Quem te viu e quem te vê… Mario Balotelli

Balotelli foi uma das personagens do futebol na última década pelos ocasionais rasgos de qualidade, mas principalmente pelas polémicas fora de campo. O início foi prometedor, mas não conseguiu alcançar todo o potencial que lhe era atribuído. Por onde anda Super Mario nos dias de hoje?

Mario Balotelli nasceu a 12 de agosto de 1990 em Palermo, na Itália. Nasceu numa família humilde e desde cedo lidou com vários problemas numa vida atribulada. Aos três anos foi diagnosticado com uma complicação intestinal que vinha associada a bastante risco de vida. Sem meios financeiros para sustentar o tratamento, os pais de Mario foram obrigados a entregá-lo para adoção.

Silvia e Francesco Balotelli acolheram Mario que continuou a ter contacto com a família biológica aos fins de semana. Durante vários anos manteve contacto com os pais e os irmãos biológicos, mas as dificuldades da família biológica em atender financeiramente às necessidades sociais e de saúde de Mario Balotelli obrigaram à adoção permanente.

Aos 11 anos e apesar das complicações de saúde, Mario Balotelli começou a jogar no Lumezzane. Nas camadas jovens Balotelli destacava-se, chegando mesmo a fazer captações no Barcelona. No entanto, a mudança não se efetuou e, com apenas 15 anos já fazia parte da equipa principal do Lumezzane.

Atento ao potencial demonstrado pelo avançado italiano, o Inter de Milão adquiriu o passe de Balotelli em 2006, quando o avançado ainda tinha 16 anos. Após uma época na base, Balotelli estreou-se pela equipa principal do Inter em 2007. Começou por mostrar toda a qualidade nos jogos da Taça de Itália e o primeiro golo no campeonato surgiu em abril de 2008.

A passagem de Balotelli pelo Inter de Milão foi prometedora, mas esteve sempre envolta em polémicas, problemas de compromisso e em insultos racistas vindos das bancadas, problema que esteve presente durante grande parte da carreira de Balotelli. A chegada de José Mourinho e a consequente maior exigência do técnico português chocaram com a falta de compromisso do avançado italiano nos treinos, chegando mesmo a ser afastado destes.

Fonte da imagem: Twitter @CuriosidadesEu

Uma das histórias mais conhecidas da carreira de Balotelli data de um jogo contra o Rubin Kazan. À entrada para a partida todos os avançados exceto Mario Balotelli estavam lesionados e aos 42 minutos da partida o italiano recebeu um cartão amarelo. Segundo conta José Mourinho, 14 minutos do intervalo foram passados a falar com Balotelli e sobre a importância de este se conter para evitar receber mais um cartão, visto que não havia mais avançados disponíveis para entrar. Balotelli ouviu as palavras do técnico português calado, mas aos 60 minutos foi expulso. Outro episódio mais tenso durante a passagem de Super Mario pelo Inter sucedeu-se quando este apareceu num programa de televisão com a camisola do Milan, o eterno rival do clube que representava. Após este episódio os adeptos nerazzurri que antes adoravam Balotelli começaram a pedir a saída deste. Esta saída viria a concretizar-se no final da época 2009-2010 – a época da famosa Tríplice Coroa, que também contou com a participação de Mario Balotelli. No período em Milão, Balotelli realizou 86 jogos e marcou 28 golos.

A mudança deu-se pela mão de Roberto Mancini, técnico que orientara o italiano no Inter e que queria ver a irreverência e qualidade de Balotelli no Manchester City. A transferência realizou-se em 2010 e 29 milhões foi quanto custou o italiano que, no mesmo ano, ganhou o prémio “Golden Boy”, atribuído ao melhor jogador com menos de 21 anos a atuar na Europa. Ao receber o prémio, Balotelli mostrou mais uma vez o grande ego que possuía, afirmando “Só há um jogador ligeiramente mais forte que eu: Messi. Todos os outros estão atrás de mim.”. A autoconfiança do italiano era enorme e durante o período passado em Manchester por várias vezes usou a expressão “dom divino” para se referir ao seu talento, afirmando também que era perseguido pela imprensa. Outra característica que ficou bem evidente aquando da sua passagem pelo Manchester City foi o seu caráter temperamental que dava origem a bastantes expulsões. A frequência das expulsões era tão elevada que a certa altura o italiano foi multado em duas semanas de salário. Como consequência, Balotelli colocou o clube em tribunal para contestar a multa.

Três episódios mediáticos marcam também a passagem do italiano pelo clube inglês, todos em 2011. Em março num jogo a contar pela Liga Europa contra o Dínamo de Kiev, o jogador viu o seu vídeo no qual não conseguia colocar o colete a tornar-se viral, num episódio que diz muito sobre a personalidade do jogador, não pela dificuldade em vestir o colete, mas pela atitude dentro de campo. Após sucessivas tentativas falhadas, teve de ser um dos treinadores adjuntos a ajudar Balotelli a vestir o colete, que passado pouco tempo retirou, visivelmente irritado. O jogador italiano entrou em campo chateado e aos 36 minutos foi expulso, numa altura em que já contabilizava uma oportunidade flagrante desperdiçada. O Dínamo de Kiev viria a vencer o jogo e a eliminar a equipa de Mario Balotelli. No dia 22 de outubro desse mesmo ano, Balotelli alegadamente incendiou a própria casa. O próprio afirmou que ele não teve conhecimento de nada e que a culpa foi de um amigo, mas o que é certo é que fogo de artifício soltado na casa de banhao foi a causa do incêndio. No dia seguinte o Manchester City enfrentou o Manchester United no dérbi da cidade e conseguiu um resultado bastante expressivo: 6-1. Balotelli foi autor de dois golos e a celebração de um deles ficará para sempre na memória dos adeptos. O italiano levantou a camisola do Manchester City, revelando outra camisola onde era possível ler “Why Always Me”, como resposta às várias polémicas em que se via envolvido.

Fonte da imagem: Twitter @SkySports

No meio da passagem pelo Manchester City, Mario Balotelli teve o jogo da sua vida e o melhor momento com a camisola da sua seleção. No Europeu 2012 a seleção italiana foi vice-campeã e teve em Balotelli o principal responsável pela vitória sobre a Alemanha nas meias finais. O jogo terminou com a vitória de Itália por 2-1 e ambos os golos foram marcados por Super Mario. Um cabeceamento irrepreensível e um remate potentíssimo na primeira parte deram tranquilidade à seleção italiana para gerir o jogo e chegar à final onde foi goleada pela seleção espanhola.

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A meio da época 2012/2013 o italiano foi emprestado ao Milan, curiosamente o clube que originou uma das maiores polémicas vividas por Balotelli em Itália. Durante meia época o avançado marcou 12 golos em 13 partidas, fazendo grandes exibições que convenceram o clube italiano a despender 20 milhões de euros em Mario Balotelli. No entanto, após meia época excelente, o italiano não conseguiu repetir nem as exibições nem os números e na época seguinte na Serie A em 30 jogos marcou 14 golos e viu por 12 vezes cartões a punirem as suas faltas dentro de campo.

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Não convencido com a irregularidade de Balotelli, o Milan vendeu Balotelli ao Liverpool pelo mesmo preço que tinha gasto na compra. Corria o ano de 2014 e o Liverpool acabara de perder Luis Suaréz e precisava de um substituto à altura… que Balotelli não foi. Foi considerado pelos adeptos como a pior contratação da época e os quatro golos em todas as competições foram inferiores ao que era esperado. Terminou a época sem ser convocado e regressou ao Milan por empréstimo dos reds, mas em Itália viveu mais uma época em que desiludiu tudo e todos. Durante todo o empréstimo marcou apenas um golo e saiu a custo zero no fim da temporada.

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Em 2016, Balotelli viu a sua travessia pelos grandes do futebol europeu terminada e assinou pelo Nice. No clube francês, Balotelli fez duas épocas de grande nível, ajudando o clube a chegar a competições europeias, marcando vários golos e chegando mesmo a ser cogitado para regressar à seleção. Saiu a meio da época 2018/19, na qual novamente voltara ao fraco nível exibicional, mas permaneceu em França, ingressando no Olympique de Marseille, onde apenas permaneceu meia temporada.

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Começou a época seguinte no Brescia, onde viveu um dos episódios de racismo mais graves de toda a carreira. Por todos os clubes em que passou Balotelli foi vítima de insultos racistas frequentes, principalmente vindo por parte de adeptos adversários. No entanto, neste caso foi o próprio presidente a referir-se ao avançado italiano com as seguintes palavras “Ele é negro e está a trabalhar para se clarear, mas está a ter problemas.” Posteriormente o clube italiano justificou-se referindo que a declaração tinha sido mal interpretada e que tinha tido o objetivo de aliviar a pressão sobre o jogador. Numa temporada em que o Brescia desceu de divisão Balotelli marcou cinco golos, mas foram as polémicas que se destacaram.

Hoje o avançado representa o Monza, clube que pertence a Silvio Berlusconni e que luta pela subida ao escalão maior do futebol italiano. Ao lado de Kevin-Prince Boateng e de Dany Mota, o italiano tem oito jogos e dois golos marcados, numa temporada em que tem atravessado por lesões. Com apenas 30 anos ainda se esperam mais algumas temporadas de Balotelli antes da reforma, e a subida à Serie A poderá ser mais um incentivo à carreira do italiano marcada por polémicas, mas também pelo envolvimento em projetos solidários.

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As polémicas extracampo foram particularmente noticiadas, dando uma imagem parcialmente errada de Balotelli fora dos relvados. Isto porque o italiano participa em bastantes projetos de solidariedade. Em 2014 o italiano apadrinhou um projeto social denominado Arte e Lavoro, mantido por italianos no bairro de Mata Escuro em Salvador, na Bahia. Este projeto em solo brasileiro pretende dar a oportunidade a jovens carenciados de tirarem cursos de arte para se inserirem no mercado de trabalho. Também no Brasil esteve ligado a um projeto de energia solar em Bahia. Fora do território brasileiro, Balotelli também participou ativamente num trabalho de reabilitação na associação Casa do Sol em Itália e forneceu dinheiro para a construção de uma escola no Sudão. As contribuições para os Médicos Sem Fronteiras e a voz ativa na luta contra o racismo são outros exemplos de uma face menos conhecida do italiano, que faz valer o seu protagonismo e visibilidade para apoiar causas sociais.

Amado por uns e odiado por outros, o ego enorme e a falta de compromisso impediram Balotelli de ter uma carreira ao nível da qualidade apresentada esporadicamente.

Fonte da imagem de capa: Twitter @ESPNBrasil