Históricos: o vexame alemão em terras brasileiras

Um jogo é marcante quando o resultado o define. 7-1 foi o resultado de vários jogos que aconteceram ao longo dos anos, mas é impossível ouvir o resultado sem o associar a um jogo em específico: o jogo que opôs o Brasil à Alemanha no Mundial 2014 e que esta semana será recordado nos “Históricos”.

A oito de julho de 2014 Brasil e Alemanha enfrentaram-se nas meias-finais do Mundial. Belo Horizonte e o Brasil pintaram-se de amarelo para apoiar a canarinha que enfrentou uma seleção da Alemanha a fazer um mundial de grande nível. A alegria e a festa que se sentiam antes da partida em nada faziam prever a hecatombe que se verificou, mas pensando de forma racional já era previsível assistir a uma queda do Brasil. No entanto, nunca com os contornos que se verificaram.

Privado de Neymar que saiu lesionado após uma entrada feia de Zuniga nos quartos de final e de Thiago Silva a cumprir suspensão, Scolari manteve a aposta no 4-2-3-1. Na defesa, Júlio César foi o guarda-redes escolhido e Dante substituiu o suspenso Thiago Silva fazendo dupla com David Luiz. Marcelo à esquerda e Maicon à direita eram bastante importantes no processo ofensivo, oferecendo profundidade. No meio-campo que se especulava a três de forma a travar o ímpeto alemão, Luiz Gustavo e Fernandinho formaram uma dupla de médios defensivos à frente da defesa. Paulinho foi deixado no banco e Óscar foi mantido como criativo a jogar à frente da dupla de médios. Bernard substitui Neymar, sendo redirecionado para a direita e entregando a posição de extremo-esquerdo a Hulk. Na frente, Fred era o ponta de lança.

Já a Alemanha entrou com Neuer na baliza e Boateng e Hummels no centro da defesa. Howedes era o lateral esquerdo mais preso com tarefas defensivas e Lahm à direita tinha liberdade para avançar quer por dentro, quer por fora. Schweinsteiger era o termómetro do meio-campo e era acompanhado por Kross, mais associado à organização de jogo e por Khedira a quem foi atribuída a tarefa de infiltrar a defesa brasileira. Ozil à esquerda e Muller à direita eram médios ofensivos adaptados a jogar a partir do corredor, com grande qualidade técnica na organização do jogo e eram acompanhados por Klose, a lenda alemã que é até hoje o melhor marcador em mundiais.

Os minutos iniciais do jogo foram uma amostra que não se voltou a repetir. Nos primeiros cinco minutos o Brasil entrou animado e, apoiado no coração e na confiança que sentiam por jogar em casa, foi capaz de criar perigo, numa jogada em que Marcelo atirou ao lado. Porém, se o coração estava em campo, a cabeça parecia ter levado falta de comparência e os erros defensivos acumularam-se.

Atacando de forma quase anárquica, a seleção brasileira deixava imenso espaço livre que a Alemanha, bastante mais disciplinada e concentrada, aproveitava em transições rápidas. Após alguns calafrios, o golo acabaria por surgir aos 11 minutos. Um canto conquistado após um ataque rápido e batido por Kross encontrou Muller sozinho na área que à meia altura rematou para o 1-0. A defesa brasileira amontoada na zona do primeiro poste deixou Muller esquecido e sozinho na área e o alemão, sem oposição começou o pesadelo brasileiro e o sonho germânico.

Após o primeiro golo o jogo continuou com algum equilíbrio em termos de bola. No entanto, a uma Alemanha concentrada e assertiva, opunha-se uma seleção brasileira que despejava bolas em profundidade sem qualquer critério. Não foi assim surpresa para ninguém o segundo golo do conjunto orientado por Low. Kross com um passe vertical descobriu Muller que dentro de área deixou a bola para Klose. O veterano avançado alemão ainda permitiu a defesa de Júlio César, mas na recarga não desperdiçou e tornou-se o melhor marcador da história dos mundiais de futebol com 16 golos marcados na maior competição de seleções do mundo.

Os minutos que se seguiram foram fascinantes para os adeptos de futebol que ficaram colados ao ecrã a ver a seleção do Brasil cair aos poucos. Aos 24 minutos Lahm colocou a bola na área, Muller fez-se a ela, mas não lhe chegou a tocar e Kross com um poderoso remate com o pé esquerdo deu contornos de goleada ao resultado. Volvidos apenas 69 segundos, Kross bisou e tornou-se o jogador a bisar no menor tempo da história do Mundial. Bola ao centro, e após alguns passes Fernandinho perdeu a bola para Kross que, após combinar com Khedira, marcou o quarto golo alemão. Apenas três minutos depois e ainda antes da meia hora de jogo, Khedira que tinha acabado de assistir também fez o gosto ao pé. Desta feita a combinação foi com Ozil e o quinto golo fez aumentar as lágrimas que já iam correndo pela face de alguns adeptos canarinhos.

A Alemanha tirou o pé do acelerador e, não fosse a festa dos adeptos da Die Mannschaft e o ocasional grito de Scolari que tentava reorganizar as peças em campo e seria possível ouvir o silêncio em Belo Horizonte. O intervalo chegou e as lágrimas e os gritos de revolta que atacavam Fred – avançado brasileiro que no jogo em questão nem tinha tido influência no desenrolar no resultado –, Scolari – técnico da seleção brasileira – e Dilma Rousseff – presidente do Brasil – ecoavam pelo estádio.

A segunda parte começou com duas alterações na seleção brasileira. Hulk e Fernandinho deram o lugar a Ramires e Paulinho numa tentativa de equilibrar o miolo do terreno. As alterações, o travão colocado pela seleção alemã e o desejo de tentar atenuar os estragos resultaram numa reação esboçada. Paulinho, Oscar e Fred tentaram por várias vezes, mas a falta de pontaria e a grande exibição de Manuel Neuer impediram a bola de entrar.

O desânimo dos jogadores brasileiros incapazes de marcar golo e as substituições na equipa alemã tiveram impacto no desenrolar da partida e Schurrle, que tinha entrado para o lugar de Klose ainda foi a tempo de bisar. Aos 69 minutos foi deixado sozinho na área e, livre de marcação, respondeu a um cruzamento de Lahm. Aos 79 minutos marcou o golo mais bonito da noite. Descaído para a esquerda e com uma grande receção de peito a um passe de Muller, Schurrle fuzilou a baliza, colocando o resultado nuns expressivos 7-0.

Até ao fim Ozil ainda fez a bola rasar o poste da baliza defendida por Júlio César e Óscar ainda teve tempo de marcar um golo de honra, após driblar Boateng. O golo foi recebido com aplausos irónicos das bancadas. Com o apito do árbitro as lágrimas da bancada alargaram-se ao relvado e os jogadores brasileiros emocionalmente afetados não queriam acreditar no que acabara de acontecer. Num discurso que ficou para a história David Luiz com a cara lavada em lágrimas pediu desculpa aos adeptos.

Indiferentes à desilusão, os adeptos alemães, que se viriam a sagrar campeões, gritavam “Rio de Janeiro oh oh”, um hino à imprevisibilidade do desporto-rei.

Fonte da imagem de capa: Reuters