Como joga… RB Salzburg 2013/14

Fruto da aposta num projeto desportivo, sobretudo direcionado para um público mais jovem, o grupo Red Bull tem expandido a sua rede de equipas de futebol nos últimos anos. Desde a franquia nova-iorquina da MLS, passando pelo atual caso de sucesso em Leipzig, na Bundesliga alemã, até à recente aquisição em Bragança Paulista, com o RB Bragantino, na série A brasileira.

No entanto, destacamos hoje a versão original do grupo – RB Salzburg. Foi na segunda metade da primeira década do novo século que a empresa, sediada precisamente na Áustria, resolveu investir no falido SV Salzburg, transformando-o num projeto desportivo vencedor e, sobretudo, sustentável. Quer apostando em campanhas de marketing e merchandizing fortíssimas, envolvendo a cidade e a região nos objetivos do clube, quer reciclando todo o paradigma da formação, na captação, retenção e evolução do talento – local e oriundo de mercados periféricos –, reunido na sua moderníssima academia.

Na temporada que aqui destacamos, os Bulls nem começaram bem (falhando a presença na Liga dos Campeões) mas, do ponto de vista dos resultados, das exibições, da valorização de ativos e das conquistas, 2013/14 foi extremamente frutífera na história do clube.

Os resultados

Foram 56 jogos oficiais, com 40 vitórias, oito empates e oito derrotas, 175 golos marcados e 49 golos sofridos. Ganhou tranquilamente o campeonato austríaco e a copa nacional.

Em 14 jogos europeus nessa época, perdeu somente dois – frente ao Fenerbahçe (1-3, após empate a uma bola no primeiro jogo, que os afastou da Champions) e ao Basileia (1-2 na segunda mão, que os eliminou da Liga Europa, nos oitavos-de-final). No entanto, após uma fase de grupos 100% vitoriosa, nos 16 avos-de-final despachou o Ajax com um expressivo 6-1 no agregado do confronto, ganhando os dois jogos (3-1 e 3-0).

Nas provas nacionais, tal como no presente, naquela temporada o clube não tinha qualquer rival à sua altura. Conquistaram o título de campeão a cinco jornadas do fim (num total de 36), terminando com mais 18 pontos que o segundo classificado. Tiveram o melhor ataque da prova (110 golos, mais 42 golos que a segunda melhor produção ofensiva), mas também a melhor defesa (35 golos encaixados). E, não fossem os compromissos europeus e algum relaxamento no final, as quatro derrotas nos últimos desafios do campeonato (em seis no total) dificilmente teriam acontecido. Na Taça, basta sublinhar que o score nos últimos três jogos, que foram 6-0, 7-0 e 4-2…

Outro dado impressionante são as duas enormes sequências de jogos sem perder: 19 jogos, entre a já aludida derrota frente ao Fener e um jogo frente ao Rapid Wien, no início do último terço do campeonato; e 16 jogos, desde esta derrota até à eliminação frente ao Basel. Aliás, entre meados de julho, aquando do primeiro jogo oficial, e início de novembro, apenas uma derrota (frente aos turcos).

A equipa

Um autêntico rolo compressor! O RB Salzburg foi uma máquina de fazer golos. Em 56 partidas, só ficou em branco em três, sendo que em 56% das mesmas marcou pelo menos três golos… A equipa aliava frescura física, explicada pela juventude (média de idades de 24 anos) e potência dos seus jogadores, com uma boa dose de criatividade e improviso.

Assente num 4-4-2 clássico (mas que em campo assemelhava-se a um 4-2-4 ou, muitas vezes, um 2-4-4), a equipa rapidamente acercava-se da área adversária: dois laterais muito ofensivos, o austríaco Ulmer pela esquerda, e o suíço Schwegler ou o também austríaco Klein na direita, que apareciam muito mais no último terço contrário, dando muita largura ao jogo; dois extremos, que funcionavam maioritariamente como avançados soltos, o esloveno Kampl e um rapaz senegalês, um tal de Sadio Mané (sendo que jogaram muito o irreverente kosovar Berisha e possante Dusan Svento, eslovaco que também podia jogar a lateral); uma dupla no miolo, com função mais pendular, com mais músculo – Ilsanker e Leitgeb, quase sempre; e dois pontas-de-lança, especialmente letais nessa temporada – o brasileiro Alan e o espanhol Soriano –, na qual ambos apresentaram o seu melhor registo de golos das suas carreiras, com 37 e 48 tentos respetivamente.

Talvez o principal senão da equipa tenha sido precisamente esta vertigem pela baliza contrária. De facto, algum equilíbrio tático e maior frieza na tomada de decisão poderiam ter permitido, por exemplo, maior fortuna nos jogos com o Basileia (os suíços mais calculistas aproveitaram alguma imaturidade competitiva dos jovens Bulls).

O mentor desta equipa foi o alemão Roger Schmidt. Com uma carreira discreta como jogador e com um início de carreira de treinador mais modesto, foi um pouco surpreendente a sua escolha da parte da cúpula do futebol do clube, na altura liderada por Gérard Houllier, para orientar a equipa. Após um primeiro ano de experiências (com eliminação precoce na Europa, mas com o habitual título austríaco) com números banais, a resposta dada pelos jogadores às ideias ofensivas do treinador na época seguinte confirmou o acerto na sua contratação.

O que fica desta equipa?

Bom, do ponto de vista coletivo, ficamos com um futebol atrativo e ofensivo, fruto da falta de timidez dos seus jogadores, sobretudo do meio-campo para a frente. Estas características, aliás, estão presentes no ADN do clube, manifestado desde cedo nos escalões de formação.

A nível individual destacamos os avançados Alan e Soriano (com um percurso semelhante, primeiro na Áustria, onde ficaram mais uma temporada, faturando mais umas dezenas de golos, e depois no futebol chinês, onde o dinheiro seguramente falou mais alto); o médio Kevin Kampl, que saiu para o Borussia Dortmund, evoluindo depois no Bayer Leverkusen e no RB Leipzig; o jovem Valentino Lázaro, austríaco descendente de angolanos, que foi revelado nesta temporada e que atualmente é titular no Borussia Monchengladbach; o médio centro Stefan Ilsanker, também transferido para o futebol alemão (hoje, no Frankfurt); e a estrela maior, Sadio Mané, que brilha no Liverpool e é um dos grandes talentos do futebol africano e mundial. Todos estes jogadores treinados por Schmidt, cujo sucesso também o levou à Alemanha, para orientar o Bayer Leverkusen durante vários anos – hoje em dia trabalha no PSV.

 

Fonte da imagem de capa: Red Bull