Curiosidades: Shrovetide, a origem do futebol (?)

É do conhecimento geral dos adeptos de futebol que o desporto rei ganhou a sua popularidade graças a Inglaterra, pese embora haver registos de jogos semelhantes oriundos da China antiga (imagine-se). O simples conceito de chutar uma bola com 21 outros amigos num relvado retangular foi suficiente para despoletar toda uma cultura que rapidamente ascendeu à escala global. A origem do desporto, ainda assim, permanece um mistério, já que é possível encontrar variantes do mesmo ao longo de muitos séculos e pelos quatro cantos do mundo. Contudo, há uma que se destaca das restantes, não só por ser das mais antigas (no mundo ocidental, pelo menos), mas também por ser das poucas que ainda se pratica regularmente. Hoje, o Ambidestro conta-lhe um pouco da história da Royal Shrovetide Football Match, muito possivelmente o berço do futebol moderno europeu!

Se já ouviu falar do Calcio Storico, praticado em Florença desde os tempos do Império Romano, o Shrovetide Football tem as suas parecenças…e daí nem por isso. O jogo é praticado em Ashbourne, no município de Derbyshire em Inglaterra. A sua origem é incerta, uma vez que os primeiros registos se perderam num incêndio, nos anos 90 do séc. XIX. Ao que se sabe, o desporto remonta aos tempos da Idade Média, sendo a sua memória mais antiga da altura do reinado de Henrique II (séc. XII). Mas deixemos a nostalgia de parte e olhemos agora para o jogo em si.

Gavin Elliott (Facebook)

Se para as gentes de Ashbourne as regras são tão óbvias quanto as do futebol moderno, o mesmo não se pode dizer de qualquer um que chegue de fora. O jogo ocorre anualmente em dois dias seguidos, uma terça feira e uma quarta feira (Shrove Tuesday e Ash Wednesday, ou quarta feira de cinzas – um feriado católico, celebrado também em Portugal). Os encontros são disputados entre duas equipas, os Up’Ards (nascidos a norte do rio Henmore) e os Down’Ards (nascidos a sul do mesmo). Até aqui, nada de estranho.

Acontece que são muitas as peculiaridades deste jogo, a começar pelo próprio campo. O terreno é constituído, pura e simplesmente, por toda a área da cidade, sendo os seus limites marcados por dois moinhos, as “balizas” (calma, já lá chegamos), um no topo norte e outro, naturalmente, no topo sul da localidade, separados por…4.8 km.

Station House Bed & Breakfast (Facebook)

Cada dia há uma partida, que começa sempre às 14h e pode chegar a terminar…às 22h! O objetivo das equipas é conseguir marcar um “golo”. Fazem-no carregando a bola até ao moinho adversário (foram entretanto demolidos, mas substituídos por pilares de pedra, como mostra a imagem) e batendo-a no centro do mesmo três vezes seguidas. Caso o golo seja marcado antes das 15h30, a partida reinicia da mesma forma que começa: com a bola a ser lançada duma espécie de púlpito localizado no centro da cidade.

Já lhe soa estranho o suficiente? Pois bem…há mais. Ao contrário de todo e qualquer desporto a nível mundial (na sua larga maioria, pelo menos), não há qualquer limite para o número de jogadores! Assim é, de tal forma que, num ano normal, toda a cidade sai à rua para jogar (estamos a falar de uma localidade com mais de 9000 habitantes). Como tal, para quem venha de fora, a única coisa que, normalmente, se vê é uma autêntica multidão de gente nas ruas, atirando uma bola de um lado para o outro, naquilo que, de certa forma, se assemelha a uma espécie de scrum desproporcionalmente grande, levado a cabo por dezenas, senão mesmo centenas de pessoas de uma só vez.

Pois bem, se pensa que, posto isto, há regras rígidas e concretas sobre a forma como se pode disputar, carregar ou passar a bola, desengane-se. As únicas restrições são as mesmas desde sempre, e são seis:

  1. Não vale matar (voluntariamente ou não), nem recorrer a violência desnecessária;
  2. A bola não pode ser transportada em nenhum veículo motorizado;
  3. A bola não pode ser escondida num saco, casaco, mochila, etc.
  4. Cemitérios, igrejas e jardins memoriais estão fora dos limites do terreno de jogo;
  5. É proibido jogar depois das 22h;
  6. Para marcar um golo a bola deve ser batida três vezes na zona de golo.
Jonathan Almond (Facebook)

No fundo, e como diria “o outro”: vale (quase) tudo!

E se pensa que as pessoas, por se conhecerem ou por serem da mesma vila, se moderam nos entusiasmos…desengane-se novamente. A melhor analogia a fazer para por isto de modo a que o comum adepto de futebol português possa imaginar é pensar no que seria se os No Name Boys e a Juventude Leonina disputassem uma partida semelhante na baixa pombalina de Lisboa. Soa agressivo? É porque é mesmo!

As gentes de Ashbourne levam este desporto tão a peito como a maioria dos ribatejanos relativamente à tauromaquia. Nem as más condições atmosféricas demovem os habitantes, bem pelo contrário. Os dias de chuva, vento, neve, frio, etc. são os preferidos dos mais fervorosos adeptos/jogadores deste jogo, uma vez que são nesses que, ficando uma parte no conforto das suas casas, restam os mais leais e orgulhosos, pelo que essas partidas acabam por ser as mais…”vivas”, pondo de forma ligeira.

Um pouco à semelhança do que acontece em algumas cidades portuguesas aquando das típicas “largadas de touros”, as lojas e as casas nas ruas principais são barricadas durante esses dois dias, por forma a evitar estragos. Em 1960, o jogo esteve muito perto de acabar, quando uma loja acabou totalmente destruída. A bola entrou pela frente e saiu pelas traseiras, arrastando, consigo, centenas de pessoas, algumas das quais acabaram por pilhar parte do estabelecimento. Apesar dos danos, os donos nunca apresentaram queixa, permitindo, em certa medida, que a tradição não acabasse cancelada, ao fim de tantos anos de história.

The Wheel Inn Ashbourne (Facebook)

Se o jogo, por si só, já é, no mínimo, estranho, a própria bola não poderia fugir à regra. Trata-se de uma bola de couro, bastante maior que a típica bola de futebol, decorada com pinturas feitas por artistas locais, normalmente aludindo ao desporto em si, incluindo também algumas referências à localidade e ao país. A bola é recheada com cortiça, por forma a poder flutuar, caso acabe no rio (o que acaba sempre por acontecer). Curiosamente, a cortiça utilizada é, tradicionalmente, portuguesa! Todos os anos são feitas novas bolas, uma vez que, dado ser raro haver mais do que um golo por jogo, o autor do mesmo tem o direito a ficar com ela, sendo esta, inclusive, pintada novamente com uma referência ao marcador.

Marcar um golo é, para a maioria dos habitantes, o sonho de uma vida, do mesmo modo que qualquer criança sonha em marcar numa final de um Campeonato do Mundo da FIFA. Parecendo que não, há muita tática por detrás deste feito. Há inclusive posições específicas, desde os runners (tipicamente os mais rápidos e mais resistentes), aos river players (para quando a bola acaba na água).

Shrovetide é uma tradição que se manteve, ininterruptamente, ao longo de centenas (senão milhares) de anos, mas em 2021, o evento foi forçosamente cancelado, devido à pandemia de Covid-19. Há quem acredite que se trata do jogo que veio a despoletar aquilo que conhecemos hoje como “futebol”. Pioneiros ou não, trata-se de um desporto indubitavelmente mítico, não só para Ashbourne, como para toda a Inglaterra e, bem ou mal, para o mundo inteiro.

 

Imagem de destaque: Gavin Elliott (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.