Opinião: O que é que estão a fazer ao Futebol Europeu?

Nas últimas semanas têm surgido vários rumores, e agora garantias, de que o futebol europeu pode vir a mudar a partir de 2024. O presidente da ECA (Associação de Clubes Europeus), Andrea Agnelli (que é também o presidente da Juventus), garantiu que nas próximas semanas irá ser aprovado o “seu modelo ideal” para a Champions League, com base no “Modelo Suíço”.

Com este modelo, a fase de grupos da Liga dos Campeões deixava de existir, passando a ser usado um formato de “liga” em que os 36 (sim, a competição iria começar a ter 36 clubes em vez dos habituais 32) clubes fariam 10 jogos contra 10 das equipas da competição (de forma aleatória) entre Setembro e Janeiro. Os jogos seriam jogados à terça e à quarta-feira (tal como é atualmente), com a exceção de que quatro quintas-feiras teriam também jogos da liga milionária. Após esta fase da competição, os clubes que ocupassem os oito primeiros lugares da tabela classificativa passavam automaticamente para os oitavos de final, enquanto que os clubes que se encontrassem entre o 9º e o 24º lugar da tabela classificativa disputariam uma espécie de Play-Off para completar as restantes oito vagas dos oitavos de final. A partir daí a competição funcionaria como o normal.

Esta alteração à competição traria alterações na forma como os clubes podem garantir o acesso à Liga dos Campeões: As maiores ligas teriam cinco ou seis vagas na competição, com os vencedores da Liga dos Campeões e da Liga Europa da época anterior a garantir também o seu lugar. Quanto às restantes quatro vagas, estas seriam asseguradas pelos dois clubes com maior coeficiente UEFA (que ainda não tivessem garantido a sua participação) e com os dois lugares restantes a serem preenchidos por um clube extra da liga em 5º lugar do ranking UEFA e por um clube da próxima liga do ranking que não ainda não tenha representante. Assim, acabavam-se com os acessos via play-off, acabando por ser sempre as equipas dos mesmos países a participar. Este formato permite, de acordo com Agnelli, “aumentar o número de jogos entre equipas mais fortes e diminuir o número de jogos entre as maiores equipas e as equipas menos interessantes”, garantindo desta forma, maiores receitas financeiras, dando um sentido ainda mais literal ao nome “Liga Milionária”.

Para além das alterações à Liga dos Campeões, Agnelli pretende também trazer alterações às transmissões televisivas e ao mercado de transferências.

A ideia que surge é a de que, a partir de 2024, os clubes que estejam na Liga dos Campeões não possam negociar jogadores com outros clubes de Liga dos Campeões, sendo que os jogadores só podem movimentar-se entre clubes de Liga dos Campeões enquanto jogadores livres, ou seja, no final do seu contrato. Desta forma, os clubes de Liga dos Campeões só poderiam contratar jogadores a clubes “inferiores” ou de campeonatos “inferiores”, deixando os “mais fortes” ainda mais fortes e deixando os “mais fracos” ainda mais fracos.

No que toca às transmissões televisivas, Andrea Agnelli quer desenvolver um “pacote” em que as transmissões ficam apenas disponíveis nos últimos 15 minutos de cada partida. Isto porque, na sua opinião, o nível de atenção dos jovens de hoje e dos futuros consumidores não é tão alto como era “na sua altura”, acabando por dar o exemplo de como um indivíduo hoje em dia não vê mais que os últimos seis buracos do Golfe. Agora, eu não quero desvalorizar o Golfe enquanto desporto mas, não é propriamente o desporto mais “action-packed” que faça alguém que não seja um adepto fervoroso da modalidade ficar colado à frente da televisão para ver o que vai acontecer.

Portanto, após análise daquilo que é proposto e que, provavelmente, será o futuro do futebol europeu, é fácil perceber que os ditos clubes grandes apenas se movem pelo dinheiro e não por aquilo que irá beneficiar o futebol no geral. Os clubes que sonham um dia atingir a Liga dos Campeões irão ter cada vez mais dificuldades para o fazer por causa da “ganância” dos clubes mais ricos que apenas almejam ficar cada vez mais ricos. É triste ver que o futebol hoje muda por desejos dos dirigentes “desportivos” e não por aquilo que realmente faz do futebol um desporto fascinante: os adeptos. E é difícil garantir que um eventual boicote seja possível, tal é o amor que os adeptos têm ao desporto. Esperemos que na reunião que irá ocorrer em março haja alguém que se oponha a estas alterações e consiga evitar mudanças desnecessárias.

 

Imagem: Twitter @btsportfootball