Curiosidades: Lutz Pfannenstiel, futebolista e cidadão do mundo

O futebol é verdadeiramente um fenómeno global, e não há quem tenha levado isso tão a sério quanto Lutz Pfannenstiel. O antigo guarda-redes alemão, a caminho do seu 48º aniversário no dia 12 de Maio, jogou por 25 clubes na sua carreira profissional, que terminou em 2011 após 20 anos, e por mais dois contando com as camadas jovens. O bávaro é o único jogador na história do futebol a representar clubes nas seis confederações de futebol.

A sua carreira começou no SC Zwiesel, o clube da sua terra natal, situada na fronteira com a República Checa. Em 1989, mudou-se para o Vilshofen, uma pequena cidade nas margens do Danúbio e 60 quilómetros a sul de Zwiesel. Em 1991, com apenas 18 anos, mudou-se para o Bad Kötzting, a 40 km de casa, e tornou-se profissional, sendo presença regular na equipa principal, apesar da tenra idade. Internacional sub-17 pela Alemanha, Pfannenstiel era um jovem muitíssimo promissor, e foi nesta altura que o Bayern de Munique começou a cortejar o talentoso Lutz. São estas ocasiões que fazem carreiras, independentemente da decisão, e Lutz, sabendo que muito provavelmente nunca viria a chegar à equipa principal ou a ser opção, descartou a hipótese e preferiu continuar a representar clubes modestos.

Entrou então na montanha-russa: em 1993, aos 20 anos, Pfannenstiel mudou-se para a Malásia, para representar o Penang. Um ano depois, foi lhe dada uma oportunidade de ouro para ter uma carreira digna do seu talento ao assinar pelo Wimbledon, na altura na recém-criada Premier League (e agora extinto, transformando-se no MK Dons e hoje com o AFC Wimbledon a tentar restaurar a glória do passado). Não fez nenhum jogo, e mudou-se para o Nottingham Forest, outro clube de Premier League, onde não jogou também. Em 1996/1997, ainda nos quadros do Forest, foi emprestado ao Orlando Pirates, da África do Sul. Em Janeiro de 1997, mudou-se para o Sembawang, em Singapura. Quatro meses depois, rumou ao TPV, em Tampere, no sul da Finlândia. Em Outubro, mudou-se para o Haka, em Valkeakoski, um pouco mais para o interior. Em Janeiro de 1998, foi emprestado ao Pallo-Kerho, em Iisalmi, ainda mais para o interior. Passou o ano no clube. Em Janeiro de 1999, terminando o seu contrato com o Haka, voltou à sua pátria-mãe e à Baviera para representar o Wacker Burghausen.

Em Outubro de 2000, Pfannenstiel voltou a Singapura, desta feita para representar o Geylang United. Até aqui a sua trajetória de carreira é no mínimo excêntrica, mas foi nesta passagem que ganhou um contorno mais negro: em Janeiro de 2001, a caminho do 30º aniversário, Pfannenstiel foi condenado a cinco meses de prisão por um “acordo verbal corrupto”. O guarda-redes foi acusado de aceitar um suborno para viciar resultados da sua equipa. Foi libertado três meses depois por falta de provas, e é uma acusação que até hoje nega e um episódio que o deixou marcado para a vida. Em entrevista ao Guardian, em Janeiro de 2015, afirmou que ainda tinha pesadelos sobre tal momento da sua vida. “Quando acordas e estás deitado ao pé de assassinos e violadores, sem sequer uma escova de dentes e papel higiénico, isso faz te reavaliar a tua vida. Percebi rapidamente que o futebol não era tudo”, acrescentou.

Em Abril de 2001, após a saída da prisão, Pfannenstiel mudou-se para a ilha sul da Nova Zelândia para representar o Dunedin Technical. Manteve-se vinculado ao clube até Janeiro de 2004: esteve por empréstimo no Bradford Park Avenue, em Inglaterra; no Huddersfield, também em Inglaterra; no Cham, perto da sua terra natal; de novo do Bradford PA; e no Baerum, junto a Oslo, capital da Noruega. A 26 de Dezembro de 2002, na sua segunda passagem pelo Bradford PA, Pfannenstiel colidiu com o atual avançado do Bradford City e internacional jamaicano Clayton Donaldson, na altura com 18 anos e ao serviço do Harrogate Town: o alemão parou de respirar e esteve morto três vezes, levando ao abandono da partida por parte do árbitro. Foi salvo pela respiração boca-a-boca do fisioterapeuta do Bradford PA, Ray Killick. Permaneceu em coma durante as horas seguintes. “Quando acordei no hospital, fiquei zangado porque estávamos a ganhar 2-0 e eu queria continuar sem sofrer golos e ganhar”, afirmou. Contra as recomendações médicas, voltou aos treinos na semana a seguir.

Após terminar o seu contrato com o Dunedin, Pfannenstiel rumou a Calgary, Canadá, em Abril de 2004, para representar os Mustangs, mas as saudades da Nova Zelândia, onde o guarda-redes considera ter voltado a sua paixão pelo jogo, fizeram-no regressar, agora ao Otago United, em Outubro. Em Julho de 2005, a sua estada tornou-se definitiva, e lá permaneceu até Março de 2006. A sua história de vida tem tanto de macabro como de bizarro e ligeiro: em Dunedin, Pfannenstiel, de acordo com a sua autobiografia (The Unstoppable Keeper, lançada em 2014) raptou um pinguim de uma colónia local e manteve-o na sua banheira até perceber que podia ser deportado se o mantivesse, devolvendo-o depois. Noutra ocasião, chegou a casa de um treino e deparou-se com o roubo de roupas, da carteira, e da sua Playstation. Recebeu uma dica de uma loja de penhores local, e encontrou o assaltante, que estava a usar a sua roupa, incluindo a sua própria camisola de jogo. “Eu fiz com que ele tirasse tudo, e o pessoal a ver ainda pensava que era eu o culpado”, acrescentou, também na sua entrevista ao Guardian.

Em Julho de 2006, Lutz rumou a Shköder, na Albânia, para jogar no Villaznia. Um ano depois, viajou para a Arménia para representar o Bentonit como treinador-jogador, clube entretanto extinto, e onde esteve um mês. Regressou à Noruega e ao Baerum em Agosto, para rapidamente regressar ao Canadá, para agora jogar nos Whitecaps (ainda fora da MLS), em Vancouver. Em Janeiro de 2008, o alemão de 34 anos viajou para o Brasil para jogar no Clube Atlético Hermann Aichinger, mais conhecido como Atlético Ibirama. Em Agosto, regressou à Noruega, para agora jogar no Flekkeroy, numa pequena ilha ao largo da cidade de Kristiansand, no sul: também acumulou funções de treinador de guarda-redes. Entretanto, também acumulou funções, durante um ano, enquanto treinador de guarda-redes da seleção cubana. Em Janeiro de 2009, mudou-se para Oslo, para representar o Manglerud Star, com as mesmas duas funções. De Outubro de 2009 até à sua retirada, em Julho de 2011, Pfannenstiel jogou no Ramblers, clube dos arredores de Windhoek, capital da Namíbia. Foi jogador, treinador, e diretor técnico do clube, e foi também treinador adjunto da seleção da Namíbia. Todas estas funções acumulou até 2010.

Já uma figura transcendente ao futebol, Pfannenstiel reconheceu bem o seu poder e o alcance daquilo que poderia transmitir: em 2010, fundou a organização não-governamental Global United FC, dedicada à consciencialização para questões ambientais e do aquecimento global através da organização de partidas de futebol e locais remotos e inóspitos, como na Antártida. O antigo guarda-redes chegou a passar uma semana num iglo. “Sempre mantive a ideia de que os futebolistas devem ser modelos a seguir. Este desporto é das poucas coisas verdadeiramente representativas no mundo. Ativistas ambientais provavelmente não chegarão a muita gente, mas se passares a mesma mensagem através do futebol, podes ligar o planeta inteiro”, reforçou ainda ao Guardian, em 2015.

Na última década, Pfannenstiel atingiu o estrelato no mundo do futebol não só através da sua organização, mas também enquanto diretor de scouting e de relações internacionais do Hoffenheim entre 2011 e 2018 e enquanto comentador televisivo em canais como a BBC, CNN e Eurosport. Entre 2019 e 2020 foi “managing director sports” do Fortuna Düsseldorf, e desde 2020 que é diretor desportivo do St. Louis City, clube que irá jogar na MLS a partir de 2023. Aquando da sua trajetória de carreira, Pfannenstiel esclareceu e concluiu: “Podem não acreditar em mim, mas foi tudo genuinamente por acaso: nunca pensei jogar em tantos lugares diferentes. Eu simplesmente não queria ser suplente do Oliver Kahn. Quando a oportunidade na Malásia surgiu, decidi aproveitar, mas o plano era regressar à Alemanha depois de acumular tempo de jogo. Estava errado! Se me garantissem 400 jogos por uma grande equipa alemã, títulos e internacionalizações, então trocava. Mas tens de ser realista. Alguma vez chegaria ao nível do Kahn e do Lehmann? Provavelmente iria ser segunda escolha num clube qualquer, jogava uns jogos e era titular em caso de lesão do titular. Trocaria a carreira que tive por isso? Claro que não.”

Fonte da imagem: Lutz Pfannenstiel