SC Praiense 2020/21: Erguer, lutar e trabalhar para poder sonhar

Para o SC Praiense, o desenlace da temporada passada teve contornos de pesadelo. A não subida de divisão para a 2ª Liga, para além de agravar a situação financeira do clube, trouxe problemas com o principal investidor e ainda implicou a saída da direção, equipa técnica e jogadores. Nas ruas da amargura, os encarnados da Praia, com 73 anos de (uma bonita) história, encontravam-se sem direção, sem equipa técnica e sem jogadores a poucos meses do início de uma nova temporada. Não fosse o Praiense feito de trabalho, superação e muita vontade e, quem sabe, este ano, as camisolas vermelhas e brancas da Praia da Vitória não entrariam em campo.

Um grupo de homens, liderados por Roberto Andrade, uniu-se para impedir que tal situação acontecesse. Para além da resolução de muitas outras questões, prendia-se talvez a mais importante, a escolha da equipa técnica. Da parte da SAD, Pedro Lomba (que se iria estrear no Campeonato de Portugal) foi o escolhido para ser o treinador da equipa principal dos encarnados e com ele trouxe o seu adjunto, João Abel Cruz. Pedro Costa (Caneco), treinador nascido e criado na Praia da Vitória, entra pela mão da direção do clube (como confirmou o próprio no podcast “A essência do futebol” de Simão Fonseca e Samuel Martins); junta-se ainda o treinador de guarda-redes, Tiago Cerqueira. Coube a esta equipa técnica a difícil tarefa de criar, de raiz, todo um plantel para a época que, na altura, se avizinhava.

Fig.1 – Pedro Costa (esquerda) e Pedro Lomba (direita).

A criação deste plantel foi assumida como um dos momentos mais árduos da temporada, pois, para além do duro trabalho de análise de centenas de jogadores, também há que ter em conta a delicada questão financeira do clube e a vontade dos jogadores para virem jogar na ilha. Não obstante, o Praiense conseguiu construir um plantel forte, não a nível quantitativo, mas sobretudo a nível qualitativo. É certo que a equipa da Praia da Vitória, comparando com algumas equipas da sua série, até poderia não ter nomes tão sonantes, mas há algo neste plantel que, a meu ver, tem de ser muito valorizado e respeitado, é que, para além de ser um conjunto de jogadores extremamente jovem, todos eles são bastantes polivalentes e estão dispostos a jogarem em posições às quais não estão habituados em prol do bem da equipa. Isto também está relacionado com a ideia de jogo que os treinadores defendem, mas já lá vamos. Para concluir esta ideia, apenas referir que vários jogadores ocuparam diversas posições ao longo da época, por exemplo Rúben Freire, que jogou a lateral esquerdo, médio centro, médio ofensivo e ponta de lança.

Fig.2 – Com 4 golos, Rúben Freire é um dos melhores marcadores da equipa.

Passando agora para a ideia de jogo, o Praiense, por norma, atua num 3-5-2. Pratica um futebol bastante atrativo, como confere quem vê os jogos da equipa, quem comenta em órgãos de comunicação social da região e como admite quem defronta esta equipa, apesar de que esta ideia de “futebol atrativo” possa variar de pessoa para pessoa. Quando entra em campo, o Praiense procura ser uma equipa ousada e praticar um futebol de ataque. Independentemente do adversário, a formação encarnada joga para ter a bola na sua posse, para efetuar uma pressão alta e intensa, sente-se confortável quer a explorar o jogo interior, quer o exterior, é também uma equipa muito móvel, na medida em que qualquer jogador pode aparecer em zonas de finalização, ou seja, para quem é apreciador de futebol apoiado, futebol “de pé para pé”, futebol intenso, esta equipa da Praia da Vitória é, sem dúvida, uma excelente equipa para se acompanhar. Recordo-me do primeiro jogo que acompanhei do Praiense esta época, o Estrela da Amadora vs Praiense, e, apesar da diferença na tabela (na altura, a equipa da casa estava em segundo e os visitantes em sexto), os insulares praticaram, sobretudo na primeira parte, um futebol bastante positivo, a querer ter bola e a sair (e bem) a jogar desde trás, chegando com qualidade a zonas de finalização.

Fig.3 – Estádio Municipal da Praia da Vitória é dos poucos recintos em Portugal que já pode levar adeptos.

Passando agora para aquilo que foi este campeonato, o Praiense começou de uma forma, no mínimo, lenta. Nos cinco primeiros jogos, os encarnados registaram quatro empates e uma derrota. Um início pouco entusiasmante, mas esperado, tendo em conta a recém-chegada da equipa técnica e dos jogadores. Seguiram-se depois as duas primeiras vitórias, que antecederam aquele que, na opinião de Pedro Lomba, foram os momentos mais difíceis da época. Depois duas vitórias, duas derrotas, uma foi a tal, frente ao Estrela da Amadora, fora de portas e, também fora, a derrota no dérbi da Praia da Vitória, contra o GD Fontinhas. Seguiu-se a paragem do campeonato para o natal e, consequentemente, a preparação para os próximos jogos, em cima de duas derrotas. Pelos vistos, a preparação foi bem feita, visto que o Praiense partiu para uma segunda volta memorável.

 

Antes de recordar a última jornada do campeonato, relembro como funcionou esta edição do Campeonato de Portugal. Na Série G, onde militava o SC Praiense, o primeiro classificado defronta três primeiros classificados de outras séries, em seis jogos, e, caso fique novamente em primeiro, sobe à Segunda Liga, e, caso não consiga esse lugar, garante um lugar na nova Liga 3; o segundo e o terceiro jogam contra o quarto e o quinto de outra série, num minicampeonato de seis jogos entre si,  quem ficar nos dois primeiros têm direito a um espaço na Liga 3, quem ficar no último e penúltimo regressa ao Campeonato de Portugal; também num minicampeonato, o quarto e o quinto jogam frente ao segundo e terceiro de outra série, com o mesmo desfecho referido anteriormente; do sexto ao oitavo, garantem a manutenção no Campeonato de Portugal e, por fim, do nono ao último, descem aos distritais.

Fig. 4 – Sporting B e Praiense são duas das equipas da Série G que lutam pela subida à Liga3.

 

Antes de entrar em campo na derradeira e última jornada, o SC Praiense encontrava-se em sexto e, consequentemente, fora dos lugares que dão oportunidade de lutar pelo acesso à Liga 3, com os mesmos pontos que o GF Fontinhas, que estava em quinto, e com menos dois pontos que o Real SC (4º classificado). O Praiense jogava em casa com o B SAD B, que lutava pela permanência, o GD Fontinhas recebia o Oriental Dragon (com o 3º lugar garantido) e o Real SC defrontava o Sporting CP B (2º classificado). Na Praia da Vitória, os da casa despacharam o B SAD B, por 4-0; nas Fontinhas, um golo no último minuto de Breno Freitas, deu os três pontos para os rubro negros; em Massamá, não houve golos, o que resultou num 0-0. As três equipas finalizaram a prova com 32 pontos, no entanto, no confronto direto entre as três formações, Praiense e Real tinham vantagem e, como consequência disso, ocuparam os dois lugares que garantem um lugar nos play-offs de acesso à Liga 3.

Com uma equipa técnica acabada de chegar ao clube, com um plantel repleto de jogadores que carregavam pela primeira vez o símbolo do Praiense ao peito e em sérias dificuldades financeiras (que, infelizmente, ainda não estão totalmente resolvidas), a equipa da Praia da Vitória havia superado as expectativas e conseguido um lugar que permite continuar a sonhar. Seguem-se seis jogos (três em casa e três fora) contra Real SC, SC Olhanense e Amora FC.

Apenas em tom de conclusão, gostaria de, enquanto praiense, citar uma frase de Fernando Pessoa: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.” Agora, para os decisivos e difíceis play-offs que se avizinham, nunca deixem de sonhar, porque enquanto, todos juntos, sonharmos, é sinal que estamos vivos, se estamos vivos, é sinal que pudemos lutar e o resto nós já sabemos bem, “…nós vamos à luta, que ninguém nos vence”. É difícil pedir mais a quem nos deu o que nem nós esperávamos, por isso, continuem a escrever mais uma bonita página na história do nosso clube.

 

Fonte das imagens: Facebook de Mário Picanço Ataíde e de Jedgardo Vieira.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.