Quem te viu e quem te vê, José Fonte!

Ao fim de apenas seis anos como profissional, José Fonte já fora dispensado dos dois grandes de Lisboa…sem um único minuto somado. Em Portugal, de resto, não foi além de uma época bem conseguida no segundo escalão e de duas outras na Primeira Liga, divididas por três clubes diferentes. Foi recentemente, porém, quando todos o davam como “acabado”, que encontrou, finalmente, o seu máximo potencial. Olhemos, então, para a carreira do central José Fonte.

Nasceu e cresceu em Penafiel, começando, como muitos, a jogar futebol no clube da sua terra. Fonte parecia ter queda para a modalidade, ou não fosse ter sido “raptado” pelo Sporting logo aos 11 anos. Fez de Alcochete a sua nova casa e por lá se deixou ficar, até à idade sénior.

O talento era notório, mas as oportunidades teimavam em não aparecer, numa altura em que a defesa leonina estava, de resto, servida de uns tais Rui Jorge, Beto ou ainda Anderson Polga. Sem um lugar à vista, um jovem José Fonte, de apenas 21 anos, acaba mesmo por deixar o Sporting, rumando ao Felgueiras, então na segunda divisão.

Foi um passo atrás, mas que permitiu ao central começar a somar preciosos minutos, jogando a época toda a titular na formação nortenha. A decisão pareceu acertada, sobretudo quando, no final do ano, recebeu uma proposta do Vitória, mudando-se para Setúbal e, naturalmente, subindo de escalão.

A vida começava a correr de feição ao defesa, conquistando a titularidade dos sadinos e estreando-se, inclusive, na Taça UEFA. Melhor ficou quando, em janeiro, foi chamado por outro grande, desta vez o Benfica. Sem perder tempo, mudou-se mesmo para a Luz, logo no mercado de inverno.

Este novo passo, porém, parece ter sido maior que a própria perna, já que Fonte acabaria emprestado, nesse mesmo ano, ao Paços de Ferreira. No ano seguinte, novo empréstimo, desta vez ao Estrela da Amadora. Pese embora ter conseguido muitos minutos e boas exibições nestes clubes, o central nunca chegou a vestir o “manto sagrado” das águias.

Acabou por sair quase com a mesma rapidez com que entrou, deixando outro grande sem uma única partida disputada. Foi então que decidiu aventurar-se para fora de Portugal, rumando a Inglaterra. Quem o recebeu foi o Crystal Palace. O ano era 2007.

Agora no Championship, Fonte, mais uma vez, não tardou em agarrar a titularidade. Com 24 anos, ainda ia mais que a tempo de relançar a carreira. Conseguiu, pela primeira vez, uma tão necessária estabilidade, disputando duas épocas completas pelos londrinos.

A meio da terceira, porém, surpreendeu tudo e todos, ao trocar o Palace pelo Southampton…descendo para a League 1 (a terceira divisão inglesa), alegando, à data, que queria jogar na Premier League e que, no seu entender, o conseguiria mais depressa mudando-se para os Saints.

Foi mais um passo atrás na sua carreira, porém, tal como no primeiro, Fonte parece ter acertado em cheio, ou não fosse o Southampton, em três anos apenas, subir mesmo ao escalão máximo do futebol britânico, com o Crystal Palace, por sua vez, ainda no Championship.

Pelo caminho, o central português manteve-se igual a si próprio, assumindo o comando da defesa e herdando a braçadeira de capitão. Foi, de resto, o clube que mais anos representou até hoje, vestindo a listada vermelha e branca até 2016. Entretanto, foi-se tornando num dos atletas mais influentes do clube.

O culminar do seu trabalho ocorreu quando, em 2015, aos 32 anos, conseguiu, pela primeira vez, uma chamada à seleção nacional, acabando mesmo, depois, por ser convocado para o Europeu, em 2016. O resto…é história.

José Fonte provou a todos que a sua idade era apenas um número. Ainda assim, o clube inglês teimou em subir-lhe o salário, devido à idade avançada, o que ditou a sua saída e, aparentemente, o início do fim da sua carreira.

O internacional luso ainda assinou pelo West Ham, mas as exibições ficaram aquém do habitual. O culminar desta baixa de forma ocorreu quando, em 2018, se mudou para a Superliga Chinesa, onde mal jogou. Curiosamente, a única coisa que não abalou foi a confiança do selecionador nacional Fernando Santos, que continuou a apostar no central, sendo mesmo convocado para o Campeonato do Mundo, na Rússia.

Seleção à parte, quando tudo parecia encaminhar-se para o final, Fonte consegue, novamente, relançar por completo a sua carreira, assinando pelo Lille. Com 36 anos (!), contrariou a larga maioria das espectativas, voltando a assumir não só a titularidade como a braçadeira de capitão dos gauleses.

Mais surpreendente se tornou este “renascer” quando, em 2021, consegue mesmo ajudar o clube a conquistar a Ligue 1, fazendo tombar a “ditadura” do PSG, que perdurava há quase uma década. 38 anos é a idade deste senhor, hoje.

A carreira de José Fonte é, provavelmente, uma das maiores provas de força de vontade e resiliência, com os frutos do seu trabalho a surgir (muito) tarde para aquilo a que se pode chamar o percurso “normal” de um jogador de futebol. A sabedoria popular afirma que “mais vale tarde que nunca” e este veterano lusitano é um exemplo disso mesmo, sendo que, com uma possível renovação de contrato à vista, parece que não se vai deixar ficar por aqui.

 

Imagem: LOSC (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.