Quem te viu e quem te vê: Jack Wilshere

Na edição desta semana, recordamos a história do médio inglês que, a dada altura, chegou a ser considerado uma das maiores promessas do Arsenal e do futebol inglês. As lesões e os comportamentos desadequados fora de campo impediram que chegasse ao seu máximo potencial e por isso mesmo iremos  ver por onde anda Jack Wilshere, nos dias de hoje, aos 29 anos.

Nascido em Stevenage no primeiro dia de 1992, filho de pais apoiantes do West Ham, o pequeno Jack começou a jogar futebol organizado no Knebworth Youth Football Club, clube local, aos 5 anos, antes de passar para o Luton Town. Aos 9 anos, durante um jogo, captou a atenção de um árbitro que era olheiro do Arsenal, surgindo a possibilidade de ir jogar para os Gunners, sendo que esta decisão, segundo o próprio, foi bastante difícil de tomar dado o carinho que Wilshere tinha pelos hammers e os encargos que a mudança para o Norte de Londres acarretaria.

Para bem do futebol, a “transferência” acabou por acontecer, sendo que, nos anos seguintes, o jovem jogador consolidou tanto o seu nome nas camadas jovens dos londrinos que Ársene Wenger, impressionado pela sua capacidade de liderança e maturidade para a idade, começou a chamá-lo aos 15 anos para treinar com a primeira equipa, fazendo inclusive parte do plantel principal para a época de 2008/2009. A estreia aconteceu a 13 de setembro de 2008, na vitória 4-0 sobre o Blackburn Rovers, no Emirates Stadium, tornando-se assim o jogador mais jovem de sempre a jogar pelo Arsenal, com 16 anos e 256 dias. Nessa temporada, o ainda adolescente participaria em mais 7 partidas em todas as competições e em mais 8 na primeira metade da época seguinte antes de ser emprestado em 2010 ao Bolton Wanderers.

A passagem pelo Reebok Stadium permitiu a Wilshere ganhar experiência de futebol sénior ao mais alto nível, ajudando pelo caminho os Wanderers a alcançar a décima quarta posição no final de uma temporada em que o jogador acabou com 14 jogos na Premier League e um golo, o seu primeiro na competição. Este empréstimo permitiu também ao médio adaptar-se à fisicalidade e rigidez técnico-tática do futebol profissional inglês mas também ser chamado no final da época por Fabio Capello, selecionador inglês da altura, para se estrear pela seleção principal dos Three Lions num amigável contra a Hungria.

Toda esta aprendizagem dos últimos meses possibilitou que Jack Wilshere, com apenas 19 anos, tivesse em 2010/2011 a sua época de afirmação no onze titular do Arsenal, realizando 49 jogos, muitos deles acompanhado por Alex Song e Cesc Fábregas num trio de meio campo que se completava e que era apoiado ofensivamente por extremos como Samir Nasri, Arshavin ou Theo Walcott e pelo ponta de lança Robin Van Persie. Apesar de só ter marcado 2 golos nessa temporada, o médio destacou-se pela a função que desempenhava na construção ofensiva nos gunners enquanto box-to-box  que recebia a bola no seu meio-campo defensivo e a transportava 30/40 metros até encontrar um homem solto na ala ou decidir fazer um passe de rutura diretamente para Van Persie.

A sua importância no jogo dos londrinos foi evidenciada ao mais alto nível na famosa primeira-mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões, contra o Barcelona, onde Wilshere dominou o meio-campo durante toda a partida tanto em termos ofensivos, começando a jogada do segundo golo do Arsenal, entre outras ações, mas principalmente no capítulo defensivo, na medida em que “secou” Xavi e Iniesta durante toda a partida, impedindo os dois melhores médios do mundo da altura de influenciarem o desfecho do jogo, que terminou com  a vitória da equipa da casa por 2-1. Esse desempenho despertou o interesse de todo o mundo do futebol, sendo considerado uma das maiores promessas do desporto-rei, estatuto reforçado quando no final da temporada foi considerado o melhor jogador jovem da Premier League.

Depois de uma temporada muito bem sucedida as expetativas eram altas para o próximos anos da sua carreira mas uma lesão no tornozelo num jogo de pré-época, afastaria Wilshere dos relvados durante 5 meses, que se transformaram em mais 5 quando perto do seu regresso à competição, se voltou a lesionar no tornozelo, falhando assim toda a temporada 2011/2012, o Campeonato da Europa e os Jogos Olímpicos de Londres de 2012. Após um ano e 2 meses de paragem, o médio nunca recuperou totalmente, especialmente em termos mentais, situação  agravada pelas notícias que saíam na imprensa sobre os seus comportamentos fora de campo e vida pessoal, que ajudam a explicar o porquê de nunca mais ter realizado mais de 40 partidas na sua carreira. Nas duas épocas seguintes, apesar de as lesões continuarem a atormentá-lo, participou em 90 partidas e marcou 9 golos, celebrando, durante esse espaço de tempo, a  conquista de duas Taças de Inglaterra seguidas em 2014 e 2015, ao mesmo tempo que cimentava o estatuto de um dos jogadores mais acarinhados dos adeptos do Arsenal.

Entre julho de 2011 e 2017, o médio falhou uns impressionantes 140 jogos devido a lesão, número que o fez perder espaço no plantel dos londrinos mas não no balneário, onde a sua presença era muito querida por ser um dos jogadores mais antigos do plantel e também pela sua capacidade de liderança e e motivação, mesmo fora das quatro linhas, tendo sidas por isso encarado, com alguma surpresa, o seu empréstimo ao Bournemouth em 2017. A passagem pelo clube do sul de Inglaterra devolveu a motivação que Wilshere necessitava para continuar a jogar ao mais alto nível e depois de ajudar a equipa a manter-se no primeiro escalão, voltou ao Arsenal e protagonizou a melhor temporada da sua carreira desde 2014, com 38 jogos e 2 jogos, naquela que seria, contudo, a sua última temporada ao serviço do clube que representava desde os 9 anos, por ter sido considerado dispensável pelo agora treinador dos gunners Unai Emery.

Após dois anos e meio sem sucesso no clube que apoiava em miúdo- o West Ham, o sul inglês voltou a chamar pelo médio, regressando ao Bournemouth em Janeiro deste ano. Wilshere leva já 2 golos em 7 jogos nos cherries, podendo ser um jogador-chave na tentativa de subir à Premier League, naquele que pode ser o ponto de viragem na carreira de um jogador que outrora se pensava que poderia se tornar num dos melhores box-to-box do mundo. As lesões e todo o aspeto mental associado evitaram que chegasse a palcos mais altos, mas a verdade é que com participações em Mundiais e Europeus, troféus conquistados e um dos golos mais bonitos da história do futebol inglês, Jack Wilshere pode ser considerado um dos maiores “E se ?” do futebol europeu dos últimos 10 anos.

Fonte da imagem:Facebook AFC Bournemouth