Opinião da Semana: Arsenal, um gigante inferior aos outros

Muitos dos clubes mais históricos do mundo do futebol têm as suas origens na Premier League, a melhor liga de toda a Europa.

Chelsea, Manchester United, Liverpool e Spurs sempre foram candidatos eternos na disputa pelos lugares cimeiros da tabela classificativa. Até o Manchester City, muito devido à ajuda financeira que recebeu em 2008, tornou-se num gigante inglês e mundial e outros clubes como Leicester e Wolves começaram nos últimos anos a serem vistos como potenciais participantes nas competições europeias.

Ora, nos nomes das instituições que foram referidas até aqui, é visível a ausência do Arsenal, clube histórico de Londres que se tornou um fenómeno mundial no final dos anos 90 e no início dos anos 2000. Nesta última época, os “gunners” terminaram num medíocre 8º lugar, muito abaixo das expectativas dos amantes do desporto-rei.

A questão ou a problemática relativamente à equipa londrina é que a falta de produtividade  desta temporada é o resultado de quase meia década de desilusões futebolísticas, turbulência entre adeptos e a direção e tomadas de decisões bastante prejudiciais para o futuro da organização.

Uma das razões para este descalabro remete para as circunstâncias que rodeavam Arsène Wenger. O lendário treinador francês foi o responsável pela conquista de três títulos da Premier League, um deles na famosa época dos invencíveis, e de sete troféus da FA Cup, além de ter levado a equipa à primeira e única final da Liga dos Campeões da sua história em 2006.

Contudo, os últimos anos do mesmo no comando técnico dos “gunners” foram marcados pela contestação dos adeptos que exigiam a demissão do francês. A razão para a vontade dos apoiantes do clube pedirem a substituição do técnico centrava-se no facto do clube estar desde 2004 sem conquistar o campeonato.

Desde então, o Arsenal vinha a perder jogadores de peso como  Robin Van Persie para os rivais e não apostava num investimento avultado para melhorar a qualidade do plantel. Wenger viu-se obrigado a utilizar jogadores claramente sem o calibre necessário para representar um clube com supostas ambições de lutar pelo título de campeão nacional.

Desta forma, o único clube em Inglaterra que até então tinha desafiado a hegemonia do Manchester United de Alex Ferguson viu-se ultrapassado por Chelsea, Liverpool e Manchester City na hierarquia do futebol britânico, clubes estes que acabariam por aproveitar as dificuldades do United na era pós-Ferguson para se afastarem ainda mais dos restantes.

Excusado será dizer que os adeptos queriam mais. O pensamento generalizado era de que bastava contratar um treinador de renome que estivesse livre no mercado para mudar por completo o panorama dos londrinos.

Técnicos da dimensão de Allegri ou Ancelotti eram, na perspetiva dos fãs do Arsenal, o elemento que faltava para atrair grandes jogadores de novo para o Emirates Stadium, assemelhando-se aos processos que Chelsea e City tinham adotado para garantirem o seu sucesso.

Como tal, Wenger anunciou a sua saída do comando técnico do Arsenal em 2018, terminado assim um vínculo que há 22 anos. Foi uma despedida inglória para alguém que literalmente dedicou a sua vida a um clubes que antes da sua chegada lutava para terminar no meio da tabela.

O tratamento dado pelos adeptos a Wenger deu uma má imagem ao Arsenal. Como é que um clube com latente falta de talento e personalidade deixa sair um técnico que terminou todas as suas épocas nos lugares de acesso às competições europeias? Quão desesperados estavam os adeptos ao ponto de difamar aquela que é a maior figura da história do seu clube?

Pois bem, as coisas só viriam a piorar.

Unai Emery foi o nome escolhido para liderar a equipa após a saída do técnico francês. Em teoria, era uma escolha promissora, uma vez que estamos a falar de um treinador que tinha ganho a Liga Europa três vezes consecutivas pelo Sevilha e que tinha conquistado tudo a nível interno ao serviço do PSG.

Portanto, Emery chegou a Londres como um dos treinadores mais bem sucedidos do século XXI e com um prestígio europeu que dava esperanças de progresso aos “gunners”. Contudo, foi durante a passagem do treinador espanhol que finalmente se percebeu quais eram os maiores obstáculos ao sucesso do Arsenal.

Em primeiro lugar, os atletas demonstravam uma ausência gritante de mentalidade vencedora, algo que colocou os jogadores e os adeptos numa espécie de guerra civil. Ao invés de palavras de incentivo, ouviam-se assobios e insultos das bancadas em praticamente todos os jogos, algo que seria impensável quando Thierry Henry e companhia espalhavam brilho por essa Europa fora.

Por último, a direção foi responsável por contratações catastróficas, sobretudo de jogadores já em fase final de carreira ou de atletas que nunca se conseguiram adaptar à realidade do futebol inglês.

A goleada por 4-1 sofrida contra o Chelsea na Final da Liga Europa da temporada 2018-2019 e um começo inconstante da época 2019-2020 ditaram o despedimento de Emery, cuja fama saiu abalada pela sua estadia em Inglaterra.

E, até hoje, a humilhação continua. Mikel Arteta, depois da conquista milagrosa da FA Cup na época passada, levou a que o Arsenal terminasse pela primeira vez em praticamente duas décadas fora das competições europeias. Os protestos da massa adepta contra um dono que demonstra pouco interesse pelo clube que adquiriu são cada vez mais frequentes e os jogadores não têm nem o talento nem a força de vontade para carregar o símbolo com dignidade.

Para além disto, a recente vitória de Unai Emery contra o Manchester United na final da Liga Europa revelou que o problema não estava no treinador, mas sim no clube em geral.

Longe vão os tempos da rivalidade efervescente com os “red devils” e os feitos dos invencíveis. A presença na elite europeia parece uma memória cada vez mais longínqua e a possibilidade de voltar a estar no top 4 de Inglaterra é uma triste miragem.

O Arsenal dos tempos atuais é um gigante adormecido, deixado para trás pelos rivais que outrora receavam jogar contra uma equipa repleta dos maiores talentos à face da terra.  O paraíso transformou-se num inferno sem fim. E dói, dói muito.

Fonte da imagem: Arsenal Twitter/@Arsenal