Curiosidades: Hakeem al-Araibi, de jovem promessa ao asilo político

Corria o dia 7 de Novembro de 2012, e a caminho de um café, o jovem Hakeem al-Araibi, cumprindo o seu 19º aniversário, foi detido pelas forças de segurança do Bahrain sob acusação de ter vandalizado uma esquadra de polícia quatro dias antes. A base da acusação teria sido uma alegada confissão do seu irmão, Emad, que disse às autoridades que Hakeem fazia parte de um grupo de protestantes que, no pico da revolta no país de maioria xiita mas controlado por uma elite sunita (e influenciada pela Primavera Árabe), ateou fogo ao edifício com cocktails molotov.

Mas há um pequeno detalhe por apontar: de acordo com Emad, o ataque ocorreu por volta das 18:30. Por volta dessa hora, Hakeem alinhava pelo Al-Shabab, num encontro a contar para a primeira divisão, e transmitido pela televisão nacional do reino, localizado num pequeno arquipélago ao largo do Golfo Pérsico. Não valeu de nada, pois o jovem defesa, considerado uma das maiores promessas do país, teve de cumprir 45 dias de prisão preventiva.

Após ser sido libertado sob fiança, o seu clube, o Al Shabab, esteve um ano sem atividade, e acabou por ser despromovido ao segundo escalão nacional. No entanto, havia uma réstia de esperança: Hakeem foi convocado à seleção principal, pouco depois do seu 20º aniversário, para disputar o Campeonato da WAFF (West Asian Football Federation), no Qatar. Era a oportunidade de ouro para o jovem fugir da alçada do regime opressor da sua pátria-mãe e procurar asilo. Após passagens pelo Irão, Malásia e Tailândia, Hakeem assentou na Austrália (mais precisamente em Melbourne), em Maio de 2014. Casando com a sua companheira de longa data, foi representando clubes semi-profissionais da zona.

Em entrevista à cadeia de televisão alemã ARD, em 2016, al-Araibi confessou que foi agredido durante três horas nas pernas enquanto esteve preso, e que lhe disseram que lhe iam partir os ossos e destruir-lhe o futuro, para que nunca mais pudesse jogar futebol. Afirmou igualmente que o sheik Salman, membro da família real do país, presidente da Confederação de Futebol da Ásia (AFC ou Asian Football Confederation) e na altura candidato à presidência da FIFA, estava envolvido na tortura massiva aos atletas antirregime, da mesma maneira que o acusou de descriminação contra a maioria xiita do Bahrain. O sheik perdeu a corrida para Gianni Infantino, mas mantém-se como vice presidente sénior do organismo regulador do futebol mundial e como presidente da AFC.

A 27 de Novembro de 2018, seis anos depois da primeira detenção e já com a vida bem encaminhada – para além de casado, começou a representar o Pascoe Vale, da segunda divisão da província de Victoria, o equivalente ao terceiro escalão australiano, clube que ainda representa -, al-Araibi e a sua esposa viajavam para a Tailândia para celebrar a lua-de-mel. Após aterrar, foi imediatamente detido. Aquando da sua demanda em fuga do Bahrain, Hakeem foi julgado in absentia, e condenado a 10 anos de prisão. A 8 de Novembro, o estado do seu país natal emitiu um red notice à Interpol, que consiste na detenção e consequente extradição de criminosos.  O red notice foi, porém, rescindido pela polícia internacional a 30 de Novembro, após consulta com o estado australiano, visto que ia de encontro às regras acerca de refugiados e asilados, que era o caso de Hakeem.

Apesar disto, e de ver a sua situação catapultada para a esfera mundial – a hashtag #SaveHakeem tornou-se viral no Twitter, e múltiplos clubes australianos e tailandeses tal como figuras do futebol mundial, como Jamie Vardy e Didier Drogba, iam demonstrando o seu apoio -, Hakeem continuou detido até Fevereiro de 2019. No dia 4, julgado num tribunal de Banguecoque com os seus pés acorrentados, à frente das câmaras de órgãos noticiosos do mundo inteiro, o futebolista implorou para que não fosse extraditado para o Bahrain. Por seu lado, a acusação tailandesa salientou a suposta legitimidade do caso apresentado pelo seu país de origem, algo que manifestava a carga política do caso de al-Araibi (e as relações diplomáticas entre Bahrain e Tailândia) e deu-lhe 60 dias para apresentar uma defesa que travasse a sua extradição. Teria de permanecer em prisão preventiva até à sua nova audiência, a 22 de Abril, após ter lhe sido negada fiança.

No entanto, a 11 de Fevereiro, as acusações foram retiradas, sob forte pressão internacional, e Hakeem, já com 25 anos, foi libertado. No dia seguinte, foi recebido em apoteose no aeroporto de Melbourne, a sua casa. A 12 de Março de 2019, Hakeem al-Araibi tornou-se cidadão australiano. Esta é a história de um futebolista promissor transformado em preso político.