Opinião: A arte da mediocridade

Oito anos de futebol juvenil federado sensibilizaram-me para discursos feitos vindos de treinadores e dirigentes (de outros jogadores dou de barato, éramos todos putos) e outras situações, eufemizando, de “torcer o nariz”: de grades partidas, ameaças explícitas a árbitros, grades partidas, pais e mães a ameaçar filhos de outros e a incentivar os seus próprios filhos a “partir-lhes as pernas”, até puras batalhas campais, já vi praticamente de tudo. Porém, ainda não consigo lidar muito bem com o facto de que, ao mais alto nível, a mentalidade de distrital (azeitice, diga-se) e de terrinha vai vertendo por tudo aquilo que é poro e greta. Não é suposto o topo do topo comportar-se como o topo do topo? Será a única manifestação de elite no futebol português uma aparente superioridade a nível técnico de jogadores e treinadores? Pode-se justificar a presença de certos indivíduos no topo da hierarquia do desporto-rei a conhecer as pessoas certas, estar nos sítios certos e aproveitar as oportunidades quando lhas aparecem à frente? Parece-me que, muitas vezes, é disso que se trata.

É todo um ciclo que começa, exemplificando, com a comunicação social: é preocupante quando toda a gente fica chocada quando um órgão de comunicação social, neste caso o Bola na Rede (nem sequer um suposto jornal mainstream) ou um jornalista escolhe, por ímpeto e por capacidade (há cabeças que não dão para mais, presumo), colocar uma questão a um treinador, em conferência de imprensa, sobre o próprio jogo e não sobre o drama e as side quests e tertúlias dos bastidores do futebol. Do outro lado da barricada, há os restantes canais de televisão, sobretudo aquele que fica pelos lados do Estádio da Luz, que nos surpreende todos os dias com títulos que fariam qualquer argumentista de novelas ficar roído de inveja (AVISO: VAI FALAR RÚBEN AMORIM DONO DISTO TUDO PRÉ-CAMPEÃO SUPER SAIYAN). Cumpre o seu propósito, que é chamar à atenção: o problema é ser pensado no canal em questão, contextualizando essa escolha com a linha editorial do tal canal, que é, no mínimo, questionável. É o mesmo canal que coloca quatro comentadores que, apesar das ligações ao futebol, são incapazes de proferir um minuto de análise ou comentário perspicaz: os únicos momentos interessantes provêm de quando se pegam uns com os outros. Não há mal nenhum em existir programas assim nem em haver entretenimento “barato” de vez em quando: é olhar ao sucesso do “El Chiringuito”, o mais conhecido programa de futebol dos vizinhos do lado.

Começa a ser angustiante quando o entretenimento barato é a única coisa que se retira deste tipo de conteúdo, o que leva às mentes iluminadas que assistem a estes programas, mesmo sabendo que é conteúdo mau (talvez ao jeito de uma criancinha, que sabe que é mau porque os pais lhe dizem sem saber explicar porquê), a tentar procurar, desesperadamente, no meio do baboso “taberneirismo” dos Rodolfos Reis, Aníbais Pintos e Octávios Lopes deste mundo, uma migalhinha de “análise” digna ou de confirmation bias para dormirem melhor à noite. Desse modo, é lógico que os discursos tendenciosos e completamente fragmentados sejam perpetuados e regurgitados a torto e a direito, tornando o discurso futebolístico um produto de um derrame cerebral coletivo. Os discursos vigentes andam em torno do meu clube ser o paladino da “verdade desportiva” e nunca ser roubado, precisando de jogar com “raça” e “intensidade” para ultrapassar os obstáculos provenientes da eterna injustiça que é perpetuada pelos “outros”, que são maus, e não jogam nada, e são sempre beneficiados. Esse é o paleio de quem entra dentro de campo, tanto jogadores quanto treinadores: dou de barato haver nervos à flor da pele por parte dos protagonistas (e entre os protagonistas), porque é normal. Quando são sempre os mesmos, é um pouco estranho. Quando são sempre os mesmos e os discursos começam a roçar o demente, aí convém parar.

Não gosto de Sérgio Conceição, tal como nunca gostei muito de Jorge Jesus, e tal como não gosto do presidente do meu clube, não necessariamente pela maneira como entrou, mas especialmente porque é virtualmente incapaz de ter uma intervenção meritória nos media. Mas Sérgio Conceição e o Futebol Clube do Porto, nos últimos três meses, têm personificado tudo aquilo que eu desdenho não só no futebol português, como no país em geral. Quando o meu clube ganha, é normal que eu diga “sim” e que fique contente. A época do Porto nem está a ser necessariamente má: a demanda na Liga dos Campeões é de louvar, mesmo contra uma Juventus morta-viva. O Sporting ainda não foi campeão, independentemente da diferença pontual. Não faz sentido que jogadores influentes do clube em questão se venham queixar de que se celebre um resultado favorável num jogo difícil como se se tratasse de uma “final de Champions” quando na semana anterior se festejou um golo ao cair do pano e quase caído do céu contra o último classificado. Teve piada quando o golo foi anulado. Já nem falo nos constantes desacatos de Sérgio Conceição e nas expulsões, nem nas desculpas de Jorge Jesus com o COVID mesmo com a equipa a jogar zero, apesar do investimento brutal: são tópicos mais do que batidos, falando dos dois maiores grunhos do futebol português, e que, curiosamente, treinam as duas maiores equipas em Portugal.

A questão de João Palhinha é outra interessante: o erro foi admitido e a suspensão foi levantada, mas fala-se de benefício ao Sporting. Fica difícil de não cair em whataboutisms quando os queixosos apoiam o clube protagonista do caso Apito Dourado. Em relação a este assunto em particular, soa-me a muito choro pela liderança leonina. É importante salientar que, para além de que o hype nem tem sido muito efusivo, a geração sportinguista atual, à qual pertenço, é uma espécie vergada: por muitas razões que haja para ficar esperançoso, a mente de um sportinguista sabota-se a si própria de tão profundo que é o trauma dos CSKAs (tanto o de Vágner Love como o de Doumbia e Musa), de Luisão a cabecear sobre Ricardo, do título disputado até última jornada em 2006/2007, de Agüero na Taça UEFA em 2008, de Llorente nas meias-finais da Liga Europa em 2012, dos Skenderbeus, dos Legias, de Bryan Ruiz, da invasão à Academia e da “golpada”. Com o Sporting, a figura de urso está mais que garantida: é normal que esta época soe demasiado boa para ser verdade, e até ao título estar matematicamente assegurado (se é que vai estar), nenhum sportinguista que eu conheça vai acreditar que vamos ser campeões, porque ser sportinguista é tortura, é ser um Calimero eterno. Não vale a pena o campeão em título e o maior clube português e os seus representantes virem com complexos de inferioridade para ver quem é que é o mais injustiçado. Ainda há o Braga, que está a fazer uma época digna de grande, até que vem António Salvador relembrar-nos de porque é que ainda quase ninguém considera o Braga o “quarto grande”.

Bruno de Carvalho foi o melhor presidente da história recente do Sporting: a enumeração das razões não é relevante para este artigo, destacando pelo menos o investimento nas modalidades e o seu indubitável carisma. No entanto, não é de carisma que vivem os feitos. O meu desdém pela administração do querido presidente começou quando a “calimerização” começou a ofuscar os feitos alcançados. Da mesma maneira que os outros grandes fazem, as arbitragens e o desenterramento de casos suspeitos foram o bode expiatório que se arranjou quando o desespero por um título de campeão começou a descontrolar-se (asterisco para 2015/2016), sendo que era quase impossível que Bruno de Carvalho perde uma eleição que fosse. Aquando do meu último ano de licenciatura, Nuno Saraiva fez uma visita a uma das minhas aulas, que visava simular uma espécie de conferência de imprensa. Fiz lhe uma pergunta incómoda, e assumiu que era do Benfica. É comum manter um desdém saudável pelos rivais, porque a competição reside nesse desdém: não convém gostar que os outros ganhem ou nos suplantem. Mas o meu ódio por sportinguistas é imprescindível. É importante olhar para dentro e tentar desconstruir aquilo que está de errado, perceber aquilo que corre bem, e procurar sempre aperfeiçoar tudo ao máximo. Logo, é importante, no meio dos nossos tribalismos desportivos, olhar para aquilo que os outros fazem bem, dentro daquilo que é suposto ser o futebol e a gestão desportiva e não o drama e a intriga, mesmo que seja inegável que existe corrupção e trafulhice no futebol português. Essa existência não implica que tenhamos de voltar aos velhos tempos de voltas ao campo no peladão e de “meter gelo” em roturas de ligamentos só porque não vale a pena ser se bom naquilo que se faz porque “os outros roubam”.

O 11 e a Eleven (número da sorte, talvez) têm ajudado a mudar o paradigma do discurso sobre o futebol e sobre o desporto no nosso país, tal como têm posto em questão a hegemonia da Sport TV, que tem perdido qualidade ao longo da última década. Há uma nova geração de jornalistas, comentadores (Tomás da Cunha, Sofia Oliveira, etc.) e espetadores que, salvaguardando discórdias pontuais como é suposto acontecer, vão contribuindo para essa mudança: foi um caminho que se começou a trilhar com muita “freita-lobice”. Mas o medíocre e o banal ainda vai prevalecendo com estas tacanhices. Há um complexo de Viriato, D. Afonso Henriques, de sofredor do qual ainda não nos livrámos, especialmente no futebol, tendo em conta que atrai do mais pseudo-macho que existe no nosso país, e é algo que não falta cá. O futebol é jogado com a cabeça, e os “tomates” não são literais, nem derivam necessariamente da testosterona (porque o futebol também é delas) nem da musculatura, sobretudo daquela da cintura para cima: deriva mais do pernão, da cabeça, e da irreverência para tentar algo de novo e diferente, sem cair nos clichés de jogar com Weigl a central ou de todas as equipas jogarem com 3 centrais só porque este ano o líder está a ter sucesso com tal esquema, esquecendo que são os jogadores e as suas caraterísticas que fazem os sistemas funcionar. De resto, os jogadores que joguem à bola e o resto que veja e aprenda. É assim que se deixa de ser medíocre.

Fonte da imagem: Carlos Vidigal Jr. / Global Imagens