Lembra-se de Carlos Roa, a “Alface” com uma carreira imprevisível

Carlos Roa foi um dos guarda-redes mais peculiares dos últimos anos. A religião e um cancro obrigaram o argentino a várias paragens numa carreira repleta de episódios inesperados. No “Lembra-se de” desta semana recordamos El Lechuga, o mítico guardião albiceleste.

Carlos Angél Roa nasceu em Santa Fé no dia 15 de agosto de 1969. Começou o percurso futebolístico no Gimnasia de Ciudadela como avançado. No entanto, foi aconselhado pelos amigos a apostar numa carreira debaixo das traves de forma a aproveitar a sua altura (1 ,92 m). Academicamente frequentou a Escola Adventista de Santa Fé, onde lhe foram introduzidas as bases da fé que, por várias vezes, influenciou a sua carreira.

Corria o ano de 1988 e, com 19 anos, Carlos Roa teve a oportunidade de se estrear pelo Racing, num encontro contra o River Plate. Ubaldo Fillol foi expulso e o ainda jovem guarda-redes teve a oportunidade de se estrear. Foi no Racing que Carlos Roa ganhou a alcunha El Lechuga (em português “A Alface”) devido ao estilo de vida vegetariano que adotara, em consonância com os ideais adventistas que seguia.

Carlos Roa ao serviço do Racing

Em 1990 a carreira de Carlos Roa sofreu o primeiro resvés. O Racing fez uma viagem de pré-temporada por África e antes da viagem vacinou toda a equipa contra a malária, doença que afeta o continente africano com particular intensidade. No entanto, e ainda que posteriormente tenha negado a influência da religião na decisão, Carlos Roa recusou-se a tomar a vacina, seguindo a orientação da religião adventista que só em 2015 lançou um comunicado no qual incentivava a vacinação. Sem qualquer imunização, após a viagem o guarda-redes teve de ser internado com malária, mas meses depois voltou a defender as redes do Racing.

A inauguração da Igreja Adventista em Avellaneda, cidade onde joga o Racing, no decorrer do ano de 1992 aumentou a proximidade de Roa aos princípios da sua religião. De facto, o guarda-redes seguia à risca os princípios adventistas com exceção de um: não poder trabalhar aos sábados. Tal exceção teve impacto na carreira de Roa uns anos mais tarde, mas já nesta altura era responsável por vários conflitos pessoais.

Conflitos com a direção e o surgimento de Ignacio Gonzalez como jovem promessa levaram à saída de Carlos Roa para o Lanús. A transferência revoltou vários adeptos do Racing que viram um dos maiores ídolos do clube mudar-se para um clube que lutava pelos mesmos objetivos. O Lanús era um clube historicamente muito menos desenvolvido que o Racing; porém, estava num trajeto de ascensão e Roa aceitou um novo projeto.

Carlos Roa ao serviço do Lanús

O clube atravessou durante alguns anos alguma instabilidade, mas Carlos Roa foi sempre um destaque do Lanús. E o reconhecimento das boas exibições chegou em 1997, com dois momentos importantes da vida do guarda-redes. Em abril de 1997 o guarda-redes estreou-se pela seleção argentina e nesse mesmo ano jogou a Copa América. Após dois jogos como suplente, Roa foi titular no último jogo da fase de grupos e na chocante eliminação contra o Peru. Todavia, não obstante a eliminação, o guarda-redes garantiu a titularidade nos jogos seguintes ao serviço da seleção albiceleste e assegurou também uma transferência para a Europa.

Héctor Cúper trocou o Lanús pelo Mallorca, e como ele levou vários jogadores, entre os quais Carlos Roa, dando início à fase áurea do clube espanhol. Logo no primeiro ano o clube alcançou o quinto lugar na Liga Espanhola, à data a melhor posição de sempre. Foi também no ano de 1998 que Carlos Roa viveu o capítulo mais bonito ao serviço da seleção argentina.

Carlos Roa ao serviço do Mallorca

Uma lesão no final da época desportiva pôs em risco a presença de Carlos Roa no Mundial de 1998. Carlos Roa fechou-se num retiro espiritual, dedicou grande parte do tempo a orações e recuperou a tempo de jogar a maior competição de seleções do mundo. A recuperação foi mais rápida do que o que muitos projetavam e Roa ainda conseguiu disputar a final da Copa do Rei contra o Barcelona. O guarda-redes fez uma partida muito boa com várias defesas espetaculares e que levaram a equipa às grandes penalidades. Nas primeiras cinco tentativas defendeu os penaltis batidos por Rivaldo e Albert Celades. A última das cinco tentativas que cada clube tem foi efetuada pelo próprio Carlos Roa, que voltou aos tempos em que jogava como avançado e levou a cobrança à morte súbita. Logo após ter marcado a sua grande penalidade, Roa defendeu o penalti de Figo e colocou o Mallorca com uma mão na taça. Poderia ter sido um capítulo memorável na história de Carlos Roa, mas Stankovic perdeu a hipótese de assegurar o título e Eskurza foi o carrasco do clube balnear ao falhar o penalti que foi decisivo.

Apesar de sair derrotado, Carlos Roa chegou ao mundial com a moral em altas e foi um pilar na boa campanha da Argentina, numa fase de grupos onde não sofreu um único golo. Nos oitavos de final fez mais uma grande exibição. Após um empate a dois golos com Inglaterra, Carlos Roa foi herói na disputa de penaltis, defendendo os remates de Paul Ince e David Batty e apurando a seleção albiceleste para os quartos de final. No entanto, Roa foi incapaz de travar a seleção holandesa que contou com um endiabrado Bergkamp.

Carlos Roa ao serviço da seleção argentina

A época de 98/99 foi a melhor época do Mallorca e teve em Carlos Roa um dos principais destaques. Começou com a vitória na Supertaça Espanhola contra o Barcelona. 3-1 foi o resultado da vingança contra o Barcelona e o primeiro título de sempre da Ensaimada Mecanica. Na Taça das Taças o Mallorca chegou à final, mas perdeu a chance de conquistar mais um título após uma derrota por 2-1 contra a Lazio. No campeonato, o clube da ilha balnear ultrapassou a marca registada na época transata e terminou no terceiro lugar, até hoje a melhor classificação de sempre registada pelo clube espanhol.

Roa ganhou o Troféu Zamora atribuído ao guarda-redes com menos golos sofridos no campeonato espanhol numa temporada. As boas temporadas em Espanha atraíram o interesse dos grandes tubarões do futebol europeu, entre eles o Manchester United que procurava um novo guarda-redes que substituísse Schmeichel, e várias fontes apontam para propostas entre os 10 e os 22 milhões de euros pelo guarda-redes. No entanto, El Lechuga surpreendeu toda a gente quando, com apenas 29 anos, recusou a transferência para Old Trafford e anunciou a retirada do futebol.

A sua fé teve na base da decisão. Já foram referidos os vários conflitos do guardião argentino com o facto de jogar aos sábados. A religião já tinha sido enaltecida pelo próprio dentro de campo, quando usou a camisola com o número “1.3”, em referência a Jesus e à Santíssima Trindade.

Carlos Roa com a camisola com o número “1.3”

No entanto, o timing da decisão (temporada 1999/2000) não foi por acaso. A mudança de milénio veio acompanhada de várias teorias da conspiração e previsões do fim do mundo. Também a igreja adventista pregava o fim do mundo em 2000, e muitas pessoas suspeitam que o isolamento de Roa num campo na argentina, onde permaneceu por quase um ano afastado do mundo, teve relacionado com o pensamento de que o mundo acabaria. O próprio nunca confirmou esta história, referindo que “o que eu vou fazer de agora em diante é mais importante do que aquilo que eu tenho feito.  Fiquei muito feliz em jogar futebol, mas estou à procura de coisas melhores. (…). A questão do sábado, o sétimo dia, é a principal razão pela qual eu estou a deixar o futebol profissional. Para o povo de Deus e para aqueles que respeitam a Sua palavra, este é um dia muito especial, e futebol não permite que eu faça o que devo fazer nesse dia”.

Em relação à proposta do Manchester United, Carlos Roa em entrevista referiu que “Hoje em dia acredito que foi uma boa decisão do ponto de vista espiritual. Mas de um ponto de vista desportivo não foi.”.

A época desportiva do Mallorca, sem Cúper (que saíra para o Valencia) e Roa (durante a maioria da temporada), foi fraca quando comparada com as duas temporadas anteriores, mas ficou marcada pelo regresso de El Lechuga aos relvados. Em abril de 2000, menos de um ano após ter pendurado as botas e as luvas, Roa anunciou que iria voltar ao Mallorca para cumprir o contrato, com uma diferença importante a nível pessoal: deixou de jogar entre o pôr do sol de sexta-feira e de sábado, de forma a cumprir os princípios que seguia.

A ausência de quase um ano, os jogos em que devido ao dia da semana era desfalque e a perda do grande nível exibicional levaram à condição de suplente de Carlos Roa na “segunda” passagem pelo Mallorca. Em 2002 terminou o contrato e chegou a ser cogitado pelo Arsenal, mas tomou uma nova decisão surpreendente e assinou pelo Albacete. Na segunda divisão o guardião argentino encontrou mais flexibilidade nos horários para evitar jogos aos sábados. As duas épocas no clube espanhol foram também de nível elevado, conseguindo a subida à primeira divisão espanhola na primeira e a manutenção nesta na segunda temporada.

Carlos Roa ao serviço do Albacete

No entanto, no ano de 2004 a carreira de Carlos Roa teve de ser novamente interrompida devido a um cancro nos testículos. Durante um ano teve de fazer quimioterapia e reabilitação sem ter qualquer apoio do clube espanhol que representava. Quando recuperou totalmente estava sem contrato e treinava em clubes de divisões inferiores no panorama espanhola. Muitos acharam que a terceira paragem na carreira seria definitiva, mas por mais uma vez Carlos Roa surpreendeu tudo e todos, regressando à Argentina para representar o Olimpo.

Passou dois anos no clube, já afastado dos grandes palcos e em 2006 pendurou de vez as luvas e abandonou o futebol profissional. Desde então é treinador de guarda-redes e atualmente treina no San José Eartquakes.

Três paragens e a enorme ligação entre o futebol e a religião marcaram a carreira de El Lechuga. Quer pelas defesas extraordinárias quer pelas decisões pouco ortodoxas será para sempre recordado pelos adeptos do futebol.

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