Como joga: AS Mónaco 2016-2017

Esta nova rubrica destina-se a relembrar algumas equipas que, por uma ou outra razão se destacaram no passado recente do futebol, através dos números, dos títulos e dos jogos mais sonantes, mas também da análise tática e do jogo jogado. Nesta primeira edição, recordamos o AS Mónaco da época 2016/2017, treinado por Leonardo Jardim.

O Mónaco da época de 2016-2017, liderado por Leonardo Jardim, foi uma das equipas-sensação da Europa nos anos mais recentes. Nesse ano, o Mónaco venceu a Ligue 1 ao todo-poderoso PSG e alcançou as meias-finais da Liga dos Campeões. Como jogava a equipa de Jardim, quais eram as armas-chave e o que levou ao sucesso desportivo?

Em primeiro lugar, analisemos a época da equipa. A temporada do Mónaco foi extremamente comprida. Aos 38 jogos do campeonato, juntam-se 16 jogos da Liga dos Campeões, 4 da Taça da Liga e 5 da Taça de França, perfazendo um total de 63 partidas ao longo de 9 meses. Como tal, a profundidade do plantel era necessária, e a equipa técnica e direção do Mónaco tiveram isso em conta.
Entre as contratações mais sonantes para a temporada, destacam-se Kamil Glik, central do Torino, Sidibé e Mendy, laterais direito e esquerdo, respetivamente, e o regresso dos emprestados Germain e Falcão, a dupla de avançados que começaria a época. A manutenção de jogadores estruturais como Subasic, João Moutinho e Bernardo Silva era também importante para a equipa, sem esquecer da pérola da formação, Kylian Mbappé, que se viria a revelar fulcral.

A equipa jogava num estilo atacante. A tática preferida era o 4-4-2, com um estilo sempre bastante atacante. O ataque da equipa era a sua principal arma, com 107 golos marcados em 38 partidas para o campeonato. O meio campo servia mais de apoio e equilíbrio, sobretudo com a dupla Fabinho e Bakayoko. Para jogos mais atacantes e abertos, João Moutinho era a opção, devido à sua capacidade de passe vertical e ligação entre setores.
O meio campo musculado, aliado à capacidade de Fabinho e Bakayoko de cobrirem tanto espaços interiores como exteriores, levava a que os laterais se intrometessem em tarefas atacantes, possibilitando aos extremos Lemar e Bernardo Silva explorarem zonas mais interiores.

Equipa titular do Mónaco na época 2016/2017.

Esta sobrecarga do meio descompensava as defesas adversárias, sobretudo com os movimentos na largura do jovem português, e abria espaços para as duas “estrelas da companhia”. Falcão, vindo de duas temporadas de baixo rendimento, voltou ao Mónaco em grande forma, marcando 30 golos na época, com realce para a sua capacidade posicional dentro de área. Ao seu lado começou Germain, mas depressa perdeu lugar para o jovem Kylian Mbappé. Com 19 anos, velocidade vertiginosa e capacidade de decisão incrível, o jovem francês destacou-se de imediato como uma das estrelas desta equipa, fazendo 26 golos em 44 jogos. A ligação entre Mbappé e Bernardo Silva foi também muito importante: os passes em rotura da direita para o meio, aproveitando a velocidade de Mbappé, eram uma das armas principais do jogo de transição do Mónaco.

Apesar do ataque vertiginoso e goleador da equipa francesa, é importante realçar que a defesa sólida foi também um importante fator para o sucesso do clube monegasco. A dupla de centrais, composta por Kamil Glik e Jemerson, tinha bem definidas as tarefas defensivas. Os laterais, apesar de atacantes, eram também sólidos no processo defensivo e em momentos de pressão, e a dupla de centro-campistas era exímia na contenção de contra-ataques adversários. permitindo a organização. Os números espelham isso mesmo: na liga francesa, apenas o PSG, com 27 golos sofridos, sofreu menos que os 31 do Mónaco. Os monegascos lideraram com uma larga vantagem os números atacantes: os parisienses, com 83 golos marcados, foram a segunda equipa mais eficaz do campeonato, com menos 24 que a equipa de Leonardo Jardim.

Tabela da Ligue 1 de 2016/2017, com destaque para a diferença de golos do Mónaco.

 

 

 

 

 

 

Nesta época, o Mónaco, que teve de ir à terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões, conseguiu passar no seu grupo em primeiro lugar. Seguiram-se os oitavos-de-final com o Manchester City. Depois de uma derrota em Manchester por 5-3, a equipa monegasca venceu em casa por 3-1, passando com vantagem nos golos marcados fora. No entanto, o jogo mais importante da época seria, discutivelmente, o primeiro encontro dos quartos de final da Liga dos Campeões. Frente ao Dortmund, e em pleno Signal Iduna Park, a equipa alemã dominava. No entanto, o Mónaco levou a melhor, com dois golos de Kylian Mbappé. Os golos do jovem astro levaram a equipa para a frente, numa fase em que os franceses se encontravam desgastados da carga de jogos da época e, com 3-2 na eliminatória, o Mónaco motivado venceu o Borussia Dortmund por 3-1 em casa, com mais um golo de Mbappé.

Mbappé foi o jogador-chave na eliminatória frente ao Dortmund, que cavalgou os monegascos para o que restava do campeonato.

Numa equipa tão jovem, cuja média de idades rondava os 22 anos, uma derrota em abril poderia deitar tudo a perder, ainda para mais com o PSG a apenas três pontos do primeiro lugar. A vitória por 3-2, com seis jogos do campeonato por jogar, e com um jogador tão jovem a mostrar que é possível brilhar, foi o impulso da equipa para o que restava da época, com o Mónaco a terminar a temporada com mais oito pontos que os parisienses e com uma série de 12 vitórias para a competição.

A temporada viria a terminar com a conquista da Ligue 1 por parte dos monegascos, derrubando assim a equipa milionária de Paris, que tinha vindo a dominar desde 2013 e que tem vencido o título desde então. Para a Liga dos Campeões, a turma de Leonardo Jardim acabaria por ser eliminada nas meias-finais, caindo de cabeça erguida contra a finalista Juventus.

Desta temporada, vieram vários aspetos positivos. Para além do título de campeão, o ano que se seguiu foi de grande encaixe financeiro. O clube monegasco faturou mais de 300 milhões de euros nos mercados de transferências seguintes, com destaque para as vendas de Mendy e Bernardo Silva, por 57 e 50 milhões respetivamente para o Manchester City, de Lemar para o Atlético de Madrid por 70 milhões e, sobre todas as outras, a venda de Mbappé para o PSG por 145 milhões.

Festa de Campeão do Mónaco, que conquistou o título passado 17 anos.

Ainda assim, o que mais se tira desta época para os fãs de futebol é a mensagem que passou. Num campeonato liderado por uma equipa de milhões, o Mónaco comprou menos mas bem, apostou em jogadores muito jovens, num treinador que já conhecia a estrutura do clube e num futebol atacante, atrativo e bem organizado. Com esta equipa, o futebol falou mais alto que o dinheiro, e os benefícios foram óbvios, não só para o clube, como para o desporto.

 

 

 

Fonte da imagem de capa: Página inglesa do Jornal As: https://en.as.com/en/2017/05/07/football/1494192880_713642.html

Fontes das imagens do artigo:
Onze do Mónaco: TIFO Football – https://www.youtube.com/watch?v=LPnDLpaDUWc
Tabela da Ligue 1 2016-2017: https://www.zerozero.pt/edition.php?id=97814
Kylian Mbappé e Falcão: https://www.ligue1.com/Articles/LEGENDS/2020/04/23/the-making-of-mbappe-monaco-s-2017-champions-league-run
Festa de Campeão do Mónaco: https://www.jm-madeira.pt/desporto/ver/6101/Monaco_de_Leonardo_Jardim_e_campeao_de_Franca