Quem te viu e quem te vê: Joe Hart

No Quem te viu e quem te vê desta semana, viramos as atenções para Joe Hart, um antigo guardião titular indiscutível do Man. City e da seleção inglesa que, desde que Pep Guardiola assumiu o comando técnico dos cityzens, nunca mais se conseguiu afirmar na Premier League.

Joe Hart começou o seu percurso futebolístico no modesto clube da sua cidade, o Shrewsbury Town, estreando-se na temporada 2003/04, altura em que se tinha apenas 15 anos de idade. Assumindo-se como o guarda-redes titular da equipa dois anos depois, já com 18 anos, Hart foi um nome indiscutível do Shrewsbury em 2005/06, na altura militante na Football League Two, a quarta divisão do futebol inglês, participando em 50 partidas pelo clube.

Apesar de um rácio de golos sofridos que, à partida, parece pouco impressionante, com mais de um golo sofrido por jogo, Joe Hart conseguiu surpreendeu o selecionador sub-19 inglês com as suas exibições, sendo convocado para os trabalhos da seleção em outubro de 2005, despertando a cobiça de vários clubes da Premier League, com destaque para o Manchester City, que enviou olheiros para Shrewsbury para observar as prestações do jovem guarda-redes.

Joe Hart a atuar pelo Shrewsbury Town, em 2005

No dia 22 de maio de 2006, Joe Hart transferiu-se diretamente do quarto escalão para o topo do futebol inglês. O Manchester City, conhecido interessado na promessa inglesa, pagou cerca de 600 mil libras para contar com o guarda-redes, na altura de apenas 19 anos. Focado em desenvolver o jogador, o Man. City (que, nesta altura, era uma equipa de meia-tabela da Premier League) emprestou Joe Hart, em janeiro de 2007, ao Tranmere Rovers (participante na terceira divisão inglesa), mas o guardião teve dificuldades em se impôr no clube, participando em apenas seis jogos e permanecendo um mês no clube. Em abril desse ano, seguiu-se um novo empréstimo à Football League One, desta vez para o Blackpool, onde Hart participou em apenas cinco jogos, mas destacou-se ao não ter sofrido qualquer tento nessas partidas, ajudando a sua equipa a garantir a subida de divisão para o Championship.

De volta ao Manchester City para a temporada 2007/08, o treinador dos cityzens na altura, Sven-Goran Eriksson, decidiu apostar no guarda-redes após o seu período de relativo destaque no Blackpool, com Hart a ter acumulado 32 partidas pelo emblema, que acabou em nono lugar nessa edição da Premier League. Na temporada seguinte, a contratação de inverno do experiente guarda-redes Shay Given retirou espaço a Joe Hart, que não voltou a jogar desde a chegada do irlandês. Apesar disso, o clube sempre manteve a confiança no potencial de Hart, que voltou a ser emprestado na temporada 2009/10 ao Birmingham City, que na altura era uma turma assídua na Premier League.

Empréstimo ao Birmingham foi fundamental para a afirmação de Joe Hart na Premier League

41 jogos depois e com uma distinção de melhor jogador do Birmingham City no final da temporada, que culminou ainda com uma convocatória para o Mundial 2010 e com uma indicação para Jogador Jovem do Ano (prémio vencido por James Milner), Joe Hart finalmente consolidou o seu lugar na Premier League e mostrou-se apto para poder lutar por um lugar no Manchester City na temporada que se avizinhava. Com Roberto Mancini no comando técnico da equipa, Joe Hart, que contava com 24 anos nesta altura, estabeleceu-se como o guardião titular absoluto da equipa em 2010/11, participando em 55 jogos, sendo peça fundamental para o Man. City garantir o acesso à Champions League e levantar a FA Cup no fim da época, naquele que foi o primeiro troféu da sua carreira.

Estabelecido como um dos melhores guarda-redes da Premier League, Joe Hart voltou a ser um dos grandes destaques da liga nas temporadas seguintes, especialmente nas temporadas 2011/12, onde jogou 51 jogos e conquistou a Premier League (pondo fim a um jejum de 44 anos) e 2013/14, onde voltou a conquistar o campeonato e  venceu ainda a Capital One Cup (Taça da Liga Inglesa).

Joe Hart desfrutou de seis épocas consecutivas como o guardião titular do Man. City

Não será descabido afirmar que o auge de Joe Hart foi mesmo o período de 2010-2016, altura em que se consolidou como um dos melhores guarda-redes da Europa e um dos ídolos dos cityzens, numa glória que terminou com a chegada de Pep Guardiola ao clube, no verão de 2016. A vinda do conceituado técnico espanhol coincidiu com uma razia completa a vários nomes do plantel, tais como Kolarov, Bacary Sagna, Gael Clichy e… Joe Hart. Preterido por Claudio Bravo, contratado ao Barcelona devido à sua qualidade técnica na saída de bola, um aspeto fundamental para Guardiola num guarda-redes, Hart acabou descartado pelo técnico e foi emprestado ao Torino, de forma a provar o seu valor numa liga diferente.

A experiência em Turim, no entanto, não correu de feição a Hart que, apesar de ter sido utilizado com uma grande regularidade (37 jogos), acumulou vários erros que não o ajudaram a recuperar a sua confiança após ter sido rejeitado por Guardiola. De volta a Inglaterra na temporada 2017/18 e sem perspetivas realistas de agarrar a titularidade no Man. City, Hart voltou a ser emprestado, desta vez ao West Ham. A cedência a Londres também voltou a frustar o guardião, irreconhecível desde os seus tempos de glória no Manchester City. Utilizado em apenas 19 jogos na Premier League, Hart decidiu romper o seu vínculo com os cityzens no verão de 2018, pondo fim a uma ligação de 11 anos ao clube.

Ingressando no Burnley mas longe da forma de outros tempos, Hart também não conseguiu agarrar a titularidade no clube, participando em 24 jogos ao longo de duas épocas (em 2019/20 jogou apenas em três partidas). No verão passado, Joe Hart voltou a mudar-se, desta vez para o Tottenham, onde mantém-se suplente crónico de Hugo Lloris.

Hart não atua na Premier League desde dezembro de 2018, quando representava o Burnley

Pela Inglaterra, Joe Hart foi, durante os anos em que era o titular absoluto da baliza do Man. City, também o guardião número um da seleção dos Três Leões. Participou num total de seis jogos em grandes competições de seleções – quatro jogos no Europeu 2012, onde a Inglaterra foi eliminada nos oitavos de final pela Itália no desempate por grandes penalidades (2-4); dois jogos no Mundial 2014, onde a sua nação ficou em último no seu grupo; quatro jogos no Europeu 2016, onde a Inglaterra caiu aos pés da Islândia nos oitavos de final (1-2).

Porém, tendo apenas dez jogos disputados na presente temporada, nenhum na Premier League, Joe Hart, hoje com 34 anos, não é convocado pela Inglaterra desde novembro de 2017, e as perspetivas de que alguma vez volte a alinhar pela nação de Nossa Majestade não são as melhores. Em baixo de forma desde que foi descartado por Guardiola no Manchester City em 2016, Joe Hart é uma prova viva de que a confiança é um dos grandes fatores que influenciam as prestações de um jogador, sendo muito improvável que o internacional inglês por 75 ocasiões venha a tempo de acumular mais internacionalizações com o surgimento de nomes como Jordan Pickford e Dean Henderson para as opções na baliza inglesa. Experiente como poucos, o guardião poderá ainda vir a tempo de provar os críticos errados e demonstrar serviço de novo na Premier League, mas quanto mais tempo estiver por detrás da sombra de Lloris no Tottenham, mais improvável essa hipótese se torna.

Fontes das imagens: https://www.whufc.com/; https://www.birminghammail.co.uk/; https://www.manchestereveningnews.co.uk/; https://premierleaguebr.com/; https://www.football.london/

 

Alexandre Dionisio

Desde pequeno fui levado ao mundo do futebol, inicialmente enquanto júnior no Ginásio Clube de Alcobaça, clube da minha cidade, e agora mais velho enquanto espetador assíduo do mágico desporto que tanto nos emociona. Com uma licenciatura em Ciências da Comunicação na bagagem e um mestrado em Jornalismo em curso, acompanho cada jogo com a máxima emoção. Que isso nunca mude.