Opinião: O fim da dança de cadeiras

No seio da bola, a semana passada foi marcada por dois tópicos de conversa: o suposto namoro entre o Benfica e Diego Costa, entretanto desmentido pelos encarnados, e, em pé de igualdade, as desinspiradas exibições da seleção nacional no início da corrida para o Mundial de 2022.

Muito já se falou e ainda mais se poderia falar acerca destes temas, que o digam os sempre imparciais especialistas do Facebook que inundam as caixas de comentários e nos trazem o privilégio diário de explicar todos os “porquês”, baseando-se em informação retirada de fontes fidedignas e nunca em crenças assentes em pura especulação e fantasia, como é óbvio.

Mas hoje não venho falar de nada disso. Venho abordar uma notícia que passou despercebida nos meios da comunicação social nacional, mas que me deixou muito satisfeito e já explico porquê. Soube-se, na madrugada de quinta-feira, que a partir da próxima época, os clubes do Brasileirão vão estar limitados a dois treinadores por época, numa medida que já tinha sido proposta pela Confederação Brasileira de Futebol em 2018, mas que só agora (e finalmente) foi aprovada.

Com esta regra , as equipas brasileiras passam a ter de, imagine-se, pensar bem em quem vão confiar a chefia dos seus jogadores no início de uma temporada e a fazer um planeamento a longo prazo, porque caso errem à primeira e depois se vejam em apuros, só terão uma última oportunidade para  salvarem a  temporada . Também os treinadores que aceitem trabalhar no Brasil terão de passar a considerar se mudar-se para um clube só porque um compatriota se safou muito bem na sua passagem por lá é assim tão boa ideia (estou a olhar para si, caro Augusto Inácio).

Fonte da imagem: Twitter @Alexxl99

Acima de tudo e como bem destacou Rogério Caboclo, presidente da CBF, a decisão “vai implicar uma relação mais madura e profissional e permitir trabalhos mais longos e consistentes”, aspetos que tanto fazem falta, não só no campeonato brasileiro, como no mundo do futebol  em geral. Agora imagine comigo, caro leitor, se uma decisão como esta tivesse sido aprovada este ano na Liga NOS.

Será que Tiago Mendes, sem qualquer experiência prévia como treinador principal de uma equipa, teria sido escolhido para iniciar a temporada no Vitória SC, que como se sabe, já estava fora da corrida pelo quarto lugar quando ainda nem andávamos a ouvir Mariah Carey pelos menos cinco vezes ao dia em dezembro? Será que Jorge Silas tinha sequer sido considerado para tentar resgatar, sem sucesso, o Famalicão da zona de descida, quando existia a possibilidade de ir buscar Ivo Vieira, um técnico livre desde janeiro? Não tinha este um bom trabalho executado no Minho no seu currículo e, pelo que se viu pela sua atrasada contratação, aparentemente estava tão interessado em regressar a terras lusas que não hesitou em aceitar o desesperado convite dos famalicenses para ser o seu terceiro treinador da época?

Será que César Peixoto tinha sequer posto os pés no Moreirense em novembro, se o seu compromisso com o clube era tão forte que, nem dois meses depois, acabaria por desistir do cargo em véspera de defrontar o FC Porto e depois de ter acabado de garantir a passagem da sua equipa aos oitavos de final da Taça de Portugal e registar a sua primeira vitória no campeonato? Tudo boas questões e com respostas que, apesar de lá no fundo sabermos, nunca poderemos comprovar.

Fonte da imagem: Twitter @futglobal20

E já que não há respostas definitivas, deixo aqui um apelo, na qualidade de alguém que no futuro , se calhar, terá o ingrato trabalho de informar o público acerca de todas as movimentações técnicas que acontecem no futebol, muitas delas que poderiam ser evitadas se as direções, imagine-se de novo, confiassem nas capacidades dos nomes que os convenceram a acreditar neles para comandar as suas equipas.

Liga Portuguesa de Futebol Profissional, pensem em apresentar uma medida semelhante nas ligas nacionais! Não custa nada! Pensem em como um limite no número de treinadores por época  poderia significar uma melhoria geral para os campeonatos. Demorem o tempo que quiserem, mas  sem abusar… Se for preciso tirem um ano, para olharem para a próxima edição do Brasileirão e comprovem se realmente é algo que às tantas por cá faria maravilhas. Eu sou o mais longe possível de um vidente, ultimamente nem um bilhete do Placard para ganhar dez euros consigo acertar, mas não é preciso ser-se um génio das apostas para conseguir prever que o chamado “fim da dança das cadeiras dos técnicos” é uma medida a aplaudir pela CBD e um passo importante rumo à evolução do campeonato brasileiro.

Enquanto pensam no assunto, deixo-vos só com um dado que achei merecedor de atenção. Em 2020/21, a nossa estimada Liga já assistiu a mais despedimentos do que a Premier League e a LaLiga juntas!  E estamos a mais um de poder adicionar também a Serie A à contagem.

E ainda dizem que a confiança é a chave para o sucesso.

Fonte da imagem de capa: Twitter @FCF1931_Oficial

Alexandre Dionisio

Desde pequeno fui levado ao mundo do futebol, inicialmente enquanto júnior no Ginásio Clube de Alcobaça, clube da minha cidade, e agora mais velho enquanto espetador assíduo do mágico desporto que tanto nos emociona. Com uma licenciatura em Ciências da Comunicação na bagagem e um mestrado em Jornalismo em curso, acompanho cada jogo com a máxima emoção. Que isso nunca mude.