O EURO de: Itália – candidata a surpreender

Vencedora do Europeu em 1968, a seleção italiana procura a segunda vitória na competição. Mancini reestruturou e rejuvenesceu a Squadra Azurra que após a desilusão de 2018 procura recuperar a boa imagem junto dos adeptos italianos.

Os últimos anos têm sido conturbados para a seleção italiana. No EURO 2016, com Antonio Conte no comando, foi eliminada nos penaltis pela Alemanha nos quartos de final. A saída de Conte para o Chelsea levou ao anúncio de Giampero Ventura como novo treinador. Os maus resultados e exibições levaram a Itália, ainda dependente dos veteranos e sem capacidade para iniciar a renovação, a ficar fora do Mundial 2018. O choque apressou a saída de Ventura do comando técnico italiano e, após um período interino de Di Biagio, Roberto Mancini assumiu a seleção italiana.

Porém, desde 2018 que Mancini vem fazendo um bom trabalho ao leme da seleção italiana e o futuro parece risonho. Voltando a apostar num bom futebol e procedendo à necessária renovação na seleção, a Itália não perde há 27 jogos (a última derrota data de 10 de setembro, numa partida contra Portugal a contar para a Liga das Nações). Nesta competição, e após uma primeira edição em que terminou a fase de grupos atrás de Portugal que viria a sagrar-se campeão, a seleção italiana tem possibilidades de vitória. Após uma segunda edição em que terminou o grupo em primeiro lugar, disputará a fase final em outubro de 2021, onde encontrará a Espanha nas meias-finais. Antes da Liga das Nações, Itália tem também a fase final do EURO 2020, na qual se focará este artigo.

Convocados italianos

Guarda-redes: Gianluigi Donnarumma (Milan), Alex Meret (Napoli), Salvatore Sirigu (Torino);

Defesas: Francesco Acerbi (Lazio), Alessandro Bastoni (Inter), Leonardo Bonucci (Juventus), Giorgio Chiellini (Juventus), Giovanni Di Lorenzo (Napoli), Emerson Palmieri (Chelsea), Alessandro Florenzi (Paris Saint Germain), Leonardo Spinazzola (Roma), Rafael Toloi (Atalanta);

Médios: Nicolò Barella (Inter), Bryan Cristante (Roma), Jorginho (Chelsea), Manuel Locatelli (Sassuolo), Lorenzo Pellegrini (Roma), Matteo Pessina (Atalanta), Marco Verratti (Paris Saint Germain);

Avançados: Andrea Belotti (Torino), Domenico Berardi (Sassuolo), Federico Bernardeschi (Juventus), Federico Chiesa (Juventus), Ciro Immobile (Lazio), Lorenzo Insigne (Napoli), Giacomo Raspadori (Sassuolo)

A renovação da seleção italiana é evidente pela análise da convocatória. Em relação aos jogadores convocados em 2016, apenas sete nomes se repetem: Sirigu, Bonucci, Chiellini, Florenzi, Bernardeschi, Insigne e Immobile. Dos 26 jogadores convocados apenas quatro jogam fora de Itália: Emerson e Jorginho no Chelsea e Florenzi e Verrati no PSG. Nos últimos anos o campeonato italiano tem vindo o seu nível melhorar. Taticamente com várias ideias a coexistir, muitas delas bastante ofensivas em oposição ao rótulo estereotipado de campeonato defensivo. Se a presença de jogadores com esta qualidade ajuda a explicar o grande nível da Serie A, o ambiente mais competitivo vivido a cada semana também ajudou à melhoria exibicional de cada jogador a atuar, numa relação algo mutualista.

Como joga a Itália

O jogo particular realizado contra a República Checa pode ser tomado como base para esta análise. Os mecanismos ofensivos trabalhados por Mancini foram bem evidentes neste jogo e o onze titular deverá ser semelhante.

Donnaruma deve ser o guarda-redes titular ao longo do torneio. Chiellini e Bonucci foram os centrais titulares na partida contra a República Checa. Com bastante experiência em alto nível, ambos são líderes natos que desemprenharão um papel importante; no entanto, a ausência de velocidade e o cansaço acumulado poderão fazer prever alguma rotação neste setor. Os laterais têm papéis diferentes no movimento ofensivo italiano. Pela esquerda, Spinazzola garante a presença no corredor, permitindo assim ao extremo esquerdo (geralmente Insigne) a procura de terrenos interiores. Contrastando com a velocidade e a profundidade de Spinazzola, Florenzi é um lateral mais associado à construção de jogo. Dotado de uma boa leitura de jogo e de uma criatividade acima da média, o lateral tendencialmente junta-se aos médios na construção, ocupando o espaço do médio pela direita. Se o médio pela esquerda (Locatelli ou Verrati) e o médio mais defensivo (Jorginho) estão associados à saída em construção, onde ambos apresentam grande qualidade), a presença de Florenzi por terrenos mais interiores permite a Barella procurar terrenos mais avançados. À capacidade de construir, Barella alia a capacidade de transportar a bola em posse o que o torna um jogador essencial no jogo italiano, quer arrastando o marcador direto para fora de posição, quer na chegada à área. Na frente Insigne procura terrenos mais interiores beneficiando do posicionamento de Spinazzola já explicado previamente. À direita, Berardi e Chiesa disputam a posição. Ambos dotados de grande qualidade técnica, Berardi é um esquerdino que tanto é capaz de flutuar para o centro como de procurar a linha, tendo no passe e drible as principais armas. Já Chiesa é um jogador vertiginoso, capaz de ultrapassar os adversários em drible em velocidade e com grande capacidade de chegada à área. Na frente Immobile contraria o apelido e apresenta-se como uma opção móvel e bastante completa, sendo importante na construção em apoio e como ameaça à profundidade.

Fonte: sharemytactics.com

No banco Mancini tem vários jogadores que podem entrar. Sirigu e Meret oferecem segurança em caso de indisponibilidade Defensivamente, Acerbi, Bastoni e Tolói são três centrais que, habituados a jogar num sistema de defesa a três nos clubes, permitem a flexibilidade tática. Rafael Tolói luta também com Di Lorenzo pela posição de lateral direito suplente, enquanto na esquerda Emerson é o jogador disponível. No meio-campo, além de Locatelli ou Verrati que lutam pela posição de médio centro pela esquerda (Verrati deve partir em vantagem), há Cristante para uma posição mais recuada, Pellegrini para uma abordagem mais ofensiva e Pessina, o médio que substituiu o lesionado Sensi, é o jogador mais semelhante na forma de jogar a Barella, na medida em que também é capaz de quebrar linhas em posse e de se apresentar em terrenos mais adiantados para finalizar. Na linha de ataque, as alternativas no banco deverão ser Bernardeschi, um jogador que apesar das poucas oportunidades no clube tem-se apresentado bem na seleção, Chiesa ou Berardi, Belotti, um ponta de lança aguerrido e de área e Raspadori. O jovem avançado que participou no Euro-sub 21 (e que foi eliminado por Portugal) foi a surpresa na lista, mas a baixa gravidade e a capacidade de drible em espaços curtos e de criação de espaço para o remate ou passe fazem de Raspadori um elemento interessente a acompanhar neste europeu.

No entanto, apesar de ser uma das equipas ofensivamente mais interessantes e agradáveis de acompanhar, a nível defensivo a Itália pode ser permeável. A pouca velocidade dos centrais pode ser um ponto a explorar. Embora o posicionamento seja um dos pontos onde tanto Chiellini como Bonucci são mais fortes, a presença de jogadores que arrastem a marcação no meio-campo defensivo italiano pode gerar problemas para a seleção italiana. A defesa a cruzamentos e a bolas paradas pode também ser um ponto a explorar pelos adversários da seleção italiana.

Grupo A

Itália está inserida no grupo A da competição, enfrentando Turquia, Suíça e País de Gales. É a favorita a vencer o grupo, mas adivinham-se dificuldades. A Turquia é uma seleção que, embora algo irregular, cresceu nos últimos anos. Burak Yilmaz vem de uma reta final de temporada de grande nível e é o nome maior de uma seleção que também conta com jogadores como Soyuncu, Demiral e Calhanoglu. A Suíça, ao contrário da Turquia, é uma das seleções mais regulares do futebol europeu nos últimos anos. Apesar de não ter deslumbrado ou ter chegado perto de levantar um título, manteve-se sempre como uma das seleções da “segunda linha” do futebol europeu. Sommer, Akanji, Xhaka, Freuler e Shaqiri são alguns dos nomes da seleção que também conta com o benfiquista Seferovic. Já a seleção do País de Gales, a surpresa do último europeu, apresenta-se como a seleção teoricamente menos capacitada do Grupo A. Um Bale a grande nível acompanhado por jogadores como Ramsey ou Tyler Roberts permitem aos galeses sonhar com um apuramento. É um dos grupos mais indefinidos do torneio, mas a Squadra Azurra é a favorita à passagem e um não apuramento para os oitavos de final seria uma hecatombe desastrosa.

É importante também realçar que, pelo menos a fase de grupos será toda disputada em solo italiano, no Stadio Olimpico de Roma. Após um ano atípico e sem público, as bancadas outrora despidas voltarão, pelo menos parcialmente, a encher e o apoio dos adeptos italianos que verão a equipa a jogar em casa será fundamental. Pelo nível de jogo apresentado recentemente é uma das seleções a seguir no Euro 2020.

Fonte da imagem de capa: Twitter @Vivo_Azzurro