Opinião: O Futebol são as pessoas!

A última semana foi, seguramente, uma das mais atribuladas de sempre no mundo do futebol. 12 multimilionários decidiram que sabiam mais do que todos e desenvolveram um projeto para a criação de uma Superliga Europeia. Esta competição seria formada por 20 clubes, a competir em duas ligas de 10 equipas cada, sendo que os quatro primeiros de cada liga competiriam na fase seguinte que seria semelhante ao atual formato dos quartos de final das competições europeias. Ou seja, uma espécie de NBA no futebol europeu. O mais interessante desta competição maioritariamente organizada pelo Presidente do Real Madrid, é que aqueles 12 clubes (mais três que ainda estavam por entrar na competição) teriam lugar na competição todos os anos, independentemente dos seus resultados nas competições nacionais ou mesmo da sua performance na Superliga no ano anterior, portanto um atentado à meritocracia existente na pirâmide do futebol, impedindo a existência de milagres como o do Leicester em 15/16, ou do Ajax em 18/19, ou do Porto em 2004. No fundo, os multimilionários, donos destes 12 clubes, encontraram uma forma de não ter de investir tanto na equipa, garantindo que o seu negócio recebe sempre o mesmo dinheiro das transmissões televisivas.

Portanto, 15 equipas estão lá todos os anos e as outras cinco vão mudando “de acordo com performances desportivas” e “em concordância com a UEFA”, sendo que ninguém sabe bem quais são os critérios para esta qualificação e a concordância com a UEFA vem de um homem (Florentino Pérez) que se fartou de atacar a UEFA nas entrevistas que deu.

Estas entrevistas têm bastante que se lhe digam, desde a forma como Pérez insiste em dizer que os jovens já não vêem nem se interessam por futebol, à crença arrogante (como se ele fosse a “última bolacha do pacote”) de que ao fazer isto estaria a salvar o futebol. Foram duas entrevistas de um absurdo total que só mostraram o real objetivo da criação desta liga: fazer dinheiro. O presidente do Real Madrid (que seria também o presidente desta Superliga) falou várias vezes de que acha impensável que os “maiores clubes” percam dinheiro, enquanto que os restantes o ganhem. Mas se calhar esqueceu-se que esses clubes não gastam às centenas de milhões num jogador, nem vão buscar ‘camiões’ de adolescentes brasileiros por 40 milhões cada, à procura do próximo Neymar ou do próximo Ronaldo ‘Fenómeno’. Todos os clubes sofreram com a pandemia, isso é garantido, todos perderam dinheiro. Mas, todos vão voltar a ganhar dinheiro quando os adeptos regressarem aos estádios. O Real Madrid foi, durante anos, a maior marca futebolística do mundo. Nos últimos anos, com o domínio das equipas inglesas e com a transferência de Cristiano Ronaldo para a Juventus, os madrilenos perderam este poder. Não se souberam adaptar, cometeram erros amadores no mercado de transferências e sofreram com o domínio inglês. A liga espanhola perdeu muita relevância, comparando com aquela que chegou a ter há uns anos, o que também aconteceu devido ao domínio das equipas como o Real Madrid e o Barcelona, que não permitem sequer aos outros clubes sonhar. 

Mas, como disse no título deste artigo, o futebol são as pessoas e os grandes heróis desta história. A Superliga foi anunciada ao final da noite de domingo, mas no final da noite de terça-feira estava praticamente dissolvida. Um movimento enorme nas redes sociais contra esta nova competição levou a protestos, começando com os adeptos do Liverpool e do Leeds a vaiar o autocarro dos ‘Reds’ na chegada a Elland Road. Os jogadores e os treinadores começaram a manifestar-se, incluindo James Milner que disse que “não gosto, nem quero que aconteça”, Pep Guardiola (treinador de um dos 12 clubes) que disse que “o desporto não é desporto se perder não fizer diferença”, e os jogadores do Leeds que no aquecimento para o jogo, usaram camisolas com o símbolo da Liga dos Campeões com as frases “Earn it” e “Football is for the fans”. No dia seguinte, terça-feira, o Chelsea recebeu o Brighton em Stamford Bridge, mas a entrada do autocarro também foi complicada. Os adeptos dos ‘Blues’ juntaram-se às centenas (algumas pessoas só viram 40) nos portões do estádio, e gritaram e cantaram até as suas vozes terem sido ouvidas. Apareceu Petr Cech, antigo jogador do Chelsea e atual diretor técnico da equipa. O antigo guarda-redes pediu calma aos adeptos e que dessem tempo ao clube.

Nos minutos que se seguiram, surgiram notícias de que o Chelsea estava a preparar a documentação necessária para abandonar o projeto da Superliga, o que levou à euforia dos adeptos que começaram a celebrar e permitiram a entrada do autocarro da equipa. Depois destes rumores começaram a surgir ainda mais rumores de que os restantes clubes ingleses também estavam a começar a ter dúvidas no projeto e que se estavam a preparar para sair do projeto. O Manchester City foi o primeiro clube a oficializar as suas intenções, lançando um comunicado a garantir que estavam a iniciar o processo de saída deste projeto. Por volta das 11 da noite os restantes clubes ingleses (menos o Chelsea que ainda estava a preparar o comunicado) oficializaram a sua posição. Ainda nessa noite, mais alguns clubes da Superliga saíram do projeto.

Foi uma vitória importante para os adeptos que perceberam que têm uma voz no mundo do futebol. O caminho ainda é longo, mas esta união, esta força de vontade, têm de se manter para lutar contra a corrupção e as tentativas de retirar os princípios de meritocracia do futebol. Vai ser uma luta longa, mas que tem de ser lutada para continuar a garantir que o futebol é dos adeptos.

Florentino Pérez (Real Madrid), Joan Laporta (Barcelona), Enrique Cerezo (Atlético Madrid), Andrea Agnelli (Juventus), Ivan Gazidis (AC Milan), Steven Zhang (Internazionale), Stan Kroenke (Arsenal), Joel Glazer (Man. United), Roman Abramovich (Chelsea), Daniel Levy (Spurs), Sheik Mansour (Man. City) e John W Henry (Liverpool). Que nunca nos esqueçamos destes 12 homens, que tentaram destruir o futebol como nós o conhecemos para seu proveito financeiro, e que seja suficiente para começarmos a exigir mais daqueles que governam os nossos clubes.

 

Imagem: Twitter @Goal