Como Joga: O AC Milan de 2007

Apesar de os últimos anos terem sido difíceis, o AC Milan é um dos clubes mais bem sucedidos em Itália e na Europa. Ao acumularem 18 títulos da principal liga italiana (Serie A) são, a par do clube “vizinho” – Internazionale – o segundo clube mais titulado na competição, apenas atrás da Juventus (36). São recordistas da Supertaça Europeia, tendo saído vencedores por cinco vezes. O AC Milan é o segundo clube mais titulado na Liga dos Campeões, tendo vencido a competição sete vezes e, a última vez que os ‘rossoneri’ venceram a principal competição do futebol europeu foi em 2007, ano em que também venceram o Mundial de Clubes. Neste artigo vou analisar esse ano fantástico para o clube da capital italiana.

Os ‘rossoneri’ contrataram Carlo Ancelotti à Juventus em 2001, e mantiveram-o no comando até 2009. No seu tempo em Milão, Ancelotti venceu a Liga dos Campeões duas vezes, a Serie A uma vez (2003/04) e conquistou outros cinco troféus. Uma passagem cheia de glória mas também repleta de altos e baixos.

 

A Campanha na Serie A:

A época começou algo atribulada. O clube estava envolvido no Caso do Calciopoli, e devido ao castigo derivado desse escândalo, começou a época com um défice pontual de -8. No verão vários jogadores abandonaram o clube, como Rui Costa (regressou ao Benfica a custo zero), Jaap Stam, Johann Vogel e Andriy Shevchenko. Para os substituir, o Milan contratou Ricardo Oliveira, Massimo Oddo e vários outros jogadores, uns mais jovens outros mais velhos. Em janeiro, entrou na equipa Ronaldo ‘Fenómeno’, proveniente do Real Madrid.

Com a campanha na liga afetada pelo castigo aplicado aos milaneses, estes puderam aproveitar para se focar na campanha europeia. Após uma série de maus resultados, incluindo nove jogos sem vencer, os ‘rossoneri’ encontravam-se em 15º lugar com 11 pontos. No entanto, após duas derrotas seguidas (frente à Lazio e à Atalanta) a equipa de Ancelotti seguiu numa série de sete jogos sem perder, acabando por ficar a seis pontos do 4º lugar. Era evidente que, durante o início da época, os jogadores demonstravam alguma fadiga e pouca condição física, pelo que, em janeiro, a equipa fez um estágio em Malta para trabalhar esse aspeto. O AC Milan acabaria a época em 4º lugar, um ponto atrás da Lazio, garantindo a qualificação para a Liga dos Campeões 2007/08.

 

A Campanha Europeia:

A campanha europeia do Milan começou na 3ª pré-eliminatória (atual play-off), na qual defrontou e venceu o Estrela Vermelha por 3-1 no agregado, com Filippo Inzaghi em destaque em ambas as partidas. Ao entrar na fase de grupos, os ‘rossoneri’ ficaram num grupo com o Lille, o AEK e o Anderlecht, que, para muitos, era considerado um grupo fácil.

Com três vitórias (3-0 contra o AEK, 0-1 e 4-1 frente ao Anderlecht), um empate a zeros frente ao Lille e duas derrotas (1-0 contra o AEK e 0-2 contra o Lille), o Milan conseguiu assegurar o primeiro lugar do grupo e a passagem à próxima fase da competição.

Nos oitavos de final, a equipa de Ancelotti defrontou o Celtic de Glasgow e precisou de prolongamento para vencer por 1-0 no agregado, com um golo de Kaká. Nos quartos de final, os milaneses bateram o Bayern de Munique por 4-2 no agregado. O último degrau antes da final foi o mais complicado: uma derrota em Inglaterra frente ao Manchester United (3-2) colocou em perigo as ambições do clube. No entanto, uma abaladora vitória por 3-0 no San Siro eliminou qualquer dúvida sobre a qualidade da equipa do Milan. Na final, o clube vermelho e branco defronta velhos conhecidos: o Liverpool, que anos antes tinha vencido a final da Liga dos Campeões depois de os milaneses terem estado a ganhar por 3-0. Mas desta vez o Milan não se deixou vergar e acabou por vencer por 2-1, com Inzaghi a marcar ambos os golos da equipa.

O sistema:

O sistema tático que Ancelotti tinha construído servia que nem uma luva aos seus jogadores, permitindo a alguns deles terem os melhores anos das suas carreiras. Os milaneses alinhavam num 4-3-2-1, mais conhecido como o sistema da “árvore de natal”, uma vez que, no papel, este sistema se assemelhava a um pinheiro natalício.

 

Vejamos a equipa base:

Esta era a equipa base do AC Milan durante a época 2006/07.

 

Este sistema já vinha a ser trabalhado há alguns anos (desde a chegada de Kaká, depois da vitória da Liga dos Campeões em 2002/03), o que permitiu a Ancelotti resolver os dois principais problemas deste sistema: a falta de solidez defensiva no meio-campo e a falta de largura no ataque.

O primeiro problema foi resolvido com a inclusão de Ambrosini e Gattuso no meio campo. Ambos os jogadores protegiam Pirlo quando este adotava um papel mais atacante, ou quando este perdia a posse de bola. Tanto Ambrosini como Pirlo eram capazes de jogar em posições mais avançadas, servindo a capacidade defensiva de Seedorf para permitir trocas de papéis no meio campo. Desta forma, Gattuso era o principal “destruidor” de jogo, com Ambrosini também capaz de fazer esse papel, ainda que ambos fossem extremamente competentes na componente técnica e na qualidade de passe. O outro problema foi se resolvendo ao deixar para trás a clássica linha de quatro defesas estática, e adotando um sistema em que os laterais subiam no terreno. A contratação de Cafú (um dos melhores defesas direitos de sempre) foi fundamental para resolver este problema. Mas não era apenas Cafú quem fazia esta posição, até porque foi Massimo Oddo quem jogou a titular na final da Liga dos Campeões. Do lado esquerdo da defesa era Jankulovski quem assumia a titularidade, um jogador com pouca atenção mas que era dos melhores no que fazia.

Resolvendo estes dois problemas, o sistema estava otimizado. Inzaghi era o foco atacante da equipa, mas não se limitava a estar nas costas da defesa à espera de cruzamentos dos laterais ou passes na profundidade. Ele descia para disputar duelos aéreos e encostava à ala para permitir a entrada de Kaká e Seedorf na zona de finalização. Estes dois médios tinham papéis diferentes neste sistema. Kaká preferia jogar atrás do ponta de lança ocupando posições centrais em zonas de finalização, ou no meio-espaço do lado direito. O brasileiro utilizava a sua excelente capacidade de drible para chegar às zonas de decisão, o que o tornava no jogador mais perigoso da equipa milanesa. Já Clarence Seedorf utilizava a sua robustez a jogar sob pressão para ajudar a criar triangulações o meio campo antes de partir para a grande área.

O ponto focal e o grande “maestro” desta equipa era, no entanto, Andrea Pirlo. A sua capacidade de passe permitia aos milaneses fazer transições rápidas e marcar golos no contra ataque ou, quando a equipa estivesse a construir de trás, lançar os laterais pelas alas e avançar rapidamente no terreno. Caso Pirlo quisesse avançar no terreno e procurar espaços entrelinhas, Gattuso recolhia a bola em zonas mais profundas e jogava ou para o lateral ou para Pirlo caso essa linha de passe existisse.

Os laterais eram, quase, livres para atacar a qualquer momento, sabendo que na sua última linha tinham Maldini e Nesta (dois dos melhores defesas centrais deste século) e Dida (na altura, um dos melhores guarda-redes do Mundo), no entanto, estes também voltavam à sua posição inicial quando a equipa precisasse de defender. 

Esta era uma equipa extremamente organizada marcada, ao mesmo tempo, pela liberdade oferecida aos seus jogadores. Um conjunto de jogadores técnica e taticamente acima da média que invertiam papéis e posições à medida que o jogo o pedia.

O “maior” jogador desta equipa era Kaká. O médio brasileiro marcou 18 golos e fez 11 assistências nesta época, acabando mesmo o ano de 2007 com uma Bola de Ouro nas mãos, o último jogador a fazê-lo antes de começar a “dinastia” de Messi e Ronaldo.

 

Imagem de Destaque: Twitter @Oddschanger