Não há fome (futebolística) que não dê em fartura (de resultados)…

Imagine o leitor que, por algum contexto dramático, passa vários dias sem comer. Está fraco, mal se aguenta em pé, não irá resistir muito mais tempo. Subitamente, é-lhe apresentada alguma comida, mas não a mais saudável – comida processada, frita e envolta em molhos convidativos. Parece-me claro que não iria recusar a iguaria, de tão faminto que está! Pois bem, acontece precisamente o mesmo com o Sporting.

Nos últimos tempos, falou-se da suposta qualidade de jogo da equipa leonina. Nas dificuldades apresentadas nos jogos frente ao Gil Vicente e ao Santa Clara e no clássico frente ao Porto, no qual os dragões quase que poderiam alugar o seu meio-campo defensivo. Estas e outras partidas (menos recentes), mais desinspiradas e amorfas por parte do Sporting, mereceram reparos acerca da sua forma de jogar. Mas…nesta altura do campeonato, isso importará mesmo?

Para mim, o Sporting é o personagem faminto da minha metáfora inicial. Não está interessado na qualidade do que pode ingerir. Está interessado em ingerir apenas. Porque os seus rivais estão de barriga cheia, podendo dar-se ao luxo, muitas vezes, de escolher o prato que melhor lhes convém, alimentos mais caros e comida de maior qualidade. É necessário, pois, tirar a barriga de misérias. E os pupilos de Rúben Amorim estão a devorar o que lhes aparece à mesa.

De facto, e mais do que se questionar a qualidade de jogo verde e branco, talvez seja mais correto discutir a estética do seu jogo. Porque não me parece que o Sporting jogue mal (com franqueza, quem está invicto no campeonato terá mérito, e muito – à data, é o segundo melhor ataque e, de longe, a melhor defesa da prova). Podemos eventualmente admitir que jogue feio. Mas na estética, como na gastronomia, a subjetividade e a sensibilidade de cada um imperam. Quem pode acusar o Sporting de se querer alimentar de qualquer forma, faminto que está há 19 anos?

Posto isto, será justo estar sempre a olhar para aquilo que o Sporting tem no prato? No último clássico, por exemplo, foi o Sporting que se contentou em comer fast food ou, na verdade, foi o Porto que teve mais olhos que barriga? Não acho que competisse à equipa que tem clara vantagem pontual assumir o jogo e atacar desenfreadamente. Seria mais ajustado esperar esse comportamento de quem é perseguidor e pretende demostrar superioridade. E, com grande pragmatismo, a boa organização defensiva e grande capacidade de entreajuda da primeira sobrepôs-se às parcas e frouxas tentativas de agitar o jogo e concretizar oportunidades da segunda.

Podemos não ficar fascinados com o estilo de jogo sportinguista, que não produz festivais de jogadas ofensivas nem aplica estrondosas goleadas. Todavia, numa equipa jovem e nova (compare-se o onze base atual com os das últimas duas temporadas, por exemplo), com um treinador em ascensão e com ideias de jogo sólidas (era assim no Casa Pia, no Braga B, no Braga A e é assim no Sporting), e com a sequência de resultados – histórica para o clube – que tem superado qualquer adversidade, não é exequível colocar em causa o atual lugar na classificação.

Contrariamente aos seus rivais, o Sporting não tem habituação de vitórias; logo, não tenho termo de comparação com um Sporting idêntico ao atual. Não sei como se comportará no que resta da competição. Creio, contudo, ser evidente que este leão está mais próximo de matar a fome… seja qual for o cardápio, o importante é comer.

Fonte da imagem de capa: Maisfutebol – IOL