Históricos: Manchester City vs Sporting CP 11/12 – “Money can’t buy history”

Nesta edição do “Históricos” vamos relembrar uma das melhores performances do Sporting nas competições Europeias – quando foram a Manchester jogar olhos-nos-olhos contra o campeão inglês.

No dia 8 de Março de 2012, o Sporting recebeu o Manchester City, nos 16avos da Liga Europa 11/12. Era de esperar que o clube Sportinguista – que já tinha trocado de treinadores e se encontrava na quarta posição no campeonato – perdesse contra o futuro campeão Inglês, que tinha acabado de dominar o Porto. No entanto, não foi isso que aconteceu. Os Leões conseguiram um golo surpresa no início da segunda parte, através do mítico calcanhar do central emprestado Xandão e defenderam com tudo o que tinham e não tinham, segurando a vitória depois dos 90 minutos. Agora, iam até Inglaterra tentar defender a pequena vantagem, contra uma equipa com um orçamento a quintuplicar o dos Sportinguistas. Será que conseguiriam garantir uma noite europeia para ficar na história?

A equipa caseira apresentava-se com um 4-4-2 – Joe Hart na baliza, Kolarov e Micah Richards nas alas, Kolo Touré e um jovem conhecido como Stefan Savic a centrais. No meio campo, David Silva e o encarcerado Adam Johnson atuavam como extremos, enquanto Yaya Touré e David Pizarro seguravam o meio campo. Na frente, o prodígio Mario Balotelli e a lenda do Man City Sergio Aguero eram as ameaças principais à baliza dos Leões.

Por sua vez, o Sporting de Sá Pinto começou com Rui Patrício na baliza, Insúa e Pereirinha – no lugar do lesionado João Pereira – nas alas, com o capitão Polga e o herói do calcanhar, Xandão, a defenderem a área verde e branca. No meio campo, Carriço e Schaars focaram-se maioritariamente em tentar impedir a força atacante dos Citizens. Na frente de ataque, o corredor Diego Capel fazia a ala esquerda, enquanto que o “czar” Marat Izmailov jogava na direita. Por fim, Matias Fernandez fazia a posição de 10 atrás do mal-amado Ricky Van Wolfswinkel.

11 inicial do Manchester City para esta partida
11 inicial do Sporting CP para esta partida

O Sporting demonstrou logo as suas intenções, quando aos, aos 15 segundos, uma bola longa acabou nos pés de Schaars, que rematou de primeira à entrada da área, a sair por cima da baliza de Joe Hart. 

Rapidamente deu para perceber o plano do Sporting – usar o centro do campo, especialmente o duplo pivot de Carriço e Schaars para segurar a pressão adversária, procurar recuperar a bola o mais rápido possível e movê-la para áreas laterais, onde os extremos e alas conseguiriam meter bolas na área para o avançado holandês Ricky Van Wolfswinkel. De notar também a forma como David Silva e Adam Johnson foram atacados – normalmente, com o extremo oposto a defender o lado de fora, enquanto que que o lateral defendia as tentativas de ambos cortarem para dentro. Foi um método que funcionou na perfeição durante a primeira parte, com ambos os jogadores a passarem completamente ao lado da partida, Johnson especialmente a ser “secado” pelo trabalho defensivo em conjunto de Insúa e Capel.

Matias Fernandez mostrou toda a sua qualidade ao passar por 3 jogadores do City, entrar para dentro e rematar com o pé direito. A bola foi desviada para canto e na bola parada que se sucedeu, Xandão quase voltou a assombrar os Ingleses, depois de bater Kolo Touré no ar. Infelizmente para os Leões, a bola passou ao lado do poste esquerdo, sem perigo para a baliza de Joe Hart.

Aos 10 minutos, foi a vez dos Citizens de assustarem – uma boa bola longa de Pizarro permitiu a que David Silva se desmarcasse, depois de uma má abordagem de Pereirinha. No entanto, o remate de primeira de Adam Johnson passou ao lado esquerdo da baliza. Aos 13 minutos Yaya Touré empurrou Matias Fernandez pelas costas, levando assim o primeiro amarelo do jogo.

Aos 18 minutos, Matías Fernandez recebe a bola de calcanhar e mete um túnel, de primeira, em Savic, antes de cair na área – o árbitro mandou o lance seguir, mas é de notar a excelente técnica do mago chileno. 

De notar que, perto dos 25 minutos, Matías Fernández bateu um livre, da mesma maneira que bateu o livre mítico que viria a dar a liderança ao Sporting. Desta vez, no entanto, Joe Hart defendeu com facilidade – o remate foi demasiado longo para assustar verdadeiramente o internacional inglês. 

Na metade da primeira parte, Izmailov foi até à linha e cruzou para trás, direitinho aos pés de Matías Fernández. O número 14 dominou a bola, virou o corpo pela direita e Pizarro fez falta sobre o chileno. Há um claro contacto sobre o leão, mas o árbitro Tom Hagen não concordou, com o médio ofensivo do Sporting a ver o amarelo por alegada simulação.

Aos 32 minutos, Insúa fez uma boa corrida no espaço interior da esquerda e foi empurrado por Balotelli, ganhando assim uma falta perigosa para o Sporting. Matigol, como é conhecido, preparou a bola, deu 10 passos para trás, fez uma pequena corrida e rematou com a força de uma nação inteira. A bola curvou a barreira do Manchester City e foi demasiado potente para o guardião dos Citizens conseguir segurar. Um excelente livre, do melhor jogador do Sporting até ao momento, a coroar uma exibição sem medo por parte dos Leões no Etihad, que já vinham a merecer abrir o marcador. Manchester City (0) 0 – 1 (2) Sporting CP – Matías Fernández, 33’

Matias Fernández celebra o seu golo de livre

Claramente afetados pelo golo, os jogadores do Manchester City continuaram a tentar atacar a baliza Sportinguista, mas sem grande medo – o único remate a sair de uma série de bolas tensas para a área, de Yaya Touré, a passar muito por cima da baliza de Rui Patrício.

Ao minuto 40, apenas se ouviam fãs do Sporting no Etihad – uma maré azul completamente calada, sem conseguir processar a partida dos “pequeninos” do estrangeiro. Mas, se os fãs do City já se encontravam em choque, estavam prestes a sofrer ainda mais. Matias Fernández, mais uma vez, conseguiu recuperar uma bola perdida no meio campo e ganhou mais uma falta. 

Ao início, parecia que Anderson Polga iria aproveitar a falta do colega para acalmar o ritmo do jogo, especialmente tendo em conta a reação do Manchester City ao golo sofrido. 

No entanto, o central Brasileiro viu a desmarcação de Izmailov e lançou um passe longo, com força, na ala direita, para o extremo Russo. Kolarov consegue chegar a tempo para cortar, mas Pereirinha reage rápido o suficiente para chegar ao ressalto antes de David Silva, lançando Izmailov no contra-ataque quase instantaneamente. O russo conseguiu ganhar a posição e lançou um cruzamento tenso, rasteiro, perfeito para Ricky Van Wolfswinkel fazer o 0-2 de baliza aberta. 

O holandês apareceu atrás da defesa adversária, completamente livre, fugindo às marcações tanto de Savic como de Kolo Touré através de um movimento simples, mas eficaz. 

E, de repente, os Leões encontravam-se a desmantelar, peça por peça, os Sheikhs de Inglaterra. Manchester City (0) 0 – 2 (3) Sporting CP – Ricky Van Wolfswinkel, 40’

Ricky Van Wolfswinkel e Diego Capel festejam o segundo golo dos Leões

O espelho da performance dos Citizens deu-se no minuto 42, quando Pizarro, completamente livre e face à pressão muito fraca de Wolfswinkel, consegue passar diretamente para o avançado holandês. Uma coisa era clara – o Manchester City não estava a conseguir lidar com o resultado.

No intervalo, Roberto Mancini retirou Adam Johnson – claramente um jogador a menos, muito por culpa da jaula defensiva em que foi posto por Sá Pinto – para dar lugar à entrada de Nigel de Jong. O médio Holandês ficava assim a ocupar a posição de médio defensivo, com Pizarro e Touré a subirem ligeiramente no meio campo e Balotelli a ocupar o lugar anteriormente pertencente a Adam Johnson, mudando assim a tática dos Citizens para um 4-3-3.

Claramente frustrado com a falta de criação de chances mesmo depois da subida de Yaya Touré e Pizarro, Mancini retirou este último aos 55 minutos pelo avançado bósnio Edin Dzeko – que tinha afirmado antes da primeira mão não conhecer um único jogador do Sporting. Com a entrada do avançado, a formação dos Citizens começou a parecer algo semelhante a um 4-2-3-1 – com Dzeko no meio, Balotelli e Aguero nas alas e David Silva como o 10 que vinha atrás pegar na bola – enquanto Nigel de Jong defendia o meio campo, cobrindo as corridas para a frente de Yaya Touré.

E a chegada do Bósnio acabou por ter um efeito enorme no ataque dos Citizens – vinha muitas vezes recuperar a bola ao meio campo, agindo quase como um falso nove e procurava combinar com Aguero, Balotelli e Yaya. Aliás, é depois de uma boa recuperação de bola de Dzeko que surge o 1-2. Insúa recupera a bola de um mau passe do internacional da Bósnia e tenta seguir com a bola. Esta é interceptada por Dzeko e no lance que se segue, Yaya Touré aproveitou o meio-espaço livre na direita, combinou com Micah Richards antes de lançar um excelente cruzamento para a área, onde Aguero se encontrava completamente livre. O “Kun” dominou a bola com classe e finalizou no canto superior esquerdo, sem hipótese para Rui Patrício. E, de repente, o Manchester City estava de volta ao jogo. Manchester City (1) 1 – 2 (3) Sporting CP – Sergio Aguero, 60’

Talvez como reação ao golo sofrido, a equipa dos Leões começou a fechar-se mais defensivamente – abandonando a pressão no meio-campo, deixando o City ter bola e procurando simplesmente defender em bloco baixo, perto da área. De certa forma, a razão pela qual o Sporting tinha conseguido ameaçar a equipa do City durante tanto tempo tinha sido a excelente pressão que tinha exercido – especialmente nas alas – do clube de Manchester. Fechando as linhas desta forma poderia parecer a jogada mais segura, até porque seria difícil manter a mesma pressão com pernas cansadas – mas a verdade é que relançou o City para uma partida da qual estavam quase fora.

Como tal, sentindo a necessidade de refrescar as alas e o meio-campo, Sá Pinto lançou o talentoso mas lesionado crónico Jeffren por Capel e Renato Neto por Matías Fernández – o melhor jogador da partida – como forma de tentar trazer alguma solidez defensiva ao miolo, através da marcação forte nas corridas de Yaya Touré, que estavam a causar problemas graves à defesa Sportinguista.

Por sua vez, Mancini gastou a sua última substituição aos 65 minutos, substituindo David Silva por mais uma superestrela – desta vez o vencedor do prémio de Melhor Jogador Francês da época passada – Samir Nasri, de forma a procurar os golos que a sua equipa rapidamente necessitava.

Aos 67 minutos, Carrillo entrou para o lugar de Ricky Van Wolfswinkel, com o Sporting a mudar para uma tática que se parecia mais com um 4-4-2 – Carrillo e Jeffren partiam das alas para o centro, procurando chegar a bolas lançadas na profundidade, enquanto que o mais cansado Izmailov e o recém-entrado Renato Neto ficavam mais atrás, quase agindo como extremos defensivos, cujo objetivo principal era ajudar os alas contrários a defender. Esta mudança provou-se crucial quase instantaneamente, quando Izmailov fez um excelente corte de carrinho, no último segundo, para impedir um cruzamento perigoso de Kolarov.

Mesmo assim, o City continuou a pressionar e aos 74 minutos Aguero aproveitou uma bola perdida no meio-espaço da direita – a área através da qual os Citizens tinham marcado o seu primeiro na partida – controlou a bola e entrou dentro da área, onde foi derrubado por uma entrada insensata e fora de tempo por parte do recém-entrado Renato Neto. Seria complicado para o Manchester City voltar ao jogo sem ser através de uma bola parada, e agora tinham uma chance de ouro. Balotelli lançou-se e finalizou a sangue frio – uma excelente simulação de corpo, que deixou Rui Patrício completamente pregado ao chão, antes de finalizar com calma, rasteiro, para o canto direito da baliza. Manchester City (2) 2 – 2 (3) Sporting CP – Mario Balotelli, 75’

Balotelli bate o penalty que empatou a partida

A partida estava de novo relançada e o Sporting iria ter de fazer tudo para segurar a vantagem que tinha – ainda podiam sofrer um golo, mas a vantagem era mínima e era importante aguentar o maior tempo possível sem sofrer.

A tarefa dificultou-se ainda mais quando Bruno Pereirinha caiu, pouco tempo depois do segundo dos Citizens e pareceu ter-se lesionado gravemente no ombro. O polivalente do Sporting voltou a campo, mas nunca voltaria a estar a 100%, no resto da partida. De qualquer das maneiras, a vontade de jogar lesionado apenas demonstra a raça dos Leões, que se recusaram a sair do Etihad sem lutarem até ao fim.

A 10 minutos do fim, Aguero ganhou o duelo a Izmailov e ao lesionado Pereirinha, conseguindo um canto para a equipa do Manchester City. Kolarov bateu, Dzeko subiu ao terceiro andar e cabeceou para baixo – onde Aguero se encontrava no sítio certo, à hora certa para finalizar de primeira. E a “remontada” dos Citizens parecia cada vez mais inevitável. Manchester City (3) 3 – 2 (3*) Sporting CP – Sergio Aguero, 83’

Sergio Aguero aparece ao segundo poste para completar a reviravolta, mas o City ainda precisava de mais um golo para passar

O Manchester City continuou a subir as suas linhas de forma a procurar o golo que precisava, e aos 84 minutos Kolarov conseguiu um excelente cruzamento de primeira – teleguiado a Edin Dzeko. Mas, se calhar, nem Dzeko estava à espera que o cruzamento do Sérvio fosse tão bom – com o cabeceamento a sair inofensivo, por cima da baliza de Rui Patrício. 

O jogo ficou uma pilha de nervos até ao fim, com o clube Leonino a defender mais com o coração do que com a cabeça e o City cada vez mais perigoso – mais um bom cruzamento de Kolarov que encontrou a cabeça de Balotelli, com a cabeçada do italiano a tirar tinta ao poste. 

A este ponto da partida, o Sporting já tinha a equipa quase toda dentro e à volta da sua área, a dar o tudo por tudo para conseguir segurar a vitória por golos fora.

Os ânimos continuaram exaltados e Balotelli – que já tinha tentado discutir com Rui Patrício e rematado uma bola contra Pereirinha enquanto o lateral do Sporting estava no chão, aproveitou mais uma oportunidade para demonstrar a cabeça (ou falta desta) que impediu que desse o salto, ao ir gritar com Xandão depois deste ser pontapeado na cabeça por Micah Richards, criando assim mais uma discussão – onde tanto Balotelli como Polga viram cartolina amarela.

Numa das jogadas mais marcantes do final da partida, o substituto Jeffren mostrou toda a luta que se pedia aos jogadores do Sporting, quando recebeu a bola na direita, correu para junto da bandeirola de canto e, mesmo com a dupla pressão de Kolarov e De Jong, consegue uma boa finta para se livrar dos adversários, antes de conseguir a falta e mais uns segundos preciosos para o clube da capital.

E, aos 90+5, deu-se um dos momentos mais emblemáticos da história recente do Sporting. Algo que qualquer pessoa – independentemente de clube que apoie – que tenha visto nunca irá esquecer, um dos maiores mitos do Sporting na década a que pertenceu. 

Aleksandar Kolarov ganhou um canto que ele próprio foi bater.

A bola foi cortada ao primeiro poste por Xandão e sobrou para Nigel de Jong.

O médio defensivo Holandês estava completamente livre à entrada da área e apontou um cruzamento final para o segundo poste. 

No segundo poste encontrava-se o guarda-redes Inglês Joe Hart, que tinha sido ordenado a subir para o último lance por parte de Mancini.

O guardião vence o duelo físico com Carriço – que já se encontrava claramente esgotado no fim da partida.

Sozinho, guarda-redes contra guarda-redes, o inglês cabeceia no um para um… e Rui Patrício defende, com a ponta da mão, desviando a bola só o suficiente para esta passar ao lado da sua baliza.

O árbitro apita logo para o fim da partida.

No placard do Etihad Stadium, podia-se ler…

“Manchester City (3) 3 – 2 (3*) Sporting CP

Sporting CP are through in away goals”

Contra tudo e contra todos, o Sporting conseguiu eliminar um clube que, na eliminatória passada, tinha eliminado o dominante Porto por 6-1. Um clube que viria a ser campeão da Premier League, neste mesmo ano, também de uma forma dramática. Uma verdadeira história de David contra Golias, onde jogadores como Dzeko e Balotelli podiam até receber mais que o banco inteiro do Sporting – mas que não conseguiam pagar o seu dinheiro em lágrimas, suor e sangue.

O Sporting continuaria a sua campanha histórica até às semifinais, onde depois de vencer o Metalist defrontou o Athletic Club de Marcelo Bielsa – que acabaria por eliminá-los com um golo tardio de Fernando Llorente na segunda mão. 

De qualquer das maneiras, este jogo ficará sempre vivo nas memórias dos Sportinguistas, como uma prova de que, quando o clube está apto para isso, consegue lutar com os melhores da Europa e do Mundo.

Fonte da Imagem: A Tasca do Cherba

Nuno Tavares

No dia 15 de Março de 2012 tive o prazer de ver o Sporting a eliminar o Manchester City e pensei "isto do futebol é giro, gosto". A partir daí nunca mais consegui parar. Sportinguista (e Borusse) de nascença. Fã de Futebol Alemão e Espanhol. Licenciatura em Ciências da Comunicação no ISMAI.