Como Joga: Inter de Milão 2009-2010

Na rúbrica “Como Joga” desta semana analisamos aquela que é considerada por muitos a melhor equipa que Mourinho treinou e talvez, uma das melhores que o povo italiano viu jogar.

Football Club Internazionale Milano, um dos grandes históricos italianos, tem andado pelas ruas da amargura nos últimos anos. Com apenas 4 qualificações desde a saída do “Special One”, até à época passada onde voltou a lutar pelo título e agora encontra-se a favorita a conquistar o Scudetto.

O trabalho realizado após a saída de José Mourinho em nada se compara aquele que o português realizou em Itália. O “Special One” chega a Milão com 12 títulos, entre os quais uma Champions League e uma Liga Europa. Com apenas 45 anos e um currículo destes, só uma catástrofe poderia abrandar o português e não foi isso que aconteceu. Mas talvez não foi tudo graças a Mourinho.

Cambiasso, Zanetti e Eto’o. Todos reconhecemos estes nomes. E foi graças a esta época que assim o é. Tudo começou na janela de transferências do verão de 2009, onde o Inter fez uma revolução na sua frente de ataque. A saída de Crespo, a reforma de Figo e a capitalização no valor crescente de Ibrahimóvic levaram à entrada de Samuel Eto’o e de Diego Milito. Com o dinheiro da troca do sueco, os Nerazzuri compraram ainda Lúcio e Thiago Motta, que foram também fundamentais nas conquistas dos milaneses.

Rapidamente se percebeu que a equipa de Mourinho não estava para brincadeiras. Com 12 golos marcados nos 5 primeiros jogos para a liga, o Inter disparou com 13 pontos na corrida pelo título, com uma vitória por 4-0 contra os colegas de casa AC Milan (exibição soberba de Diego Milito com um golo e duas assistências) e uma razia à Nápoles por 3-1 em casa. Mas apesar deste começo brilhante, nem tudo era um mar de rosas.

Os três empates seguidos para começar a fase de grupos da Champions, combinado com a derrota frente à Sampdoria demonstraram que ia ser preciso mais do que uma boa fase para o Inter dominar todas as competições. Ao acabar a fase de grupos com apenas duas vitórias, Mourinho percebeu que não poderia jogar na Europa como jogava na Série A, abandonando assim o seu 4-4-2 losango e mudando para um 4-2-3-1 mais defensivo para o resto da competição.

E com essa mudança, veio a tranquilidade. O conjunto de Mourinho só voltou a ver a bola na sua baliza por duas ocasiões até ao fim da competição. O futebol não era tão bom como em Itália, uma vez que tinha menos 1 golo p/jogo quando comparando a Champions e a Série A, e apenas 44% de posse de bola. Ainda assim, os resultados continuavam a aparecer.

Uma vitória por 3-1 no agregado frente à sua antiga equipa mostrou que Mourinho levava o sonho europeu dos fãs muito a sério e foi Samuel Eto’o que se mostrou decisivo, com um golo e uma assistência na eliminatória.

Mas não era só na Europa que os Nerazzuri iam cumprindo. Com apenas duas derrotas em 22 jogos, entre o desaire frente à Sampdoria e a eliminação do Chelsea, o conjunto de Mourinho não largava o primeiro lugar, mesmo que os resultados não fossem os mais bonitos.

Sete vitórias pela margem mínima e outros tantos empates mostraram que não era um passeio na Liga Italiana, mas vitórias por 2-0 frente ao Milan, 5-3 frente a Palermo e 5-0 frente à Génova mostravam que num bom dia o Inter era a melhor equipa da Europa. E se fosse um dia menos bom, cumpriam na mesma.

De notar que grande parte destas vitórias se devia à dupla da frente do Inter: Diego Milito e Samuel Eto’o. A dupla marcou 46 golos entre si em todas as competições, e funcionavam em perfeição com Sneijder atrás deles. Eto’o apresentava-se mais disponível no apoio ao meio campo e a jogar nas costas, enquanto o argentino era o matador de serviço.

E foi essa dupla que com 8 contribuições para golo nos últimos 5 jogos do campeonato, onde os Nerazzuri marcaram 12 golos e sofreram apenas 4, selou o título italiano, dando assim o 18º Scudetti ao conjunto de Mourinho.

Mas o trabalho não estava acabado. E quem diria, se não foram os suspeitos do costume a dar show no Santiago Bernábeu. 22 de Maio de 2010. Se perguntar a qualquer adepto do Inter que se preze, eles sabem onde estavam nessa noite, quando Diego Milito bizou assistido por Samuel Eto’o e Wesley Sneijder, quebrando assim uma seca de 45 anos, e dando ao Internazionale o primeiro “treble” a um clube italiano, ao ganhar a UEFA Champions League, o Scudetto e a Coppa Italia.

Diego Milito a celebrar em Madrid

Mas de facto, Como Jogava este Inter de Mourinho?

Apesar de muitos pensarem que esta fora uma equipa estritamente defensiva, o ataque dos Nerazzuri era mortífero e a construção de jogo soberba. Ficando em segundo lugar na liga em Posse de bola, Remate p/jogo e foi a equipa com mais golos marcados, com 75 em apenas 38 jogos.

Como já disse anteriormente, na Champions a história era outra. Apenas 44% de posse de bola e uma queda de 25% em remates por jogo comparado com as estatísticas domésticas. Assim, encontrávamos duas equipas diferentes, dependendo da competição.

Abordando primeiro o 11 doméstico, encontramos uma equipa de classe mundial, independentemente da posição que se olhe. Lúcio e Samuel não eram os melhores defesas do mundo no que toca à saída de bola, mas não era isso que lhes era pedido. Tinham sempre disponíveis pelo menos 2 linhas de passe, fosse na lateral, para os defesas que jogavam a seu lado, ou para Cambiasso, que aparecia sempre disponível para ir buscar jogo.

Se as equipas se concentrassem em Cambiasso, era Thiago Motta que oferecia uma linha de passe e quando o italiano descia era Stankovic que oferecia profundidade, sendo o box to box da equipa. E quando o Inter tinha menos números no meio campo, era o próprio Sneijder que apoiava a construção do meio campo. Com 48.5 passes p/jogo, os segundos mais na equipa, o 10 holandês ditava o jogo do conjunto de Mourinho.

E quando a bola chegava ao ataque, aí sim havia perigo. As movimentações ofensivas de Maicon davam origem a um overload ofensivo do lado direito, e Stankovic podia escolher entre dar uma linha de passe interior, ou fazer o overlap e cruzar para a dupla de ataque. Assim, Milito não necessitava de fugir da baliza em apoios, e aparecia quase sempre no 1 para 1 com os defesas adversários, onde conseguia fazer o que queria a maioria das vezes. Do lado esquerdo, não havia tanto apoio ofensivo, o que explica o porquê dos golos virem do centro ou da direita. As movimentações de Eto’o faziam com que ele aparecesse sozinho nas costas da defesa ou no 2 para 1 onde assistia para Milito.

Maicon ficou com 11 assistências na época, mas quando estava fechado, era Thiago Motta que saía para dar lugar a Muntari, que fazia os mesmos movimentos que Stankovic na direita, e levava à rara subida de Javier Zanetti.

Pelo centro, era Sneijder que causava dores de cabeça. O holandês tinha 3.4 remates p/jogo, onde dois terços desses vinham de fora de área. Assim, atraindo a atenção dos defesas, Eto’o e Milito podiam fazer as suas movimentações, levando a golos simples.

Defensivamente, e tratando-se de uma equipa do Special One, eram soberbos.

Apesar da pressão ser inexistente, os números defensivos no centro do campo arrastavam o jogo para as alas, onde as equipas italianas não se sentiam muito confortáveis a jogar. E com a imposição de Lúcio e Samuel, não havia grande preocupação aí também.

E como é uma equipa de Mourinho, já sabe do que vou falar a seguir. O Inter tinha o melhor contra ataque do mundo. .E isso via-se nas estatísticas, com 16 golos no contra-ataque, o dobro da segunda melhor equipa.  A arte do contra ataque é uma que Mourinho domina, e com armas como Eto’o e Maicon, não havia como errar. Aquando da recuperação da bola, Cambiasso olhava para as alas, onde as duas ameaças depois partiam no um contra um ou procuravam o cruzamento para Milito.

Caso escolhem-se atacar pelo meio, era mais uma vez Sneijder que era chamado, que procurava criar espaço arrastando consigo um ou dois defesas, depois dando a bola a um dos pontas de lança, tendo como objetivo deixá-los numa situação de dois contra dois.

Mas como disse, havia outro sistema.

Focando mais nas diferenças, Stankovic era substituído por Pandev, que jogava na esquerda, passando o camaronês Eto’o para a direita.

A construção de jogo era extremamente semelhante, mas no último terço, aí a conversa já não era a mesma. Zanetti deixava de subir, e formava uma linha de 3 com os centrais durante o processo ofensivo, para impedir contra-ataques.

Assim, era Pandev que ficava responsável pela ala, e quando a bola entrava lá, a equipa passava para um 3-4-1-2, onde Maicon cobria a direita e Eto’o entrava na área ou no apoio a Milito. Para apoiar o macedóno estava lá, mais uma vez, Sneijder. Uma vez que Pandev não era ala por natureza, as triangulações com o holandês eram necessárias para não forçar Pandev a tentar o um contra um.

Se Maicon realizasse o overlap na direita, Eto’o descia e impedia o contra-ataque pela direita, mantendo assim a importante solidez defensiva.

Mas o porquê de Mourinho usar esta formação na Europa não era pelas suas proezas ofensivas. Na Europa, contrastando com o futebol italiano, as equipas eram eficazes a jogar pelos flancos.

Assim, com esta formação, os extremos Eto’o e Pandev sacrificavam o contra ataque e marcavam individualmente os laterais adversários, de forma a impedir o overlap.

Quando a bola passava para o centro, passava se a uma defesa à zona, e os Nerazzuri passavam a ter uma linha de 4 e outra de 5 à frente, para impedir o jogo entre linhas.

E foi assim, com este à vontade de defender e esperar pelo seu momento, que José Mourinho e o seu conjunto conquistou a Europa, e os corações de muitos amantes de um futebol organizado defensivamente e clínico na frente.

Foi assim que Mourinho conquistou o mundo.

Fontes: twitter.com/signoremilito; bleacherreport.com; goal.com/br;