Como joga… Grécia, Euro 2004

Nikopolidis; Seitaridis, Kapsis, Dellas, Fyssas; Basinas, Zagorakis, Katsouranis, Karagounis; Vryzas e Charisteas.

É com um sentimento agridoce que, ainda hoje, facilmente recordo os jogadores base desta equipa, 17 anos depois: primeiro, obviamente, pela desilusão profunda que provocou em todos nós; depois, pela nossa organização do evento, com nota máxima, amplamente elogiada internacionalmente, servindo de base para os certames seguintes; por fim, e o que me leva a escrever estas linhas, pela ideia concretizada de que uma seleção disciplinada, humilde e corajosa, mesmo sem o talento técnico, a plasticidade de movimentos e os rasgos de magia de outras equipas, mais cotadas, mais favoritas, poderia, pelo menos, acalentar a esperança de chegar mais longe e, quiçá, ganhar a competição.

A seleção grega de 2004, excluindo a mágoa e a consternação que nos provocou, é um extraordinário exemplo de superação – quando penso num conceito mais lato de equipa, invariavelmente é dos primeiros exemplos que me ocorre.

A caminhada

Num país cuja tradição futebolística praticamente se resumia à pujança dos seus principais clubes – na época, Olympiakos e Panathinaikos – a seleção nacional era tida como uma espécie de parente pobre. De facto, a seleção helénica apenas esteve presente no Euro 1980 e no Mundial 1994 – em ambos os casos, sem passar da primeira fase. Desta forma, acabou por ser absolutamente surpreendente que, num grupo de qualificação composto por Espanha, Ucrânia, Irlanda do Norte e Arménia, a Grécia tenha ficado em primeiro lugar, com 18 pontos (seis vitórias e duas derrotas, estas nas duas primeiras jornadas, com Espanha e Ucrânia, ambas por 2-0 – os únicos quatro golos sofridos na campanha). Neste percurso, que como referi, teve duas falsas partidas, o destino grego muda à terceira ronda de qualificação, batendo a Arménia por 2-0. Seguir-se-iam mais cinco vitórias, entre elas, um triunfo épico em Saragoça (1-0) e outro categórico frente à Ucrânia, em Atenas (também 1-0).

Na fase final da competição, o mesmo registo: poucos golos sofridos (a maioria deles, golos que podiam ser sofridos) e poucos golos marcados, mas suficientes para atingir os objetivos.

Jogos na fase final do Euro 2004:

Portugal x Grécia – 1-2 (marcaram Karagounis, em contra-ataque, e Basinas, de pontapé de penálti);

Grécia x Espanha – 1-1 (marcou Charisteas, numa má saída de bola espanhola);

Rússia x Grécia – 2-1 (faturou Vryzas, após lançamento de linha lateral e confusão na área russa);

França x Grécia – 0-1 (concretizou Charisteas, em contra-ataque);

Grécia x República Checa – 1-0, no prolongamento (resolveu Dellas, após um canto);

Portugal x Grécia – 0-1 (decidiu, mais uma vez, Charisteas, após um canto).

 

A equipa

Da forma de jogar desta equipa muito se escreveu e disse. Na maioria das vezes, num tom negativo, pejorativo. É verdade que, aparentemente, a seleção grega era rudimentar. Isto é, uma equipa que taticamente não inventava – um 4-2-3-1 no papel –, que não tinha jogadores virtuosos, que nunca se desmoronava em campo (tática, física e mentalmente) e que, estando em vantagem, atrincheirava-se na sua área.

No entanto, uma análise mais fria, mais detalhada, julgo que encontrará dinâmicas táticas muito bem trabalhadas e com objetivos bastante identificados. Primeiro, o aproveitamento da bola parada ofensivas é evidente. Segundo, o contra-ataque grego era mortífero (o golo frente à França é ilustrativo dessa excelência). Terceiro, sangue-frio e lucidez durante todo o jogo – o jogo da Grécia não oscilava muito, dotando a equipa de grande robustez e segurança. Quarto, uma imensa crença nas ideias do seu treinador, Otto Rehhagel, superiormente executadas em campo.

Como tantas vezes acontece, ao analisar o jogo, mistura-se a estética com a eficácia. O jogo da seleção grega não era bonito, atrativo, repleto de golos e fintas, mas era tremendamente eficaz. Podia ser considerado feio, porém não era mal jogado. Era muitíssimo bem jogado, aliás – mérito de uma equipa consciente das suas limitações, e que acreditava que, defendendo muito bem, ficaria mais perto de ter aquela sorte em marcar um golo.

As Figuras

Numa equipa sem vedetas, muito mais preocupada em ser eficaz do que dar espetáculo, as características a considerar passam pela capacidade de sofrimento, encurtar espaços, rapidez na execução (em momento ofensivo e defensivo) e organização. O jogador que se enquadrou em tudo isto foi provavelmente Zagorakis. O médio foi um autêntico dínamo no jogo helénico, quer a defender, quer a atacar – conseguia, juntamente com Karagounis, oferecer à equipa alguma qualidade técnica e classe no toque de bola. Outro jogador preponderante foi Charisteas. Na época no Werder Bremen, o avançado traduziu as parcas investidas gregas no ataque em golos – será sempre o herói da final de Lisboa ao desempatar a partida. Não era um portento de técnica e agilidade, mas, tal como toda a equipa, era eficaz – no caso, eficaz a finalizar. Por fim, o mentor desta conquista, o treinador alemão Otto Rehhagel. Na altura com 65 anos, o veterano técnico, perito em autênticos milagres (já tinha levado o Kaiserslautern da segunda divisão ao título de campeão alemão), soube compreender a melhor forma de extrair dos jogadores aquilo que tinham de melhor – o início do trabalho foi em 2001, a evolução foi evidente.