1928 – A Estreia Portuguesa

Vem aí o Europeu de futebol. E com ele, as emoções dos jogos entre seleções, que competirão um pouco por toda a Europa. O detentor do título, como saborosamente nos recordamos, é Portugal.

Normalmente em Portugal, na antecâmara destas competições, são preparados documentários sobre as campanhas de anteriores seleções, divulgadas reportagens com os intervenientes atuais e transmitidos alguns jogos do passado, de boa memória para todos nós.

Assim, é comummente admitido que a primeira grande aparição portuguesa na elite das competições de futebol foi em 1966, a epopeia dos Magriços. No entanto, não é verdade. Sistematicamente é esquecida a participação portuguesa no torneio Olímpico de futebol, em 1928, em Amesterdão.

Convém contextualizar: até ao primeiro mundial FIFA, organizado pelo Uruguai, em 1930, o principal evento futebolístico do mundo realizava-se nos Jogos Olímpicos**. Ao contrário daquilo que acontece atualmente, a competição Olímpica tinha as melhores seleções do mundo, representadas pelos seus melhores executantes. Era um torneiro com seleções seniores, com as equipas na sua máxima força

Vamos então recuar até 1928. Um ano inserido num contexto de declarada paz armada, com o Mundo à espera de nova guerra, atendendo às clivagens e tensões entre nações. Um ano em que nasceu, por exemplo, Che Guevara, ou no qual foi criado Mickey Mouse, também se destaca a invenção da penicilina por Alexander Fleming. Em Portugal, Óscar Carmona tomou posse como Presidente da República, implementando aquilo que se denominaria como Ditadura Nacional.

O futebol português da época era muito rudimentar – havia alguns campeonatos regionais, cujas melhores equipas apuravam-se para o Campeonato de Portugal. Nesse ano, o campeão foi o Carcavelinhos (deu origem ao Atlético CP, anos depois), que derrotou o Sporting na final. Mas, sendo ainda totalmente amador e pouco estruturado, o horizonte do futebol português era de consumo interno. Foi, portanto, surpreendente que a seleção portuguesa (que acumulava desaires, sobretudo com a vizinha espanhola) tivesse a pretensão de participar no torneio Olímpico holandês…

Em Amesterdão reuniram-se os melhores atletas do planeta. Na primeira Olimpíada em que se acendeu a pira olímpica, foram o finlandês Paavo Nurmi (fundista) e o norte-americano Johnny Weissmuller (nadador e futura estrela de cinema, interpretando o primeiro Tarzan da história) a emergirem como as principais estrelas.

No Olympisch Stadion Amsterdam disputou-se as partidas do torneio de futebol. Atendendo à assimetria no número de seleções participantes (mas também, à inexistente projeção internacional a nível futebolístico), Portugal teve de se bater com o também estreante Chile por uma vaga no quadro principal da prova, digamos assim – foi o único jogo preliminar.

Com aquela que seria apelidada de primeira Geração de Ouro do nosso futebol, a seleção portuguesa, orientada pelo mestre Cândido de Oliveira, após jogos de preparação prometedores (empate com a Espanha, pela primeira vez na história, goleada histórica à Itália – 4-1 – e empate frente à poderosíssima seleção Argentina), apresentava-se confiante frente ao Chile.

A 27 de maio, Portugal estreia-se numa grande competição internacional de futebol. Os chilenos, que ao bom estilo sul-americano apresentaram-se bastante agressivos, violentos até, cedo chegaram ao 0-2. Mas com craques como Vítor Silva, Waldemar Mota e, claro, Pepe, Portugal reverteu o resultado para um 4-2 final.

Ao entrar no quadro principal do certame, Portugal iria defrontar a forte seleção jugoslava. Naquele tempo (como agora, talvez…), pairava muita desconfiança no grupo, muito pessimismo para a nova partida, e nem a vitória no primeiro jogo alterou essa mentalidade. Como em tantas ocasiões, a resposta portuguesa perante um adversário de maior nomeada foi categórica. Vitória por 2-1, com Augusto Silva a carimbar a passagem aos quartos-de-final em cima do minuto 90.

A um passo da disputa pelas medalhas, seguiu-se o confronto com o Egito, a outra surpresa da competição.  Aos 75 minutos desse encontro, estava 0-2 para os norte africanos, quando Vítor Silva deu esperança ao reduzir a diferença no marcador. Lutou-se até ao fim, mas em vão. Terminava assim a primeira aventura internacional da nossa seleção. E com um amargo de boca que durante muitas décadas funcionou como uma espécie de maldição – jogo criativo, vistoso, mas a pecar na finalização

Após 40 horas de comboio, e com parcos recursos do princípio ao fim (nem a própria delegação esperava tamanha estadia nos Países Baixos), os jogadores foram recebidos em Portugal como heróis. É certo que foi uma vitória moral…mas atendendo à primeira participação internacional, de uma equipa sem experiência, oriunda de um país sem motivos para sorrir, a manifestação foi significativa e ficou na História.

E para a História (que, repito, é esquecida quando se fala do percurso da nossa seleção…), fica a equipa base que participou na competição: Roquete (Casa Pia), Vítor Silva (Benfica) – 3 golos marcados, Waldemar Mota (FC Porto) – 1 golo marcado, Augusto Silva (Belenenses) – 1 golo marcado, Carlos Alves (Benfica), César de Matos (Belenenses), Jorge Vieira (Sporting), José Manuel Martins (Sporting), Pepe (Belenenses) – 2 golos marcados, Armando Martins (Vitória Setúbal), Raúl Figueiredo (Benfica).

**O Uruguai, organizador do primeiro mundial FIFA, foi-o muito pelas conquistas olímpicas de 1924 e 1928. Esta seleção uruguaia influenciou a evolução do futebol europeu (sobretudo francês e italiano), com o seu futebol tecnicista, refinado e intenso. Uma das melhores seleções da História do Futebol.

 

Fonte da imagem de capa: Museu Virtual do Futebol (blogspot)