Como Joga: SL Benfica 2013/2014

Na edição desta semana do Como Joga, recordamos a equipa que começou a hegemonia nacional encarnada de quatro campeonatos seguidos e que se destacava pela sua maturidade, inteligência e elevada “nota artística”.

Depois de uma temporada anterior em que apresentou uma qualidade exibicional excecional mas que não se traduziu em títulos devido a uma ponta final trágica, Jorge Jesus e os seus pupilos estavam obrigados a limpar a sua imagem em 2013/14. Para esse efeito, chegou um autêntico “camião” de jogadores sérvios onde se destacavam Lazar Markovic, promessa sérvia do Partizan, Miralem Sulejmani,que seria um grande trunfo saído do banco ao longo da época, e Ljbomir Fejsa, médio defensivo vindo do Olympiacos. De Espanha, por empréstimo, vieram ainda Guilherme Siqueira e Sílvio, do Granada e do Atlético de Madrid, respetivamente, para colmatar lacunas já antigas da equipa nas laterais, e fazer concorrência ao jovem André Almeida e ao experiente Maxi Pereira. De empréstimo regressaram Rúben Amorim (Braga), Jan Oblak (Rio Ave) e Enzo Pérez (Estudiantes), aumentando a profundidade de um plantel capaz de atacar todas as competições onde estava inserido.

A equipa

Dada a abundância de qualidade em cada posição, foi possível ao treinador encarnado ultrapassar possíveis adversidades como lesões, sobrecarga de jogos ou até vendas de última hora, como foi o caso de Matic, vendido em janeiro ao Chelsea por 27 milhões de euros, sendo prontamente substituído por Fejsa, que pegou de estaca na segunda metade da época. Apesar da variação de jogadores ao longo da temporada, o sistema tático raramente foi alterado, assentando num 4x4x2, no papel, que em campo variava entre um 4x1x3x2 com um médio mais recuado de destruição- Matic/Fejsa- e um médio de ligação, mais avançado no terreno- Enzo Perez, e um 4x3x3 em que Rodrigo fazia de terceiro médio, descendo para vir buscar jogo de forma a progredir com bola, rumo a zonas de finalização. Também Markovic e Gaitán faziam esta posição, pisando muitas vezes terrenos centrais, para comandar as transições ofensivas dos encarnados, colocando posteriormente a bola entrelinhas em zona frontal. Caso esta estratégia não resultasse, as águias atraíam a pressão adversária para o centro do terreno de forma a abrir espaço na ala para os laterais participarem na manobra atacante através de cruzamentos para Lima e Rodrigo na área.

À variação posicional e capacidade criativa no ataque juntava-se a sobriedade da defesa que sofreu apenas 18 na primeira liga e 35 em todas as competições, contribuindo para isso, a experiência do quarteto defensivo habitual composto por Maxi Pereira, Garay, Luisão e Siqueira e do guarda-redes Artur, todos com mais de 27 anos. A troca de guarda-redes à décima-quarta jornada em que o jovem de 21 anos Jan Oblak rendeu o brasileiro, não afetou a eficiência defensiva da equipa, antes pelo contrário, levando o Benfica a uma segunda volta onde sofreu apenas uns impressionantes 3 golos. A defesa foi relevante também no panorama ofensivo onde, ao longo da época, só Luisão e Garay marcaram 14 golos, alguns deles bastante importantes na caminhada das águias nas várias competições-golos do argentino na Madeira contra o nacional e em casa contra Porto e Juventus (a contar a Primeira Liga e para a Liga Europa, respetivamente) e do brasileiro em duelos com o Tottenham (Liga Europa)  e com o Sporting (Taça de Portugal).

Jogadores menos indiscutíveis como André Gomes, Sílvio, antes de partir a perna, André Almeida, Sulejmani, Salvio, depois de regressar de lesão, e até Óscar Cardozo, num papel diferente daquele que desempenhou durante a maioria da sua passagem por Lisboa, foram peças importantíssimas no sistema tático de Jorge Jesus, principalmente na segunda fase da temporada, para gerir o cansaço dos habituais titulares sem comprometer a qualidade exibicional e dos resultados.

Resultados

Apesar do sucesso final, o inicio do trajeto não foi fácil com a equipa da Luz a perder pontos em três das primeiras seis jornadas da Liga, incluindo uma derrota logo na primeira jornada frente ao Marítimo, soando os alarmes na Luz, ainda mais depois de uma goleada em Paris frente ao PSG por 3-0, a contar para a Champions League.

Na Liga milionária, os encarnados ficaram em terceiro lugar com 10 pontos, os mesmos do segundo classificado Olympiacos, ficando na memória os dois jogos com os gregos onde o seu guarda-redes, Roberto, bem conhecido dos portugueses,, fez duas grandes exibições para empurrar os portugueses para a segunda competição da UEFA. Aí, PAOK, Tottenham, AZ Alkamaar e Juventus foram eliminados, com mais ou menos dificuldade pela armada lusa, rumo a uma final ibérica contra o Sevilla onde, nos penáltis, a equipa espanhola levou a melhor num jogo que ainda hoje é recordado pelos benfiquistas pelas piores razões.

Em território nacional, o Benfica ganhou tudo o que havia para ganhar, começando pelo campeonato nacional, conquistado a duas jornadas do fim, onde a turma de Jesus assaltou a liderança na última ronda da primeira volta, em que venceu o Porto no Estádio da Luz por duas bolas a zero, só voltando a perder pontos uma vez até ao jogo decisivo em casa contra o Olhanense a 20 de abril de 2014. Dois golos de Lima iniciaram a festa do 33º terceiro campeonato das águias, que terminaram com 74 pontos, mais sete que o segundo classificado Sporting, 58 golos marcados e apenas 18 sofridos.

Em maio aconteceram mais duas festas vermelhas contra o mesmo adversário- Rio Ave, sendo a primeira em Leiria, na final da Taça da Liga, por 2-0, golos de Luisão e Rodrigo, depois de uma meia-final emocionante contra o Porto, só decidida nas grandes penalidades. A segunda aconteceu no Jamor, na final da Taça de Portugal, desta feita por 1-0, com Nico Gaitan a ser herói, já depois das águias terem eliminado Sporting, na 4ª eliminatória por 4-3,  após prolongamento, e o Porto, novamente nas meias-finais (3-2 no agregado das duas mãos), decidida por André Gomes já nos últimos dez minutos de jogo, com um golo de levantar o estádio.

A equipa acabou assim a temporada 2013/2014 com 101 golos marcados e 35 sofridos em 57 jogos disputados, do quais resultaram 42 vitórias, 10 empates e apenas 5 derrotas. Além de 3 troféus conquistados e uma final europeia, esta temporada é recordada principalmente pelos jogadores míticos e por jogos emocionantes, em todas as competições, onde a equipa apresentou uma maturidade e inteligência difíceis de encontrar no futebol português atual.

 

Fonte da imagem de capa: Agência Lusa