O EURO de: Portugal – Será demais pedir a taça?

Acabamos esta viagem pelas seleções portadoras de mais história e maior favoritismo neste Europeu, precisamente com a análise da equipa portuguesa, campeã em título. Em relação a 2016, muita coisa mudou mas figuras como Cristiano Ronaldo e o selecionador Fernando Santos mantêm-se com o desejo de mais uma vez fazer história.

A conquista em França, no último Europeu, concretizou uma viragem na perceção de Portugal aos olhos do futebol mundial, passando de um dark horse que poderia surpreender para uma equipa com legítimas chances de levantar troféus. O facto de desde 2000 se ter qualificado para todas as fases finais de competições internacionais e só por duas vezes não ter passado da fase de grupos, aliado ao desenvolvimento do futebol de formação nacional, tanto a nível de clubes bem como de seleções, ajuda a explicar a ascensão portuguesa nos últimos 20 anos a um patamar superior no panorama mundial. Depois de uma final perdida em casa contra a Grécia em 2004, e de meias-finais, de um Mundial, em 2006, e de um Europeu, em 2012, que terminaram em desilusão, as tão aguardadas conquistas internacionais no futebol sénior chegaram finalmente no Euro 2016, no Stade de France, e três anos depois na Liga das Nações, jogada no Estádio do Dragão.

A armada lusa apresenta-se neste Euro 2021 com jogadores que ajudaram a construir este passado recente, como Pepe, João Moutinho ou Cristiano Ronaldo mas esta competição marca principalmente a afirmação de uma geração mais jovem e talvez mais talentosa do que a de há de 5 anos atrás, que tinha uma média de idades de cerca de 28 anos e primava pelo pragmatismo e controlo de emoções. A verdade é que esta é uma equipa bastante profunda, com mais de uma opção de alto calibre para cada posição, permitindo a escolha de vários sistemas táticos antes e durante cada partida, que se caracterizam por uma grande liberdade posicional e de movimentos.

Convocados

Para este efeito, Fernando Santos convocou os 26 jogadores que considera que melhor se encaixam no plano de jogo idealizado para este certame:

Guarda-redes: Rui Patrício (Wolves), Anthony Lopes (Lyon), Rui Silva (Real Bétis)

Defesas: Diogo Dalot (AC Milan) , Nélson Semedo (Wolves), José Fonte (Lille), Pepe (FC Porto), Rúben Dias (Manchester City), Nuno Mendes (Sporting CP), Raphael Guerreiro (Borussia Dortmund)

Médios: Danilo Pereira (Paris Saint Germain), João Palhinha (Sporting CP), William Carvalho (Real Bétis), Rúben Neves (Wolves), Sérgio Oliveira (FC Porto), Renato Sanches (Lille), João Moutinho (Wolves), Bruno Fernandes (Manchester United), Pedro Gonçalves (Sporting CP)

Avançados: Bernardo Silva (Manchester City, Rafa (SL Benfica), Gonçalo Guedes (Valência), Diogo Jota (Liverpool), João Félix (Atlético Madrid), Cristiano Ronaldo (Juventus), André Silva (Eintracht Frankfurt)

Nota: Esta lista já contempla a alteração de última hora de João Cancelo por Diogo Dalot, pelo facto do lateral do Manchester City ter testado positivo à Covid-19, este domingo.

Os principais pontos de interrogação desta convocatória foram a escolha de Nélson Semedo em detrimento de Ricardo Pereira para a lateral direita e a opção de levar apenas 3 defesas centrais, confiando na versatilidade de Danilo ou João Palhinha para colmatar esta lacuna, deixando de fora Domingos Duarte, Rúben Semedo ou Gonçalo Inácio, defesas centrais de raiz. Há também um claro rejuvenescimento da equipa com históricos como Ricardo Quaresma, Nani ou Bruno Alves a darem lugar a jogadores que agora dão os primeiros passos de quinas ao peito- Nuno Mendes ou Pedro Gonçalves.

Modelo de Jogo

        Possível onze base português

Apesar de desde que o treinador de 66 anos assumiu a seleção, em 2014, o seu sistema tático preferido ter sido sempre o 4x4x2,é provável que nesta competição a equipa portuguesa se disponha num 4x3x3, com um meio-campo constituído por um médio mais defensivo, um de ligação e outro mais ofensivo que se junta à linha de três mais avançada, na manobra atacante. Contra seleções com maior pendor ofensivo e com uma linha de pressão que condiciona a construção a partir de trás, o sistema pode passar para um 4x2x3x1 com duplo pivot e uma espécie de número 10 que baixa a defender e a atacar aproxima-se do ponta de lança, como um segundo avançado.

Mas começando de trás para a frente, pela baliza, apesar da imensa qualidade de Anthony Lopes antever uma alteração no futuro, por agora Rui Patrício deverá ser o dono e senhor do lugar que ocupa já há mais de dez anos, a menos que aconteça algum imprevisto. Na defesa, a saída de última hora de João Cancelo é uma baixa importantíssima pois o lateral estava na melhor forma da sua carreira e dava uma profundidade no ataque que nem Dalot nem Nélson Semedo, o provável substituto, conseguem acrescentar. Não obstante, continua a haver bastante qualidade numa linha defensiva que conta com uma dupla de centrais bastante forte com Ruben Dias e Pepe a construírem um autêntico muro, imperais na bola parada, mas com algumas limitações na construção de jogo. Neste setor a principal dúvida poderá estar na lateral esquerda onde a hipótese Nuno Mendes ganha cada vez mais força na medida em que este dá grande velocidade a uma ala não tão utilizada normalmente em construção lenta, mas dada a juventude do jogador do Sporting, em jogos mais exigentes em termos defensivos, Raphael Guerreiro não deve perder o lugar devido à segurança que dá à equipa.

Do meio-campo para a frente é expectável que ao longo dos jogos, haja alguma rotação consoante o adversário a defrontar mas a premissa de jogo mantém-se. Apesar de poder jogar com William Carvalho e Danilo Pereira ao mesmo tempo, o mais provável é que Fernando Santos opte pela colocação do médio do Bétis na posição 6, pela sua calma a construir e capacidade de destruição de transições dos oponentes, juntando-lhe um médio com outra criatividade que desça para fazer um duplo pivot a defender e seja o elemento que inicia as transições ofensivas cabendo este papel a João Moutinho ou a Rúben Neves. No vértice mais avançado do meio-campo, Bruno Fernandes beneficia deste sistema tático para assumir um papel quase de maestro do ataque português, aparecendo muitas vezes em zonas de finalização como alternativa a Cristiano Ronaldo.

No ataque, o capitão da seleção continua a ser a principal referência ofensiva da equipa mas já não tem a responsabilidade de outros tempos de “carregar a nação às costas”, contando com o apoio do mágico Bernardo Silva, que parte da ala direita para o meio para organizar jogo, e de Diogo Jota, que aparece em grande forma neste Europeu. Ao longo da qualificação, assistimos muitas vezes ao aparecimento do extremo do Liverpool no coração da área, aproveitando a marcação apertada a Ronaldo para ganhar espaço e marcar golos importantes. A profundidade do banco português evidencia-se no ataque onde André Silva e João Félix oferecem alternativas mais centrais no decorrer de cada partida provocando a mudança para um possível 4x4x2, enquanto que Guedes e Rafa oferecem velocidade e largura para aproveitar o cansaço das defesas adversárias.

O que esperar

Portugal está inserido no Grupo F, juntamente com Alemanha, França e Hungria, naquele que é considerado o “grupo da morte” deste Campeonato da Europa. Apesar da conjuntura não ser tão fácil teoricamente, em relação, por exemplo, ao Euro 2016, é expectável que, com maior ou menor dificuldade, os lusos consigam passar para a fase a eliminar, onde a colocação numa ramificação favorável pode facilitar o acesso até a final.

Apesar dessa ambição, é necessário primeiramente, preocupar-se com os três jogos desta fase da competição, começando pela partida com Hungria, a disputar na próxima terça feira, onde só a vitória interessa contra a seleção teoricamente mais fraca do grupo mas que irá contar com o apoio de um estádio cheio (67 mil pessoas), como há muito não se vê no desporto europeu. Garantir 3 pontos neste jogo daria uma maior margem para os dois seguintes, contra uma seleção germânica em claro fim de ciclo mas que mete sempre respeito e, depois, contra os gauleses, naquela que pode ser considerada uma final antecipada e que muito provavelmente irá decidir o primeiro lugar do grupo.

A chave da participação portuguesa no Europeu pode passar pela gestão de expetativas após qualquer resultado bem como pela capacidade de contrabalançar o talento individual com a solidez coletiva para não depender apenas de rasgos dos principais talentos da equipa. A palavra talento é assim a que melhor caracteriza este grupo, que tem as condições necessárias para pensar jogo a jogo, rumo à final de Wembley, a jogar no dia 11 de julho.

Fernando Santos já disse que leva mala e tabaco para um mês, resta esperar que toda a equipa tenha feito o mesmo.

 

Fonte da imagem de capa: Twitter @selecaoportugal

Fonte das tácticas: Share my tactics