup) ou até o Estádio Nacional (utilizado semana sim, semana não, pela B-SAD), existem 4 ou 5 com relvados de qualidade e os restantes parecem “campos de batatas”. As bancadas não são protegidas, exemplo disso é a descoloração constante dos lugares do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, os relvados não são protegidos, o que leva especialmente a que, em zonas mais afetadas por meteorologias extremas, como nas ilhas, se tenham de adiar jogos, ou jogar em condições deploráveis, afundando ainda mais a qualidade do nosso futebol. Olhamos para campeonatos superiores e é raro vermos um campo nas condições do Estádio do Jamor que é o nosso Estádio Nacional.

 

Anti-jogo

Como Jorge Jesus referiu na sua conferência de imprensa após o jogo do Benfica frente ao Estoril, existem muitas equipas e muitos treinadores em Portugal que, não tendo os mesmo recursos que as equipas de topo, instruem os seus jogadores a demorar um pouco mais num pontapé de baliza, ou a demorar mais tempo a sair do campo numa substituição, ou a fingir uma lesão que implica a entrada da equipa médica, entre outros. Muitas vezes estas técnicas não são sequer utilizadas nos derradeiros minutos de um jogo, mas a partir do momento que o resultado é positivo a essa mesma equipa. Há quem defenda que “cada um luta com as armas que tem”, mas será este o caminho? É este o futebol que queremos dar a mostrar ao mundo? Os treinadores devem encontrar maneiras de disputar um jogo sem ser através da perda de tempo. Seja defendendo de forma compacta, frustrando o adversário ou atacando intensivamente explorando os pontos fracos dos oponentes. Se há treinadores que não têm essa capacidade tática para o fazer, que se encontrem pessoas capazes para integrar as equipas técnicas e melhorar a qualidade do nosso futebol jogado.

 

Existem muitas mais áreas problemáticas no futebol português, como a centralização dos adeptos a três clubes, ou os problemas das SAD’s que levam clubes históricos a ter de descer aos campeonatos distritais, mas achei que estas 6 matérias seriam um bom ponto de partida para melhorar tanto o ambiente que se vive no futebol em Portugal, como o jogo em si. Esperemos que aqueles que detém o poder para efetuar melhorias o façam nos tempos futuros.

 

Imagem: Twitter @JornalNoticias