Curiosidades: uma breve história dos desempates por penáltis

A grande penalidade, o “castigo máximo” do futebol, é uma das maiores demonstrações de classe, compostura, e competência no futebol. É também, dentro daquilo que já é um caldeirão emocional, uma autêntica montanha-russa de alegria e tristeza. Enquanto portugueses já experienciámos ambas as emoções: fomos felizes à custa da seleção inglesa em 2004 e 2006 (obrigado, Ricardo) e da seleção polaca a caminho da conquista do Euro 2016, e menos felizes à custa de Zidane ainda em 2006 e da seleção espanhola em 2012. Muito felizes foram, obviamente, os adeptos do Villarreal, que na passada quarta-feira viram o seu pequeno grande clube destronar um clube bem maior em dimensão e recursos, conquistando o primeiro troféu continental da sua história e trazendo um pouco de justiça poética, algo que é sempre bem-vindo. Mas o mais incrível nem foi a vitória do “submarino amarelo”, mas sim a extraordinária eficácia de todos os executantes até David de Gea, resultando num desempate que se avizinhava bem longo.

O mais longo desempate por penálties de sempre ocorreu em 2005, na Taça da Namíbia, quando o KK Palace, clube da segunda divisão, derrotou o Civics de Windhoek, o líder da primeira divisão na altura, por 17-16, necessitando de 48 conversões para tal. O recorde para maior número de pénalties convertidos vai para um jogo da primeira divisão argentina em 1988/89 entre o Argentinos Juniors e o Racing Club, terminando em 20-19. Nessa época, resolvia-se em pénalties jogos que terminassem em empate no campeonato, mas a experiência foi descontinuada devido ao desinteresse que despoletava. O recorde foi igualado em 2015, quando o Sundsøre IF bateu o Nykøbing Mors numa ronda preliminar da Taça da Dinamarca. Se a eficácia no desempate da final da Liga Europa surpreendeu, os 29 pénaltis convertidos consecutivamente no jogo entre o Brockenhurst e o Andover Town, a contar para a segunda ronda da Hampshire Senior Cup, são de bradar aos céus. O Brockenhurst venceu 15-14.

Antes da introdução dos desempates por pénalties, os jogos ou eram repetidos ou decididos por lançamento de moeda no final. Foi apenas a partir de 1970 que se começou a introduzir o desempate, após dois anos de negociações e discussão aquando de uma proposta de Yosef Dagan, secretário-geral da federação israelita, após ver a sua seleção ser derrotada pela Bulgária após sorteio nos quartos de final dos Jogos Olímpicos da Cidade do México. O primeiro desempate ocorreu na pré-época de 1970/71, na meia-final da Watney Cup, entre Hull City e Manchester United. Duas lendas do clube de Old Trafford marcam este dia: George Best foi o primeiro a converter, e Denis Law foi o primeiro a falhar. O guarda-redes do Hull, Ian McKechnie, defendeu a tentativa do avançado escocês e foi, tentativas a seguir, o primeiro guarda-redes a marcar um pénalti num desempate. Rematou à barra e para fora, carimbando a vitória do United.

À porta de mais um Europeu, é de notar algumas tendências em relação a seleções: em nove desempates nos pénalties, a seleção inglesa perdeu seis, dois contra Portugal, como é sabido: antes perdeu contra a Alemanha no Mundial de 1990 e Euro 1996 (ganhou a Espanha uma ronda antes, nos quartos), e contra a Argentina no Mundial de 1998. Perdeu contra Itália em 2012 e quebrou o enguiço contra a Colômbia no Mundial de 2018 e seguir para os quartos de final, algo que não conseguia desde que defrontou Portugal em 2006. A seleção italiana também perdeu seis desempates em competições internacionais, sendo eliminada três vezes consecutivas em 1990, 1994 (o falhanço de Baggio na final) e 1998, e depois nos quartos do Euro 2016. A seleção holandesa, por sua vez, perdeu quatro vezes consecutivas: contra a Dinamarca em 1992, contra França em 1996, contra o Brasil em 1998, e contra Itália em 2000, para depois se redimir em 2004 contra a Suécia.

Homens como Antonin Panenka, no Euro 1976, e Ezequiel Calvente, no Euro 2010 em sub-19, reiventaram o pénalti em momentos inesquecíveis. Todos querem ser como Bruno Fernandes ou como Matt Le Tissier, a lenda do Southampton que nunca teve a sorte de representar o seu país numa grande competição, e que marcou 47 dos seus 48 pénalties na carreira. No entanto, muitos não passam de Zazas da vida. Graças ao trabalho da RSSSF (Rec.Sport.Soccer. Statistics Federation), é possível consultar registos mais profundos em relação a desempates por pénalties e outros dados do futebol: estes são apenas os mais relevantes em relação ao castigo máximo do desporto-rei. A emoção e tortura emocional das grandes penalidades vai bem além das estatísticas, e se Portugal somar mais um desempate para os números, que seja numa vitória e a caminho do bicampeonato europeu.

Fonte da imagem: AFP