Juventus v Porto: 11v10 foi suficiente contra a caquética senhora

O Porto partia com a moral em alta para a segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões, frente a uma Juventus amostra do clube que tem sido durante os últimos dez anos, quanto mais durante toda a sua história. Os Dragões têm tido umas semanas difíceis (o empate amargo frente ao Sporting e o colapso frente ao Braga, para a Taça), mas a primeira mão em casa trouxe cor a uma época que, longe de má, tem tido um tom um tanto sépia. A equipa visitada vem de uma época ainda mais desapontante, estando a dez pontos do líder Inter e a quatro do segundo, o Mlian. No entanto, a vitória no fim de semana frente à Lazio podia ter trazido alguma energia para este duelo.

Se a equipa do Porto entrou cínica (no bom sentido), como sempre entra, a Juventus entrou, depois da hecatombe no Dragão, pronta a redimir-se. O tremendo cabeceamento de Álvaro Morata, após grande cruzamento de Cuadrado, obrigou Marchesín a defesa de elite, e foi um indicador daquilo que se podia esperar ser um jogo bem disputado. Efetivamente, a primeira parte foi bem disputada, mas ao jeito da primeira mão, a bola chorou muito. A Juve, incessantemente, procurava circular a bola lateralmente e sem grande ímpeto, e mal houvesse uma situação favorável, bombeava a bola através ou dos seus alas ou de um dos médios, procurando a chegada de Cristiano ou de Morata. O Porto, aproveitando a falta de invenção e os lapsos defensivos da vecchia signora, foi “cheirando” a baliza de Szczesny, explorando as alas, como costume: Zaidu bateu Cuadrado num duelo mano a mano na ala e encontrou Taremi, ao minuto 6, mas a bola embateu em Bonucci, em jeito de segundo guarda-redes. A bola ainda sobrou para o iraniano de novo, que cabeceou à barra.

A equipa de Pirlo pouco construía, tirando uma ou outra tentativa de rutura de Arthur, e para que não bastasse, o meio-campo era muitas vezes apanhado em contra-pé: após mais um mau momento de posse dos italianos, o Porto seguiu para o contra-ataque, trocando confortavelmente a bola de flanco, até chegar a Marega, no lado direito e já na área, ao minuto 16, que faz um passe para a área de pénalti (de ângulo cego), onde se encontrava Taremi, pronto a finalizar. O iraniano é derrubado por Demiral, e um penálti é assinalado. Cristiano Ronaldo, conhecedor das tendências de Sérgio Oliveira, procurou aconselhar Szczesny, que não pareceu muito recetivo. O capitão do Porto inaugura, desse modo, o marcador.

O resto da primeira parte foi pouco diferente: a Juve geria letargicamente a posse de bola para depois despejar na área do Porto, e estes, por seu lado, procuravam sair incisivamente rumo ao contra-ataque, aproveitando a displicência defensiva do meio-campo italiano. A maior oportunidade da Juve surgiu ao minuto 26, quando Cuadrado encontra Morata, que perante uma péssima abordagem de Manafá, fica apenas com Marchesín pela frente. O espanhol atira em cheio no peito do guardião argentino, que efetua uma mancha exemplar e desvia para canto. Depois disso, o jogo foi um borrão, dominado por faltas, perdas de tempo, e um choque entre Morata e Pepe ao minuto 32, que obrigou a paragem para assistir o central.

A abrir a segunda parte, Arthur, a arma mais consistente da Juve rumo à criação de algo que fizesse lembrar uma jogada de futebol, encontra Cristiano na área, com um passe tenso magistral, e o “pai” dá de frente para Chiesa, que finaliza sem problemas, ao minuto 48. O lance ainda foi analisado no VAR, por presumível fora de jogo do capitão da seleção, mas foi validado. Já com o momentum do lado da Juve, que pressionava mais forte, o jogo ficou mais complicado quando Taremi, em dois minutos, vê dois amarelos: o primeiro vê por uma falta fora de tempo a Chiesa, o segundo vê por pontapear a bola para longe após apito de Björn Kuipers. Ao minuto 56, a Juve podia ter se catapultado rumo a uma reviravolta, mas Chiesa, solto por um excelente passe tenso de Rabiot, e perante uma abordagem inaceitável de Marchesín, é incapaz de finalizar com a baliza escancarada.

Perante a torrente da Juventus, Sérgio Conceição procurou estancar a ferida, colocando Sarr por Otávio. Não valeu de muito, pois o “bombo” de Turim resultou: à passagem do minuto 63, Cuadrado encontra Chiesa, que após o cruzamento teleguiado, desfere um bom cabeceamento e bisa, empatando a eliminatória. O jogo acalmou, voltando à norma da primeira parte. Cristiano Ronaldo andava um pouco desaparecido do jogo, tal como na primeira mão, contrariando a narrativa de heroísmo a si adjacente em eliminatórias de Champions. Mas ao minuto 78, Cuadrado encontrou-o na área. Em situação favorável, preferiu tentar encontrar Morata, que se aproximava, mas a bola saiu para fora, e uma boa oportunidade caiu por terra.

A Juventus continuava a massacrar, e ao minuto 82, Morata é lançado em velocidade na ala esquerda, e após ultrapassar Corona no drible, remata contra Marchesín, quando tinha tempo para desviar a bola. A inefácia da equipa da casa era um mau presságio, e Marega, libertado pelo excelente trabalho de Luis Diaz, que entrou 10 minutos antes para o lugar de Zaidu, afasta na força Demiral e remata às malhas com algum perigo. Morata lá marcou ainda, mas em posição irregular, e o golo foi invalidado. Já nos descontos, Cuadrado ultrapassa o compatriota Luis Díaz na ala, e desfere um grande remate com o seu pé mais fraco, o esquerdo, à barra. Seguia-se então o prolongamento.

Se os argumentos de ambas as equipas já eram prevísiveis com frescura física, o prolongamento trouxe mais da mesma monotonia dos 90 e alguns minutos do tempo regulamentar. A Juve procurava encontrar os seus avançados de serviço, balanceando-se mais no ataque, e o Porto, condicionado pela inferioridade numérica, procurava a todo o custo abrandar o jogo dos italianos e sair em contra-ataque. O Porto podia ter selado a eliminatória ao minuto 99, na sequência de um canto: Sérgio Oliveira bate curto para Corona, que rodopia sobre Arthur e cruza para o limite da pequena área, onde se encontrava Marega, que não foi capaz de finalizar apropriadamente. Ao minuto 102, Marchesín derruba Cristiano Ronaldo na área, num lance em que a equipa da casa reclama um pénalti sobre o astro luso, que fica a queixar-se de um ombro.

Para a segunda parte do prolongamento, Conceição refrescou o ataque e tirou Marega, para colocar Toni Martinez. A Juve foi quem abriu as hostilidades, com uma boa investida de Kulusevski, libertado no meio espaço por Alex Sandro e depois de ultrapassar Manafá: o avançado sueco acaba por rematar contra Mbemba, ressaltando a bola no homem da Juventus antes de sair. O Porto respondeu por Grujic, que investe pela área da Juve após passe atrasado, mas remata sem grande perigo. Pouco depois, Kulusevski cruza atrasado para Morata, que remata fraco à figura.

Eis que Sérgio Oliveira surge na partida: após fabuloso túnel a McKennie, é derrubado: na sequência do livre, em posição frontal, remata rasteiro, faz outro túnel, agora a Cristiano Ronaldo, e bate Szczesny, que é muito mal batido. O jogo toma contornos de fábula quando, na jogada seguinte, após canto de Bernardeschi (o segundo da sequência), Rabiot eleva-se e bate Marchesín com um cabeceamento exemplar, reatando a luta pela eliminatória. Conceição lança, então, Diogo Leite e Loum para estancar ainda mais a partida, naquele momento favorável ao Porto pela regra dos golos fora, apesar do 3-2 favorável à Juve. Os sacrificados foram Corona e Sérgio Oliveira. Aquilo que se seguiu foi puro frenesim, com a Juventus a tentar marcar a todo o custo, e o Porto a tentar defender a todo o custo. Diogo Leite efetua um corte providencial a De Ligt, e apesar dos gritos por pénalti, o lance foi limpo. Rabiot, com muito espaço, ao minuto 122, rematou rumo a Portugal. Já em cima do apito final, na sequência de uma falta de Toni Martinez, Cuadrado bate o livre, Alex Sandro desvia, e Marchesín impede Demiral de desviar, no último suspiro de uma partida que seguramente drenou as emoções de todos os espetadores, tanto os da Juve pelo desgosto e os do Porto pela euforia, como os neutros pelo suplício em relação ao paupérrimo futebol praticado. O Porto assegura então um desfecho histórico, apesar de os dois jogos a mais serem um entrave à luta pelo título, que se avizinha difícil, especialmente com o Braga à perna. A Juventus terá, por seu lado, mais energia na luta pelo título da Serie A, que também se avizinha difícil. Cristiano Ronaldo tem uma época para esquecer a nível coletivo: Fabio Paratici, o diretor desportivo da turma de Turim, deixa o seu futuro em aberto, e há quem diga que Alvalade já o espera.

Fonte da imagem: Massimo Pinca/Reuters