Lembra-se de André Cruz, o primeiro central goleador do Sporting?

Em 1999, o Sporting somava 17 anos sem se sagrar campeão nacional. José Roquette arranjou Giuseppe Materazzi (o pai de Marco) para comandar a equipa rumo à quebra da seca, mas uma derrota inesperada na primeira ronda da Taça UEFA às mãos do Viking, da Noruega, custou o posto ao italiano. Veio Augusto Inácio remar contra a maré e trazer de volta a glória ao devoto e dedicado povo sportinguista, após uma pesada vitória por 4-0 frente ao Salgueiros. As honras couberam ao Boavista na época seguinte, mas, agora com László Bölöni, o Sporting voltou a chegar ao título em 2001-2002. No seio desses dois títulos em três épocas esteve um profundo investimento no plantel principal, trazendo nomes reputadíssimos e veteranos como Peter Schemichel e Beto Acosta, em 1999, e Mário Jardel e os regressados Paulo Bento e Sá Pinto, em 2001, para reforçar um plantel com alguns nomes de já algum peso, como Beto e o Zidane português, Pedro Barbosa.

Um dos reforços dessa época, no entanto, foi figura preponderante em ambos os títulos (para além de César Prates, que também se juntou ao Sporting em Janeiro de 2000). Após uma passagem menos bem sucedida pelo Milan, o antigo internacional brasileiro André Cruz juntou-se ao clube de Alvalade após um regresso de um ano ao Standard Liège, clube que representou entre 1990 e 1994. Estava tudo acordado para regressar a Itália, desta feita ao Torino (para além dos seus três anos no Nápoles, entre 1994 e 1997, provavelmente o pico das suas capacidades), mas o projeto leonino foi mais atraente. Foi a melhor decisão que tomou: em nenhum outro clube Cruz ganhou tanto como ganhou no Sporting, somando uma Supertaça, em 2000, e a Taça de Portugal de 2001-2002 aos dois títulos da Liga.

O paulista nasceu a 20 de Setembro de 1968 e estreou-se aos 17 anos no Ponte Preta, onde ficou até 1989. Somou uma época no Flamengo para depois rumar à Bélgica. André Cruz era um central elegante, relativamente baixo para a posição (1,82m) mas compensando com agressividade, capacidade de liderança e um físico mais ou menos corpulento, apesar da altura. No entanto, o ponto forte de André Cruz, para além da sua inteligência e sentido posicional, era a sua capacidade técnica, sobretudo no passe e, mais importante ainda, nas bolas paradas. Em 78 jogos pelo Sporting, marcou 9 golos, e quase todos foram de livre direto. Canhoto, a sua posição favorita era mais ou menos a 20/25 metros, no meio espaço direito, entre a meia-lua e o bico da grande área. O seu remate era potente, mas a sua execução neste espaço era confiando puramente na colocação da bola, que entrava quase sempre ao ângulo, e aliada à sua potência de remate natural, os guarda-redes tinham muito poucas hipóteses de sequer tentar chegar à bola. Era também o conversor principal de cantos do Sporting, e um dos seus golos no Sporting foi de penálti. Comparando com Jérémy Mathieu, um jogador muito semelhante, André Cruz perde na capacidade atlética, não tendo a mesma presença física do bem mais alto e mais veloz Mathieu, mas mantendo a tremenda capacidade técnica, e sendo ainda mais letal nas bolas paradas (pelo menos na conversão).

Após a passagem gloriosa em Alvalade, André Cruz regressou ao Brasil, representando o Goiás até Janeiro de 2003. Depois, rumou ao Internacional, onde ajudou o clube de Porto Alegre a sagrar-se campeão gaúcho. Terminou a carreira no Verão de 2003: para além deste e dos seus títulos no Sporting, venceu a Copa do Brasil pelo Flamengo (1990), a Taça da Bélgica pelo Standard (1992-1993), a Serie A pelo Milan (1998-1999), e venceu os Jogos Pan-Americanos (1987), foi vice-campeão olímpico em Seul (1988), venceu a Copa América (1989) e foi finalista vencido noutra edição (1995) e foi vice-campeão do mundo (1998) pela Canarinha.

Um dos mais acarinhados de sempre pela massa associativa do Sporting, André Cruz tem retribuído o favor nos últimos anos, sendo frequentemente recrutado pela comunicação social para falar da situação do clube, como também foi recentemente aquando do dia em que o Sporting quebrou o enguiço de 19 anos. Mas para além da sua paixão e carinho pelo clube que representou em Portugal, é o seu legado enquanto central “moderno” que permanece na memória de todos os fãs do futebol, quer sportinguistas ou não.

Fonte da imagem: Gael Cornier/AP Photo