Como Joga: Borussia Mönchengladbach 19/20

Esta semana na rubrica “Como Joga”, analisamos o percurso do Borussia Mönchengladbach na época passada, juntamente com o seu desempenho e as táticas que conseguiram retornar um histórico grande da Alemanha à competição topo do futebol Europeu.

Quero começar este artigo a afirmar que o estado atual do Borussia Mönchengladbach é, como tudo na vida, complicado. A verdade é que pode parecer um pouco estranho estar a escrever sobre uma equipa que, atualmente, se encontra na 9ª posição da liga, encontra-se com uma desvantagem de 2 golos fora na Liga dos Campeões e acaba de ser eliminada pelo Borussia Dortmund na Taça. 

No entanto, acho injusto que o excelente trabalho realizado pelo clube da Prússia ao longo do último ano e meio seja desvalorizado por causa de uma série de maus resultados – muito devido ao facto do treinador Marco Rose ter anunciado que sairá na próxima época, para treinar o também aflito Borussia Dortmund. Como seria de imaginar, o anúncio tão repentino – especialmente tendo em conta que o Mönchengladbach ainda se encontrava em duas competições – causou um mau estar na base adepta do clube, na direção e sobretudo no balneário, com rumores de confrontos entre Rose e os capitães Matthias Ginter e Christoph Kramer. 

Em 2019, depois da chegada antecipada de Rose, proveniente do Red Bull Salzburg, as esperanças estavam altas – Rose era um treinador que já vinha bem cotado, chegando a levar o Salzburgo às semifinais da Liga Europa em 2018, onde perderam com os eventuais vice-campeões Marselha. Para além disso, o treinador era conhecido por apostar num estilo agressivo, de pressão alta, contra-ataques rápidos e um grande ênfase no constante movimento da bola e dos jogadores, de forma a tornar a equipa difícil de conter.

O entusiasmo apenas continuou a subir depois da chegada dos laterais Stefan Lainer – que se tinha tornado numa presença habitual da equipa do Salzburgo sob o comando de Rose – e Ramy Bensebaini, proveniente do Stade Rennes. Ofensivamente, Breel Embolo foi “resgatado” do Schalke 04 por 11M e Marcus Thuram – filho do lendário lateral da seleção Francesa – foi contratado por apenas 9M, depois da descida de divisão do Guingamp. 

Apesar de ideias de jogo bem definidas e raramente alteradas, em termos de táticas, Marco Rose foi se adaptando às necessidades da equipa. Nos primeiros jogos alternou um 4-3-1-2 (a sua tática de escolha no Salzburgo) com um 4-2-2-2, semelhante ao utilizado por Julian Nagelsmann no RB Leipzig. Em ambos os casos a ideia é óbvia – permitir a subida dos laterais para se juntarem ao ataque, acrescentando uma maior dinâmica e uma maior largura, aproveitando todos os detalhes ofensivos de jogadores como Lainer, Bensebaini e o experiente Oscar Wendt – enquanto os médios mais recuados ajudam a circular a posse no meio campo, ao mesmo tempo que protegiam a equipa nas transições defensivas – impedindo contra-ataques adversários. Por vezes era também utilizado um 4-3-3 – fazendo uso da capacidade de progressão e passe de jogadores como Florian Neuhaus, Jonas Hofmann, Denis Zakaria e László Bénes.

Apesar de uma campanha Europeia desapontante (uma derrota caseira pesada por 0-4 contra o Wolfsberger sendo o “highlight” de uma série que viu o Gladbach acabar em 3º num grupo relativamente acessível – eliminados aos 90 pelo Basaksehir), o Borussia chegou a metade da época doméstica na segunda posição – e com alguns resultados impressionantes. Acima de tudo, o Gladbach mostrou que pela primeira vez conseguiria lutar com os maiores da liga. Destaques da primeira metade são, entre outros:

Uma vitória caseira por 2-1 contra o Bayern, cortesia de um bis do lateral Ramy Bensebaini, que concretizou um pênalti perfeito aos 94 minutos para dar a vitória ao conjunto Prussiano (com um destaque extra para a famosa defesa de Sommer na linha, na qual segura a bola com um dedo);

Vitória por 1-2 contra o Bayer Leverkusen na BayArena, pontuada por um golo e uma excelente assistência de Marcus Thuram, onde “sentou” o lateral Wendell com uma finta de corpo (para um golo de Oscar Wendt, que apesar de ser lateral esquerdo apareceu no segundo poste, quase como um extremo – demonstrando a importância ofensiva dos laterais no sistema de Marco Rose);

Um 4-2 caseiro contra a equipa surpresa da época, o SC Friburgo, que acabou a primeira metade da época em 4º lugar, cortesia de 2 golos e de 1 assistência do Ponta de Lança Suisso Breel Embolo. 

Bensebaini e os colegas celebram uma vitória histórica contra o Bayern

Na segunda metade da época, com um maior conhecimento da equipa e para compensar a perda de jogadores importantes como Thuram, Zakaria e Plea para lesão, Marco Rose adaptou-se à equipa e alterou a tática para um 4-2-3-1 – normalmente com Kramer e Neuhaus como os médios defensivos seguros mas com uma capacidade de passe acima da média, enquanto Jonas Hofmann atuava como falso extremo, permitindo a subida de Bensebaini no ataque. Por sua vez, Embolo e o retornado Lars Stindl tornaram-se uma força potente, trocando de posição repetidamente e criando uma imprevisibilidade nos ataques do clube Alemão.

O 4-2-3-1 utilizado pelo Borussia Mönchengladbach durante a segunda metade da época

Depois de uma derrota renhida por 2-1 contra o Bayern, apenas a 3 jogos do fim da época, o Gladbach desceu para fora do top 4 – pela primeira vez desde a sétima jornada. No entanto, o conjunto de Rose não desistiu e, em vez de ficar desmoralizado, seguiu numa série de 3 vitórias. 

Primeiro, uma vitória caseira por 3-0 contra o 6º classificado VfL Wolfsburg. Apesar das lesões no 11 inicial, especialmente no ataque, o Gladbach demonstrou-se imparável na transição ofensiva – muito por causa da inteligência de movimentos de Jonas Hofmann, que se tornou uma peça chave da equipa com a capacidade de aparecer no sítio certo à hora certa a todas as alturas, enganando a defesa do Wolfsburgo pelo caminho. 

De seguida, um 1-3 em casa do Paderborn, coroado por um bis do capitão Lars Stindl. Esta jornada foi importante porque representou um momento crucial na época – tão perto do fim e com apenas um ponto a separar as duas equipas, o Bayer Leverkusen escorregou – com uma derrota contra o Hertha Berlin a permitir que a equipa de Marco Rose voltasse a subir para o top 4.

Por fim, contra o Hertha, Embolo e Hofmann trocaram golos e assistências entre si para segurarem o 4º lugar – e o acesso direto à Liga dos Campeões, com uma vitória a 2-1 sobre a equipa da capital. 

Depois de uma época de relativo domínio – quase sempre no topo da liga, por algumas semanas a ocupar o primeiro lugar – o Gladbach conseguiu atingir o seu objetivo, a primeira passagem à Liga dos Campeões desde a época 16/17.

Rose e Herrmann celebram o 4º lugar do Borussia Mönchengladbach

Análise Tática

Sendo um treinador muito influenciado pela nova escola Alemã e por Jürgen Klopp (pelo qual foi treinado durante 6 épocas no Mainz), é normal que Rose seja um treinador que goste de atacar rápido, em transição e no contra-ataque. 

Quando na defesa, a equipa é conhecida por manter uma forma compacta no meio campo, de forma a tentar impedir a posse de bola pelo centro do campo. Para além disso, se algo correr mal na construção de jogo da equipa adversária, vários jogadores estarão em posição para recuperarem a bola e seguirem no contra-ataque. 

Ofensivamente, os movimentos em transição são ajudados pela versatilidade dos 3 avançados habituais – Plea, Embolo e Thuram (mesmo Herrmann e Hofmann) são todos excelentes jogadores no um para um, para além de serem capazes de se movimentar de forma inteligente – aproveitando os espaços nas alas para segurarem a bola e arrastarem defesas fora de posição, enquanto outros membros da equipa se dirigem para a entrada da área, onde se encontram em posições vantajosas para o ataque.

Normalmente, depois da bola ser colocada nos espaços laterais, é costume os jogadores aproveitarem o maior espaço possível (de forma a conseguir esticar a defesa adversária) e cruzarem a bola para trás (ou para o meio), onde se encontram colegas livres para a finalização fácil.

Como exemplo, os dois primeiros golos de uma vitória caseira por 5-1 contra o Augsburgo. 

No primeiro, Marcus Thuram corre com a bola pela ala esquerda, batendo o defesa do Augsburgo no 1v1. Depois de chegar à linha, cruza para trás, onde Denis Zakaria – que acompanhou a corrida desde o início do contra-ataque – aparece livre no espaço interior, sem qualquer tipo de marcação, tendo a defesa sido atraída para a zona lateral pelo movimento de Thuram.

No segundo, Ramy Bensebaini solta-se da pressão (fraca) do meio campo do Augsburgo ao meter uma bola longa nas costas da defesa, para o espaço na ala esquerda. Thuram chega à bola primeiro que o defesa, temporiza e passa para dentro, onde aparece Patrick Herrmann no espaço livre para finalizar. 

Outra forma que a equipa de Rose utiliza para apanhar as equipas adversárias de surpresa é o uso de diagonais e o aproveitamento dos espaços – muitas vezes membros do ataque recuam para receber a bola e atraem o defesa na marcação, o que abre um espaço para um dos médios/laterais avançar na área vazia. Normalmente seguido de uma bola na profundidade para o espaço livre, este movimento é crucial para permitir que o Borussia Monchengladbach consiga desmontar o bloco defensivo adversário, seguindo um estilo de jogo mais direto e com grandes números na transição.

Para além disso, é importante destacar o quão cruciais as variações de flanco são quando o Gladbach está em posse e é incapaz de seguir em transições – misturadas com as capacidades ofensivas dos laterais e a excelente qualidade de passe (longo e curto), dos médios é fácil ver como as bolas longas nas alas podem causar um problema para as defesas adversárias.

Tomamos como exemplo o golo de Ramy Bensebaini contra o Borussia Dortmund. Bensebaini (que começa o lance no meio campo) abre na ala em Jonas Hofmann. O médio corta para dentro e atrai a marcação de Mateu Morey e, crucialmente, Julian Brandt (que era suposto estar a cobrir o espaço que Morey deixou livre). Neuhaus recebe a bola de Hofmann e, de primeira, consegue um passe picado por cima da defesa amarelada, para o espaço na ala, onde Bensebaini se encontra completamente livre. Depois, Bensebaini domina a bola, temporiza o lance e após uma excelente finta que tira Brandt do caminho, remata com o pé direito, em arco, para o canto inferior direito – sem chance para Roman Bürki.

Defensivamente, a abordagem principal baseia-se na congestão do meio campo adversário, muitas vezes com vários jogadores a ocuparem as áreas atrás da linha de médios da equipa adversária, de forma a obrigar os adversários a procurarem o ataque pelas áreas laterais. Quando a bola chega às áreas laterais, é normalmente o trabalho do lateral do Borussia e de um dos médios/extremos procurar marcar o adversário numa situação de 2v1, de forma a tentar recuperar a bola o mais rápido possível. 

Claro, um sistema de pressão tão alto e tão agressivo – especialmente um que depende tanto da pressão dos alas pode tornar-se um problema – se por qualquer razão o lateral falha o lance, pode causar uma descompensação na defesa do Gladbach. É uma estratégia de alto risco e alta recompensa – se a pressão funciona bem, a bola é recuperada muito mais perto da área adversária, com uma linha defensiva ainda por organizar, o que permite que o Gladbach ataque na transição – a sua especialidade. 

No entanto, se falha, a parceria de Ginter e Elvedi acaba sozinha a defender ataques adversários – muitas vezes em situações de desvantagem (3v2, 4v2, até 5v2 em casos mais extremos). Ambos os centrais são agressivos na marcação e capazes de excelentes desarmes – o que significa que em situações de 1 para 1, conseguem safar-se relativamente bem. No entanto, quando descompensados, não têm a velocidade necessária para conseguir defender bolas nas costas e muitas vezes obrigam Yann Sommer a sair dos postes ou a cobrir a baliza de forma a evitar o golo adversário.

Estas ocasionais falhas defensivas são graves o suficiente para causar que o Borussia Monchengladbach sofra a ocasional derrota contra uma equipa de nível mais fraco – como foi o caso com a derrota por 2-0 contra o Schalke, a última vitória da época para o conjunto de Gelsenkirchen. 

No primeiro golo sofrido, após uma recuperação de bola no meio campo do Schalke, esta é metida longa para a ala. Devido ao facto dos laterais estarem tão subidos, Zakaria é obrigado a acompanhar Gregoritsch até à zona lateral do campo – o que permite que Suat Serdar apareça completamente livre no meio campo, sem qualquer tipo de marcação, com mais do que tempo para preparar o remate para o canto inferior esquerdo. Como os laterais subiram e não conseguiram recuar a tempo, Zakaria (o médio mais defensivo) foi obrigado a compensar a sua falha, abrindo um espaço no meio pelo qual o Schalke atacou sem qualquer consequência.

No segundo golo os erros na transição defensiva são ainda mais visíveis. Plea recupera uma bola perdida no meio campo e passa a Embolo, cuja tentativa de passe de rotura é interceptada. De forma a tentar voltar a ganhar a bola na metade adversária, Hofmann avançou agressivamente sobre Schöpf. No entanto, o austriaco consegue segurar a bola e depois de rodar sobre si, o contra-ataque é lançado. De novo o Gladbach encontra-se numa situação de desvantagem, um 3v2 – que rapidamente se torna num 3v1 quando Ginter sobe a linha de forma a tentar cortar o passe de Serdar. Mas a abordagem é deficiente e deixa Zakaria a tentar cobrir o espaço aberto por Ginter. O médio defensivo Suisso não é rápido o suficiente e Raman consegue o simples passe para Gregoritsch, que finaliza eficientemente o um para um com Sommer. 

Para além do óbvio erro de abordagem de Hofmann, cuja tentativa de pressão foi facilmente evitada por Schöpf com uma simples finta de corpo, é importante ter em conta que mais uma vez Serdar estava completamente livre  – Hofmann avançou da zona do meio campo onde era suposto cobrir Serdar, enquanto que Zakaria ficou atrás a tentar cobrir uma saída de posição de Jantschke – que tentou impedir o passe de Caligiuri mas não conseguiu. Estas duas falhas significaram que o Schalke ficou numa situação de 3v2, que se acentuou ainda mais depois da decisão de Ginter de tentar avançar. 

De salientar que esta foi a última vitória para a Bundesliga do Schalke em quase um ano – e como este resultados existiram vários, contra equipas supostamente mais fracas, mas que conseguiram roubar pontos ao Borussia – muitas vezes por causa das fragilidades defensivas do conjunto de Marco Rose. Exemplos como as derrotas fora contra o Union Berlin por 2-0, contra o Friburgo por 1-0 e contra o Wolfsburg por 2-1. 

Estas derrotas (tal como as desapontantes campanhas Europeias e na taça, onde o Gladbach foi eliminado por 1-2 pelo Borussia Dortmund, num jogo em que foi a equipa superior durante grande partes da partida e surpreendentemente pecou mais por erros ofensivos do que defensivos) acabaram por manchar o que no geral foi uma época extraordinária para o Borussia Monchengladbach. Chegaram a liderar o campeonato durante 7 jogos, conseguiram vitórias contra Leverkusen, Bayern e empataram contra o Leipzig, mostrando que eram capazes de voltar a lutar com os “grandes” do futebol Alemão – como fizeram no passado. 

E mesmo quando o seu lugar na Liga dos Campeões foi ameaçado e escorregaram do top 4, não desistiram e através de um excelente show de futebol ofensivo e excitante, conseguiram um lugar que tendo em conta a totalidade da época, foi mais do que merecido. Um lugar que não desperdiçaram, diga-se – na época seguinte foram colocados num grupo com Real Madrid, Inter e Shakhtar Donetsk. E mostraram-se à altura da competição de novo, segurando empates contra o Inter e o Real Madrid, misturados com vitórias por 6-0 e 4-0 respetivamente contra o Shakhtar – o suficiente para passarem em segundo lugar no grupo, com 8 pontos. 

Atualmente encontram-se com o balneário agitado e com um défice de 2 golos (fora) contra o Manchester City na Liga dos Campeões. Mas se algo ficou claro até agora é que o Borussia Mönchengladbach de Marco Rose, no seu dia, é uma das melhores e mais atraentes forças ofensivas que o futebol Europeu tem para oferecer. E mesmo que a viagem Europeia chegue a mais um fim prematuro, com certeza que será excitante.

Embolo celebra o golo que segurou o 4º lugar para o Borussia

Fontes das Imagens: Borussia Mönchengladbach, Getty Images, DW Sports e Hertha BSC.

Nuno Tavares

No dia 15 de Março de 2012 tive o prazer de ver o Sporting a eliminar o Manchester City e pensei "isto do futebol é giro, gosto". A partir daí nunca mais consegui parar. Sportinguista (e Borusse) de nascença. Fã de Futebol Alemão e Espanhol. Licenciatura em Ciências da Comunicação no ISMAI.