Como Joga: Arsenal 03/04 – Os Invencíveis

No início da temporada 2002/03, Arsène Wenger disse, numa conferência de imprensa, que “não é impossível passar uma época sem perder”. O técnico francês foi ridicularizado pelos ‘media’ britânicos pela sua “coragem”. O Arsenal acabaria a época 2002/03 em 2º lugar da Premier League, cinco pontos atrás do Manchester United de Alex Ferguson, com seis derrotas. Parecia que os ‘media’ tinham razão, que o que Wenger dizia ser possível, não passava de um absurdo que nunca ia acontecer no jogo moderno.

No entanto, logo na época a seguir, estes críticos das pretensões do francês seriam calados, uma vez que o Arsenal fez os 38 jogos da Premier League sem perder um único jogo. Um feito inesquecível que desde então já foi tentado por vários treinadores, mas nunca repetido. 

“P38, W26, D12, L0” é o que está escrito numa tarja no Emirates Stadium, seguido de outra que pergunta “Is yours gold?”, referindo-se ao troféu banhado em ouro que os londrinos ganharam com este feito. Isto mostra a importância daquela época para os Gooners (adeptos do Arsenal) ainda hoje. 

Mas, afinal, como jogava uma das melhores equipas de sempre da história da Premier League?

 

A Campanha na Premier League:

Como já disse anteriormente, esta foi uma temporada inesquecível para os Gunners: 38 jogos, 26 vitórias, 12 empates, 90 pontos, título da Premier League, melhor marcador do campeonato (por alguma distância), mas o feito mais importante: zero derrotas.

A época começou forte, com cinco vitórias em cinco jogos. Após um empate com o Manchester United, gerou-se controvérsia, uma vez que seis jogadores e o próprio clube foram multados pela FA (Federação Inglesa), depois de os jogadores confrontarem Ruud Van Nistelrooy. A multa recebida pelo clube foi mesmo, na altura, a maior alguma vez aplicada a um clube inglês. Voltaram as vitórias e também uma nova forma de encarar os jogos. Wenger era um treinador que gostava que as suas equipas jogassem ‘bonito’, com muitos passes e muitas combinações, mas apenas essa forma de ver o jogo impedia a equipa de recuperar resultados depois de estar a perder. No entanto, como dito por vários jornalistas e comentadores da altura, esta equipa tinha ganho uma nova forma de abordar os jogos e de se desligar da ideia do ‘futebol bonito’ quando estivesse a precisar de uma reviravolta e focar-se apenas em marcar, independentemente da forma como isso fosse acontecer.

Arsène Wenger considerava que o principal fator para este sucesso da equipa era a sua união, e o facto de aqueles jogadores e equipa técnica já trabalhavam juntos há alguns anos, podendo assim competir com a profundidade do plantel do Chelsea.

O Arsenal chegava assim em abril, ao derby do norte de Londres, frente ao Tottenham, sabendo que bastava um empate para ser campeão. Assim, os Gunners podiam vencer a Premier League no estádio do seu maior rival, pela segunda vez na história. O jogo começou bem para os arsenalistas, marcando dois golos na primeira parte. Na segunda parte o Tottenham marcou dois golos, empatando a partida. O Arsenal corria o perigo de perder a sua sequência invencível e a oportunidade de ganhar ali o campeonato, mas, o jogo acabaria empatado e o Arsenal acabaria por celebrar naquele dia a sua 13ª vitória da primeira divisão inglesa.

O Arsenal acabaria por não perder nenhum dos restantes jogos da época, ganhando um troféu da Premier League banhado em ouro (oferecido a Arsène Wenger na altura da sua saída do clube em 2018). Esta equipa não voltaria a perder nessa época.

Esta foi uma equipa que ficou 49 jogos seguidos sem perder na Premier League, perdendo apenas em Outubro de 2004, num controverso jogo contra o Manchester United, em que até comida foi atirada a Alex Ferguson no final do jogo.

A Equipa:

O mercado de transferências desta época para o Arsenal foi utilizado para colmatar a saída de David Seaman para o Manchester City e para preparar o futuro. Assim, entraram Jens Lehmann, Phillipe Senderos, Gael Clichy, Johan Djourou, Jose Antonio Reyes, Cesc Fabregas e Robin Van Persie.

O onze base desta equipa era então o seguinte:

A equipa que passou 49 jogos sem perder na Premier League entre 2003 e 2004.

GR: Jens Lehmann

DD: Lauren

DC: Kolo Touré

DC: Sol Campbell

DE: Ashley Cole

MD: Freddie Ljungberg

MC: Gilberto Silva

MC: Patrick Vieira

ME: Robert Pires

PL: Dennis Bergkamp

PL: Thierry Henry

 

O sistema:

Arsène Wenger gostava de jogar num 4-4-2 que se transformava num 4-4-1-1 ou num 4-3-3 em grande parte do jogo. A chave para este sistema estava nos contrastes das parcerias. No eixo da defesa Sol Campbell (antigo capitão do Tottenham) ficava mais atrás e Kolo Touré (um antigo médio defensivo) avançava mais no terreno, no meio campo Gilberto Silva protegia a linha defensiva, o que permitia a Patrick Vieira ocupar espaços mais avançados, e no ataque Bergkamp vinha atrás buscar jogo, permitindo a Thierry Henry encontrar espaços nas linhas defensivas dos adversários.

Sem bola esta equipa era uma equipa pressionante, mas não tanto como algumas equipas o fazem hoje. Os avançados Henry e Bergkamp pressionavam a linha defensiva do adversário e, quando a bola os ultrapassasse, o holandês recuava para o espaço entre linhas e Henry encostava à esquerda, preparando já um eventual contra ataque. Gilberto Silva já ficava mais atrás a proteger a linha da defesa, e Vieira pressionava nas laterais antes de regressar ao pivot. Os médios ala pressionavam caso fosse possível, com a ajuda de Vieira. A linha defensiva mantinha a sua forma, com a intenção de recuperar a bola em situações de um para um ou forçar os adversários a jogar com bolas longas e ativar a armadilha do fora de jogo que estava muito bem trabalhada, ou a permitir que Lehmann aliviasse os passes que surgissem com demasiada força, o que deixava a equipa pronta para partir para o contra ataque. A velocidade e os movimentos desta equipa eram avassaladores, o que a tornava tão perigosa.

Quando atacavam, Kolo Touré avançava no campo para oferecer linhas de passe aos restantes companheiros, Gilberto Silva recuava para buscar a bola, tal como Dennis Bergkamp. Os médios ala avançavam, o que transformava o sistema numa espécie de 4-3-3. Os laterais jogavam em posições avançadas do terreno, o que permitia a Ljungberg e Pires ocupar posições mais interiores, sem a equipa perder a largura. Patrick Vieira era o box-to-box, que tanto ajudava nas transições defensivas como conduzia a bola até às zonas de finalização.

Thierry Henry era o ponto focal do ataque do Arsenal, terminando a época com 30 golos e 13 assistências. Encostava à esquerda antes de fazer corridas brilhantes até à área, ou mantinha-se central para perfurar a defesa adversária. Não era só com bola que Henry era brilhante, uma vez que distraía os adversários com corridas que permitiam aos colegas entrar em zonas de finalização. A linha ofensiva do Arsenal (com Henry, Bergkamp, Pires e Ljungberg) era demasiado potente para os adversários, com a sua velocidade, movimentos, fluidez e criatividade. a linha de trás, com os médios e os laterais, faziam trocas regularmente, alterando o foco de ataque, dificultando as marcações adversárias.

Assim, esta equipa tinha uma identidade muito clara e muito bem trabalhada: o foco na velocidade, a capacidade de passe era extremamente importante em todos os jogadores e posições, as ocupações interiores por parte dos extremos, com os laterais a avançar no terreno e as movimentações fluídas da linha ofensiva. A este brilhantismo tático juntava-se a excelência dos jogadores que não só tinham capacidades tremendas, como tinham um entendimento fantástico do jogo.

Arsène Wenger fez aquilo que ninguém achava possível ser feito, tornando esta equipa uma das mais icónicas da história do futebol moderno.

 

Imagem: arsenal.com