Históricos: o milagre na Praia da Vitória

Quer arrepiar qualquer cidadão da Praia da Vitória, da ilha Terceira, nos Açores? Então relembre-lhe este jogo histórico que, 48 anos depois, ditou aos bravos da Praia a passagem aos oitavos de final da Taça de Portugal.

Na quarta eliminatória da prova rainha do futebol português, o sorteio pôs frente-a-frente dois clubes que militavam no Série D do Campeonato de Portugal. Desta forma, Sport Clube Praiense e União Desportiva Vilafranquense marcavam encontro no Estádio Municipal da Praia da Vitória para dia 19 de novembro de 2017.

Uma tarde nublada aguardava ambas as formações. Filipe Coelho, treinador dos visitantes, iniciou a partida com Carlos, Rúben Freitas, Dénis Martins, João Freitas, Tiago Cerveira, Diogo Izata, Carlos David, Luís Pinto, Marocas, Ragner Paula e Luquinhas. Na equipa da casa, o mister Francisco Agatão alinhou de inicio com Tiago Maia na baliza, uma defesa com 3 centrais, Diogo Careca, Cristiano Pascoal e Breno Freitas, na ala direita Luciano Serpa e na esquerda Dinamite; o centro do terreno era ocupado pelo capitão João Peixoto, Diogo Moniz e Diogo Martins; na frente de ataque estava Joazimar Stehb no apoio a Diogo Fonseca.

Em cima (da esquerda para a direita): Diogo Fonseca, Breno Freitas, Diogo Moniz, Diogo Careca, Cristiano Pascoal e Tiago Maia. Em baixo: João Peixoto, Luciano Serpa, Dinamite, Diogo Martins e Joazimar Stehb.

O árbitro Rui Soares, de Santarém apitou para o inicio da partida e cedo o Praiense adiantou-se no marcador. Livre descaído para a esquerda do ataque dos encarnados da Praia e Stehb, com conta, peso e medida, meteu a bola no coração da área, onde apareceu Breno Freitas para cabecear à figura para defesa incompleta do guardião de Vila Franca e, na recarga, sem pedir licença a ninguém, Cristiano Pascoal, em cima da linha de golo, atirou para inaugurar o marcador.

O Vilafranquense, após sofrer o 1-0, teve que arregaçar as mangas e fazer pela vida. A rondar os 25 minutos, Diogo Izata aproveitou uma bola longa e ganhou na velocidade a Breno Freitas, depois, no frente a frente com Tiago Maia, fez o chapéu ao guardião da casa e empatou a partida. 1-1 e a igualdade estava restabelecida no Municipal da Praia.

Já era de esperar que a partida fosse marcada por um grande equilíbrio entre as duas formações, visto que ambas, no campeonato, ocupavam um lugar no pódio. Por isso, o jogo acabou por registar vários duelos a meio campo e poucas oportunidades de golo dignas de registo, pois a preocupação de não sofrer era superior à vontade de marcar. Assim sendo, o jogo acabou por seguir com uma igualdade a uma bola para o prolongamento.

Apertem os cintos e deem um calmante aos mais nervosos que este prolongamento foi impróprio para cardíacos. O Praiense até começou por cima no tempo extra, no entanto, quem conseguiu a vantagem foi o Vilafranquense; aos 96 minutos, Luquinhas, num contra ataque rápido, ganhou um ressalto, cortou para dentro e rematou rasteiro para o angulo inferior esquerdo da baliza dos praienses. Um bom remate, forte e imprevisível, prendeu Tiago Maia ao relvado e não deu hipótese ao guardião português. Os visitantes conseguiam uma vantagem importante no inicio do prolongamento.

Intervalo do prolongamento e a equipa da casa tinha uma dura tarefa pela frente. Era preciso, pelo menos, um golo nos próximos quinze minutos para a eliminatória não ser perdida. No entanto, “desistir” era uma palavra desconhecida na cidade da Praia da Vitória.

O chuva intensificou-se e o cenário ficou ainda mais dramático, juntamente com o guião do que iria acontecer e com os jogadores, que só faltavam vestir a capa para serem autênticos super heróis, protagonizaram um filme que Hollywood ainda não teve um engenho para reproduzir.

Aos 112 minutos, Dinamite recebeu a bola no canto esquerdo da área e, enquanto o guarda redes do Vilafranquense regressava à sua baliza, chutou em balão para a baliza visitante. O lance foi confuso e gerou polémica, pois o defesa da equipa de Vila Franca tirou a bola com a cabeça perto da linha de golo; resta saber se foi dentro ou fora, no entanto o árbitro auxiliar não teve dúvidas e marcou golo para a equipa da casa. 2-2 e era a loucura no estádio. O que parecia estar destinado a ser mais uma eliminação inglória da Taça de Portugal, começava a ganhar contornos de história mágica.

Nas bancadas, os adeptos ainda regressavam aos seus lugares, após os festejos eufóricos, e o Praiense já se agigantava para fazer o seu terceiro e decisivo golo. O irrequieto Filipe Andrade (que recentemente fez história no futebol português, pois é o novo melhor marcador de sempre do Campeonato de Portugal) conquistou a bola no meio de dois adversários e chamou o guarda redes, descaiu para a direita e depois, sem ninguém na baliza, cruzou para a área, onde apareceu um defesa da formação do Vila Franca que, na tentativa de cortar a bola, desviou o esférico em direção à baliza deserta. Cristiano Magina, com a bola a encaminhar-se para a baliza, encostou para o 3-2 final. Um dos momentos mais bonitos da história do Sport Clube Praiense. O resultado não se alterou e os praienses carimbaram a passagem aos oitavos de final da prova rainha.

Agora, em tom de conclusão, permitam-me um apontamento pessoal. Eu tive o privilégio de assistir a esta partida nas bancadas do Municipal da Praia da Vitória. Recordo-me perfeitamente da partida e é dos jogos de melhor memória que tenho do meu clube, o Sport Clube Praiense.

Fiquei num dos lugares cimeiros da bancada e à minha esquerda estava o meu avó, companheiro habitual dos típicos domingos de futebol e à minha direita, durante a primeira parte, não tinha ninguém, contudo, com o decorrer da partida, chegou um senhor idoso e sentou-se no lugar vazio à minha direita; o ar sereno e amigável, os auriculares nos ouvidos para ouvir o relato da partida, o cabelo branco, um par de livros numa mão e um terço na outra e, sobretudo, o colarinho branco que rodeava o pescoço e completava a sua camisa de botões fizeram-me crer que muito possivelmente era um padre.

Lembro-me de, nas paragens que o jogo ia tendo, olhar para o senhor e admirar a calma e a crença que tinha, de que tudo ia correr bem (apesar de não ter dito nenhuma palavra, estas características eram mais do que notórias) num jogo em que era praticamente impossível encontrar alguém tranquilo. Se é algum milagre divino ou de alguma força superior, isso já não sei, o que sei é que, mesmo estando a perder, o meu Praiense deu a volta e acabou por vencer a eliminatória. São estes momentos, estas memórias, estas vitórias e estas histórias que fazem um adepto apaixonar-se e criar laços com um clube que duram e duraram uma vida.

Fonte das imagens: Facebook de Mário Picanço Ataide e de JEdgardo Vieira.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.