Apatia portuguesa na derrota contra a Alemanha

No duelo de Munique, Portugal saiu derrotado por 4-2 após uma apática exibição que complica as contas no grupo F.

Fernando Santos e Joachim Low repetiram os titulares da primeira jornada. Do lado de Portugal manteve-se o 4-2-3-1 com Rui Patrício na baliza, Nélson Semedo na direita, Raphael Guerreiro na esquerda e Pepe e Rúben Dias no centro da defesa. À frente da linha defensiva manteve-se o duplo pivô constituído por Danilo e William Carvalho que tinha a tarefa de acompanhar Gundogan. Bruno Fernandes jogava (teoricamente) à frente dos médios com liberdade para deambular entrelinhas, com Bernardo Silva à esquerda, Diogo Jota à direita e Cristiano Ronaldo a comandar o ataque português.

Do outro lado, a Alemanha manteve a aposta em Rudiger, Hummels e Ginter numa tripla de centrais que jogou à frente de Neuer. Gosens à esquerda e Kimmich à direita foram os responsáveis por fazer as alas. No centro do terreno Kroos à esquerda estava mais associado a tarefas de distribuição enquanto Gundogan tentava a chegada ao ataque. Na frente Muller e Havertz apoiavam Gnabry numa frente de ataque marcada pela capacidade de jogar entre as linhas portuguesas e pela constante mobilidade.

A Alemanha desde cedo entrou com mais vontade e organização e aos cinco minutos chegou a introduzir a bola na baliza. O golo viria a ser anulado por fora de jogo de Gnabry, mas foi uma demonstração do poderio alemão. Pressionando alto no terreno, a Alemanha impedia a equipa portuguesa de progredir pelo terreno utilizando o corredor central. Os laterais portugueses poderiam ser importantes na progressão da equipa portuguesa uma vez que eram os elementos que mais espaço livre tinham para percorrer. No entanto, incapazes de articular jogo e de realizar movimentos interiores ou de encontrar colegas capazes de receber verticalmente para organizar, a alternativa livre rapidamente se transformou no local para qual a seleção portuguesa era atraída para posteriormente ser castigada. O lance do remate de Havertz aos nove minutos foi um dos vários exemplos de tal situação.

Face à superioridade evidente da seleção alemã, o golo de Portugal foi uma surpresa. Uma bola parada ofensiva da equipa alemã transformou-se numa bela jogada ofensiva da turma portuguesa. É Cristiano Ronaldo que afasta a bola na área e quem concluiu a jogada. No entretanto, Bernardo Silva conduziu a bola durante meio-campo, temporizou de forma perfeita aguardando que Cristiano Ronaldo que correu o campo em marcha cinco arrastasse a defensiva alemã e libertasse o espaço para Diogo Jota. O extremo português recebeu com o peito o grande passe de Bernardo, e com um passe para o meio tirou Neuer da jogada e permitiu a Ronaldo encostar para a baliza deserta.

O golo em nada mudou a postura da seleção portuguesa que continuou fechada no seu meio-campo e apática na saída. Já a seleção germânica continuou a pressionar alto no terreno e, foi sem surpresa que chegou ao golo de empate.

Rudiger à esquerda dava liberdade a Gosens para ocupar a ala. Na direita, Ginter progredia no terreno, ocupava a ala e dava liberdade a Kimmich para ocupar tanto o lado direito como para ocupar terrenos mais centrais. Ginter e Kimmich superiorizavam-se numericamente a Raphael Guerreiro e com facilidade encontravam saídas, principalmente para o outro lado do terreno onde Gosens aparecia sistematicamente sem oposição. No meio Kroos era também fundamental num jogo silencioso, mas fundamental de direcionar o lado de ataque.

Foi através desta superioridade no lado direito e do espaço livre para Gosens à esquerda que surgiu o primeiro golo alemão. Aproveitando-se da mobilidade de Havertz, Gnabry e Muller e da capacidade dos três elementos ocuparem o espaço e de arrastarem os jogadores portugueses, a bola foi cruzada da direita para uma zona livre na qual surgiu Gosens. O ala tocou para o meio e Havertz colocou a bola na baliza a meias com Rubén Dias, a quem foi atribuído o golo (na própria baliza).

O segundo golo resultou da responsabilidade atribuída a Rudiger na construção. O central alemão colocou uma grande bola em Gosens que, aproveitando o espaço deixado no lado direito da defensiva portuguesa colocou a bola no meio da área. A bola acabou por parar em Kimmich que tocou a bola para o meio da área e Raphael Guerreiro acabou por a introduzir na própria baliza.

A primeira parte acabou e a presença portuguesa em campo estava a ser inexistente. Incapaz de parar a Alemanha que vinha fazendo uma grande exibição e de sair com perigo para o ataque, era necessário mudar muita coisa ao intervalo.

A postura defensiva adotada por Portugal foi facilmente desmontada e o lado direito vinha a ser um problema. Bernardo Silva não acompanhava Gosens até ao fim do corredor e, fruto da inclinação portuguesa para o lado esquerdo, a presença de Nélson Semedo em terrenos mais centrais era necessária, mas criava um autêntico buraco que soube ser aproveitado por Gosens.

A entrada de Renato Sanches ao intervalo foi importante, mas nos primeiros 15 minutos não foi capaz de solucionar os problemas defensivos portugueses. Ao invés de trocar taticamente o sistema para duas linhas com quatro, Renato funcionou como um ala que atuava mais por dentro e Gosens continuou a ter muito espaço para ocupar na esquerda.

Aos 51 minutos a Alemanha aumentou assim a vantagem, num caminho adotado frequentemente pelos germânicos e já explicado previamente. Bola na direita, movimentos entre linhas dos atacantes alemães, mudança de flanco para Gosens que assitiu Havertz. Após influência em todos os golos, também Gosens inscreveu o seu nome da lista de marcadores. O movimento de Havertz arrasta a marcação de Nélson Semedo e Rafa não acompanhou Gosens que, sem oposição, respondeu de cabeça ao cruzamento de Kimmich.

Logo após o golo Portugal ganhou nova vida. A saída de Gosens, o homem do jogo, retirou muito do perigo criado pela seleção Alemanha. Ao mesmo tempo, a troca de William por Rafa que se tinha realizado ainda antes do quarto golo, permitiu a Renato Sanches colocar-se no centro do terreno onde passou a ter maior influência. Importante como muro a travar algum do ímpeto alemão e com a habitual capacidade de quebrar linhas em posse, Renato mostrou mais uma vez argumentos para merecer uma chamada à titularidade.

No entanto, as diversas alterações foram incapazes de solucionar um dos problemas de Portugal neste Europeu: a incapacidade de ter um jogador capaz de fixar a defensiva alemã. Ronaldo por muitas vezes recuava para vir buscar jogo obrigando Bruno Fernandes a posicionar-se à frente dos centrais, sem liberdade para se deslocar, uma situação não benéfica para nenhum dos dois jogadores.

Já com Moutinho no lugar de Bruno Fernandes, Portugal reduziu e voltou a trazer alguma incerteza ao resultado final. Livre batido de forma exímia pelo médio português, Ronaldo ao segundo poste a desviar para Diogo Jota que encostou. Foi através de bolas paradas que Portugal se aproximou mais vezes da baliza alemã e a abordagem nestas foi semelhante. O cruzamento era geralmente realizado para a zona do segundo poste com o intuito de encontrar um jogador português que amortecesse a bola para o remate final.

Nos últimos 30 minutos houve um ligeiro ascendente de Portugal, muitas substituições para ambas as equipas, mas só por uma vez a baliza alemã foi realmente ameaçada. Renato Sanches procurou repetir o golo que marcara ao serviço do Benfica contra a Académica, e à entrada da área desferiu um potente remate que só embateu com um estrondo no poste da baliza defendida por Neuer.

O resultado acabou por não voltar a mexer e Portugal caiu com um estrondo na cidade de Munique e é obrigado a fazer contas para garantir a passagem à próxima fase do Euro 2020. Quarta-feira, dia 23 de junho, joga com a França a passagem aos oitavos.

Fernando Santos confirmou a presença de tabaco e de roupa para um mês nas malas que levou. A qualidade apresentada por Portugal deixa também adivinhar a presença de uma calculadora na mala do Engenheiro.

Fonte da imagem de destaque: Twitter @selecaoportugal