As reações adversas à Superliga

Foi ontem confirmada a criação da Superliga e as reações não poderiam ser mais negativas. Da maioria dos adeptos, passando por entidades ligadas ao futebol, por clubes de menor dimensão no cenário europeu e até mesmo líderes mundiais já se expressaram sobre a nova competição que promete gerar conflitos e tensões no mundo do futebol.

Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Chelsea, Arsenal, Tottenham, Juventus, Milan e Inter de Milão serão os países fundadores desta nova competição, aos quais se juntaram outros três. Ao núcleo forte de 15 clubes, e de acordo com o comunicado oficial,  juntar-se-ão outros cinco clubes que passarão por um processo de qualificação. Os 20 clubes serão divididos em dois grupos, que disputarão os jogos num sistema de fase de grupos que, de acordo com o projeto, serão disputados de forma a garantir a presença destes clubes em competições domésticas. Os três primeiros classificados de cada grupo serão apurados automaticamente para os quartos de final e as quatro equipas que terminarem na quarta ou quinta posição jogarão um play-off a duas mãos para apurar as restantes duas equipas. Nas restantes fases serão realizados dois jogos, com exceção da final que, como habitual, será um jogo único em campo neutro.

No entanto, tal competição tem gerado bastantes reações adversas por parte de vários setores ligados ou não ao futebol.

Organismos oficiais como a UEFA ou a FIFA já se pronunciaram contra esta ideia, garantindo que os jogadores que disputem esta competição ficarão impedidos de jogar pelas seleções, posição reiterada por todas as confederações. Ceferin, presidente da UEFA tem feito bastantes críticas aos donos e proprietários dos 12 clubes fundadores, referindo-se a Agnelli (Juventus), Woodward (Manchester United) e Gazidis (Milan) como “cobras” e “mentirosos”. Com Agnelli, presidente da Juventus e um dos nomes que se tem manifestado mais a favor da Superliga, a relação está a ser particularmente tensa. Se antes de toda a polémica ambos tinham uma boa relação, que levou Agnelli a convidar Ceferin para ser o padrinho da filha, neste momento Rummenigge (Bayern de Munique) já foi anunciado como substituto de Agnelli no comité executivo da UEFA e, segundo conta Ceferin, o italiano ligou-lhe no sábado para suportar as reformas na Champions League e, posteriormente, desligou o telefone.

A Associação Europeia de Clubes (ECA) também já se colocou ao lado da UEFA e manifestou a sua posição contrária à Superliga. Como consequência, o presidente da Juventus já abandonou a presidência da ECA, sendo substituído por Nasser Al-Khelaïfi (PSG). Juventus e Manchester United também já abandonaram a associação e é expectável que os restantes clubes o façam nos próximos dias.

As diversas Federações e Ligas Nacionais também já se pronunciaram sobre a Superliga, manifestando-se contra tal decisão. A Federação Alemã, por exemplo, manifestou-se contra, tomando uma posição semelhante a clubes como o Bayern de Munique ou o Borussia Dortmund e, no Twitter, o Borussia Monchengladbach reforçou a posição dizendo que todos os clubes da Alemanha estão contra a Superliga, desmentindo assim alguns rumores sobre a participação do Bayern ou do Leipzig.

Pedro Proença, presidente da Liga Portuguesa de Futebol, também já expressou o seu desagrado perante esta nova competição, reforçando que “A hipótese da criação de uma Superliga europeia, pensada e desenhada por uma pequena elite com intenções exclusivas, é algo a que nos continuaremos a opor frontalmente. Uma insanidade que colocaria em causa todos os alicerces fundamentais em que o futebol sempre se desenvolve.”. Posição de repulsa e oposição foi também adotada por Porto, Benfica e Sporting.

A política internacional também já se expressou sobre esta nova competição, manifestando desagrado. O comissário europeu Margaritis Schinas já deu a conhcer a posição da União Europeia, reforçando que esta é contra competições reservadas a ricos e poderosos e que a UE “deve defender um modelo europeu de desporto baseado na diversidade e na inclusão”. Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, colocou-se ao lado da UEFA, garantindo que “os planos para uma Superliga europeia seriam muito prejudiciais para o futebol.”. Já o presidente francês, Emanuel Macron, congratulou os clubes do seu país por não aderirem a tal ideia: “O Presidente da República saúda a postura dos clubes franceses, que recusaram participar num projeto que ameaça o princípio da solidariedade e mérito desportivos.”.

As redes sociais também fervilharam após o anúncio e uma fotografia com a tarja “Created by the poor, stolen by the rich” foi partilhada vezes sem conta. Também vários clubes, jogadores ou ex-jogadores se pronunciaram sobre o assunto.

Bacary Sagna escreveu que não voltará a assistir a um futebol que não conhece mais. Luís Figo referiu-se à Superliga como uma “Tragédia” e Daniel Podence, numa publicação partilhada em diversas redes sociais mencionou diversos momentos do futebol que não podem ser comprados, publicação entretanto repostada por Bruno Fernandes e João Cancelo.

Mesut Ozil, um dos jogadores que mais se pronuncia sobre temas paralelos ao futebol, apoiando várias causas, mencionou posições partilhadas por milhares de adeptos, defendendo que as crianças crescem a sonhar com a Liga dos Campeões e com o Mundial e que estes jogos são especiais por serem raros, algo que terminaria com a Superliga, posição entretanto partilhada por Richarlison. Já Ander Herrera referiu que o seu amor pelo futebol veio de ver o seu clube batalhar entre os maiores, reforçando que acredita numa melhoria da Liga dos Campeões, mas ressaltando que os ricos não podem roubar o que o povo criou.

Na Sky, Gary Neville mostrou-se profundamente revoltado com tal modelo de competição, expressando palavras fortes sobre o assunto: Estou especialmente dececionado com o Manchester United e o Liverpool. Querem juntar-se a uma competição sem se qualificar e da qual não podem ser despromovidos? É uma vergonha. Temos de combater o poder destes clubes no país, e isso inclui o meu, o United, de que sou adepto há 40 anos. (…) O Manchester United, Arsenal, Tottenham nem sequer estão na Liga dos Campeões! E querem ter direito a estar lá? É uma brincadeira. É preciso haver reguladores independentes para evitar que estes clubes tenham tanto poder. Já chega! (…) Tirem-lhes os pontos, ponham-nos no fundo da tabela, tirem-lhes o dinheiro. É um ato criminoso contra os adeptos.”.

Já McGinn, médio do Aston Villa, sugeriu que os seis clubes ingleses fundadores da Superliga passassem a ser tratados pelos nomes do famoso jogo “Pro Evolution Soccer”.

Muitos clubes também reagiram com desagrado e ironia perante a situação. O Spartak de Moscovo publicou várias fotografias dos adeptos com mensagens sobre a importância do público para o futebol. Com humor, convidou também os adeptos dos 12 clubes fundadores da Superliga a apoiarem o clube russo.

O Crawley Town comentou uma publicação do Arsenal, repudiando a decisão do clube londrino de se juntar à Superliga. Já o Leganés numa publicação rejeitou a participação do clube na Superliga e pediu para não insistirem com o clube que se queria focar na partida contra o Ponferradina.

O Real Bétis foi outro clube que reagiu de forma cómica à decisão de Atlético de Madrid, Real Madrid e Barcelona e à possibilidade de estes ficarem impedidos de participar nas competições domésticas. Assim, no site oficial do clube o clube removeu os três clubes acima citados da tabela da La Liga, operando uma remodelação na tabela da competição.

Fonte da imagem: Twitter @B24PT

Por fim, uma das reações mais peculiares veio da Irlanda. O Bray Wanderers salientou que não fariam parte de qualquer tipo de Superliga e depois ridicularizou o facto do Tottenham, não tendo qualquer título da Premier League, fazer parte do lote dos clubes mais poderosos da Europa. Posteriormente, e após a saída de José Mourinho, identificou a conta dos Spurs e garantiu que era só uma piada.

Nos próximos tempos muito se ouvirá falar de uma competição que veio colocar adeptos, jogadores e clubes contra as elites que pretendem modificar o mundo do futebol.

 

Fonte da imagem de capa: Twitter @B24PT