Como Joga: Borussia Dortmund 2012-2013

Nesta edição do Como Joga, fique com a equipa que surpreendeu a Liga dos Campeões e a Europa, num ano de domínio dos rivais de Munique.

“A História é escrita por Vencedores”. Esta frase é muitas vezes ouvida em vários capítulos da nossa vida, e assim também acontece no futebol. O que interessa, ao fim e ao cabo, é ganhar: ganhar jogos e ganhar títulos. Tanto assim é que seria de esperar que a equipa recordada da época de 2012-2013, não só na Alemanha como na Europa, fosse o Bayern Munique. Comandada por Jupp Heynckes, a equipa bávara venceu nessa época o tão cobiçado Triplete, conquistando Campeonato, Taça e Liga dos Campeões.

Apesar das conquistas inesquecíveis, nessa época outra equipa fez furor, e é importante recordá-lo: apesar de não ter conquistado títulos, a equipa do Borussia Dortmund, treinada por Jurgen Klopp, merece ser lembrada. Mas como jogava esta equipa e porque marcaram esta era no futebol?

O Dortmund festeja o bicampeonato ganho em 2012

Antes de mais, é importante dar o contexto da equipa à entrada para esta época. O Dortmund estava habituado a conquistar títulos. Nas últimas duas épocas, o clube alemão tinha vencido dois campeonatos e uma taça da Alemanha. Jurgen Klopp foi o treinador responsável por estas vitórias, com uma equipa que misturava alguma experiência com juventude, com o goleador polaco Robert Lewandowski a liderar um ataque fulminante, com 30 golos marcados na época passada.

De modo a aspirar a títulos novamente, a estratégia do Dortmund foi muito simples: manter as pedras basilares e reforçar-se cirurgicamente com jogadores jovens. Jogadores jovens como Lewandowski, Hummels, Gundogan ou Mario Gotze eram alguns dos principais ativos do plantel e não foram transferidos, enquanto que Nuri Sahin regressou duma passagem menos boa no Real Madrid e o clube adquiriu Marco Reus ao Borussia Monchengladbach. A maior baixa acabou por ser Shinji Kagawa, que saiu para o Manchester United.

O plantel era muito jovem, com uma média de idade de 23 anos. Ainda assim, a experiência dos jogadores era visível, também apoiada por líderes de balneário mais velhos como o guarda-redes Weidenfeller, 31 anos, e os defesas Piszczek e Felipe Santana, 27 e 26 anos, respetivamente.

A equipa jogava em 4-2-3-1, e a profundidade era uma das principais qualidades do plantel. Weidenfeller era dono e senhor da baliza. Os centrais Hummels, Subotic e Felipe Santana tinham grande capacidade de posicionamento, sendo que o primeiro era também conhecido pela qualidade de passe. Schmelzer e Piszczek eram os laterais, com Grosskreutz como suplente, todos eles importantes no processo ofensivo e defensivo, com subidas pela ala, promovendo a sobrecarga das defesas adversárias. Sven Bender era o médio mais defensivo juntando muitas vezes aos centrais de modo a compensar as subidas dos laterais, com Gundogan como médio recuado mais ofensivo, com tarefas de construção e aproximação à área. Para jogos mais abertos, Nuri Sahin era também importante

Equipa do Borussia Dortmund na época 2012-2013

A solidez defensiva era de extrema importância nesta equipa, pois só assim o Futebol Heavy Metal, como lhe chama Jurgen Klopp, era possível, com quatro jogadores-chave nesta época. Marco Reus, pela esquerda, e Jakub Blaszczykowski, ou “Kuba”, pela direita, utilizavam a sua vertiginosa velocidade para atacar a linha ou explorar espaços interiores, causando imprevisibilidade aos adversários. Mario Gotze, de apenas 20 anos, assumia as tarefas de construção no último terço, como médio ofensivo, destacando-se a sua qualidade de passe e remate, o seu drible e a sua capacidade de decisão. Estes três homens jogavam atrás do homem-golo da equipa: Robert Lewandowski destacou-se em mais uma época, com 36 golos marcados, incluíndo dez na Liga dos Campeões, apenas atrás dos 12 de Cristiano Ronaldo.
Reus, Kuba e Gotze marcaram 19, 14 e 16 golos, respetivamente, com os quatro a combinarem para um total de 85 golos durante a época, mostrando assim como o sufoco ofensivo, a vertigem e o ataque eram as principais armas desta equipa, e eram os aspetos que a tornavam tão atrativa. É importante destacar ainda que, também no ataque, a profundidade era visível, com jogadores como Perisic e Schieber a mostrarem-se importantes para adicionar frescura e opções a partir do banco.

A equipa não brilhou na Liga mais uma vez, com uma super equipa do Bayern a dominar por completo, vencendo com mais 25 pontos que o Dortmund, segundo classificado. O destaque deste Borussia vai, no entanto, para a sua campanha europeia.

Classificação do Grupo D da Liga dos Campeões, liderado pelo Borussia Dortmund

O grupo D da Liga dos Campeões era o “Grupo da Morte”. Contava com o Real Madrid, campeão espanhol, Manchester City, campeão inglês, com o Borussia Dortmund, campeão alemão, e o Ajax, campeão holandês. Seria de esperar um confronto renhido, no entanto, o Manchester City desiludiu, ficando em último. A luta pelo primeiro lugar ficou reduzida ao Dortmund e ao Real Madrid, com os alemães a acabarem com 14 pontos, mais três que os espanhóis, e sem nenhuma derrota. O capítulo entre Dortmund e Real estava longe de estar fechado.

 

Depois dum empate a dois na Ucrânia, a equipa de Jurgen Klopp dominou o Shakhtar por 3-0 em casa, passando confortavelmente aos quartos-de-final da competição, onde viriam a enfrentar o Málaga, equipa-sensação da temporada (e que já tem um artigo a si dedicado nesta rubrica).

Felipe Santana festeja o golo que deu o apuramento ao Dortmund

Após um empate a zero em Espanha, o Málaga conseguiu, aos 82 minutos, através dum golo de Eliseu, ficar a vencer a partida por 1-2. O Dortmund carregou e, aos 91 minutos, Reus empatou o jogo, que não era suficiente, uma vez que o Málaga tinha a vantagem nos golos marcados fora. E aí deu-se ao milagre. Aos 93 minutos, numa jogada de ressaltos após uma bola parada, Felipe Santana encostou para o fundo das redes, carimbando a passagem do Borussia Dortmund às meias-finais da Liga dos Campeões pela primeira vez desde 1998.

O sorteio ditou que Real Madrid e Borussia Dortmund se voltariam a encontrar de novo nas meias-finais da competição. Cristiano Ronaldo estava em forma, tendo marcado cinco dos oito golos da equipa na fase a eliminar do torneio nesta época, e previa-se que pudesse ser novamente protagonista, para levar o Real à final da Liga dos Campeões, depois de duas épocas com quedas estrondosas nas “meias” contra Barcelona e Bayern Munique. No entanto, o protagonista foi outro.

Lewandowski, a festejar o quarto golo contra o Real Madrid, numa exibição histórica

O primeiro jogo, jogado no Signal Iduna Park, começou com um golo dos da casa, com Lewandowski a marcar aos oito minutos. O Real Madrid carregou e, mesmo em cima do intervalo, Cristiano Ronaldo empatou a partida. O 1-1 manteve-se até ao fim do primeiro tempo.

Na segunda parte, em 20 minutos magníficos, Lewandowski apareceu como a estrela maior, Aos 50, 57 e 67, o polaco fez três golos, dizimando por completo a equipa espanhola. O Dortmund como um todo dominou o segundo tempo, não permitindo que a equipa de Mourinho reagisse, e o 4-1 seria o resultado para a segunda mão. O clube espanhol ainda reagiu na segunda mão, vencendo por 2-0, mas o agregado de 4-3 confirmou que o Dortmund defrontaria o Bayern na final. A exibição de Lewandowski é, ainda hoje, considerada uma das maiores exibições individuais na história da Liga dos Campeões.

Na final, jogada no Estádio Wembley, o Dortmund iria encontrar o rival Bayern, que tinha cilindrado o Barcelona por uns expressivos 7-0 em agregado, com 4-0 em Munique e 0-3 em Camp Nou. Não seria, de todo, uma tarefa fácil.
O jogo foi sempre equilibrado, com cautela mostrada por ambas as equipas, que não queriam deitar tudo a perder. Este estilo levou a que a primeira parte terminasse sem golos.
No segundo tempo, Mandzukic, aos 60 minutos, abriu o marcador, com Gundogan a igualar de penálti, aos 68.
O jogo, que parecia ir para prolongamento, teve um final cruel para o Dortmund. Depois dum ressalto, Robben, na cara de Weidenfeller, fez o 2-1, com que a partida terminaria, com o Dortmund a cair de pé depois duma campanha extraordinária.

Depois dessa época, as bases mantiveram-se. Apenas Gotze saiu para o Bayern, com Mkhitaryan a ser contratado para a sua posição. Apesar disso, o Dortmund não voltou a ser a potência com a mesma força. O clube voltou a encontrar o Real Madrid nos quartos-de-final da edição de 2013-2014, mas os espanhóis não deram hipótese desta vez, “vingando-se” da eliminação na época anterior.

Sendo esta uma equipa que, nesta época, não venceu e que tem estado em declínio desde então (em oito anos, não voltou a ser campeã e apenas alcançou os quartos-de-final da Liga dos Campeões por três vezes), porque vale a pena recordá-la? 

Apesar da derrota na final, Jurgen Klopp merece reconhecimento pela qualidade do futebol praticado por este Dortmund

O Dortmund de Klopp teve o “azar” de encontrar nacional e internacionalmente uma das melhores equipas da história, que venceu tudo o que podia vencer. Ainda assim, essa barreira, que os impediu de ganhar títulos, não os impediu de mostrarem como se atrai pessoas com futebol. As exibições atacantes, divertidas e intensas mostraram que, mesmo sem títulos, é possível gostar de ver bom futebol. E, se dúvidas há se essa equipa pode ou não ser considerada bem-sucedida, não há dúvidas de que vê-los a jogar era um bom momento para qualquer apreciador do Desporto-Rei.

 

 

Fonte das imagens:
Dortmund campeão: https://www.bundesliga.com/en/bundesliga/news/borussia-dortmund-s-2012-title-winning-team-where-are-they-now-lewandowski-klopp-2779
Equipa inicial do Dortmund: https://twitter.com/goal/status/1134607993146707968/photo/1
Classificação do Grupo D da Liga dos Campeões: https://www.zerozero.pt/edition.php?id=47382
Festejo de Felipe Santana: http://globoesporte.globo.com/sc/noticia/2013/04/heroi-felipe-santana-diz-apostar-em-lewandowski-frente-ao-real-madrid.html
Celebração de Lewandowski: https://pt.uefa.com/uefachampionsleague/news/0208-0e9f606cd6a2-5bd531a7e5b6-1000/
Jurgen Klopp: https://www.bundesliga.com/es/noticias/champions-league-final-liga-alemana-2013-klopp-kroos-firmino-carvajal-480664.jsp

Fonte da imagem de capa: https://bvbbuzz.com/2020/03/31/borussia-dortmund-dramatic-2012-13-season-highs-lows/